B.E.D.A. / A Ama De Leite

Monumento À Mãe Preta, junto à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paiçandu.

A Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, localizada no Largo do Paiçandu ou Paissandu, na região central da cidade de São Paulo, foi construída gratuitamente por trabalhadores pretos no início do século XX. Originalmente, estava localizada na Praça Antônio Prado, onde foi construída entre os anos de 1721 e 1722. Era um espaço de reunião de pretos livres e escravos, que celebravam ritos católicos misturados às crenças de origem Banto. Com o processo de urbanização iniciado pelo prefeito Antônio Prado, a antiga igreja foi demolida em 1903, depois reconstruída onde se encontra atualmente. A nova igreja foi consagrada em 1906 quando, em grande procissão, com cantos e fanfarra, trasladou as imagens do antigo templo para o atual.

Em frente à ela, encontra-se o Monumento À Mãe Preta — o sempre impactante e contraditório monumento à figura da ama-de-leite compulsória dos filhos de classes abastadas, seus senhores e donos, à época do regime escravocrata. mesmo depois de terminada, o expediente da utilização de ama-de-leite se espraiou pelos anos à fora até hoje, principalmente nos “muitos interiores” pelo Brasil. Senão a ama-de-leite, o uso de babás que vêm a substituí-las no papel de mãe de quem pode pagar por isso e que não tem outra coisa a fazer a não ser desfilar por shoppings, clubes e festas.

Eu a conheço (a estátua) desde garoto. Nunca deixou de me causar uma forte impressão. As formas opulentas da personagem criada por Júlio Guerra, inaugurada em 1955, seria uma homenagem à participação da raça negra na História do Brasil. Rendo todas as minhas honras à todas essas pessoas que doaram os seus corpos para que hoje vivêssemos as nossas atuais contradições. Não o faço àqueles que, um dia, exploraram seres humanos como objetos, tanto quanto nos dias atuais.

O que impediria que a estátua venha a ser tomada como um monumento ao sistema escravocrata, o abençoando é que, por carregar um forte valor imagético relacionado à mãe, a estátua é cultuada por uma parcela da população, sendo comum a deposição de flores e velas junto ao pedestal de granito da estátua. Um gradil foi colocado recentemente em volta do pedestal para preservar a imagem do escurecimento causado pela fumaça de velas. A imagem acima é de 2015, de meus arquivos.

Como eu disse acima, vivemos em constante contradição. Vejo com crescente estranheza o cotidiano brasileiro. A sociedade é plural, assim como é plural as suas visões de mundo. Somos filhos do escravismo. Ele não assolou apenas os pretos, mas como devasta as relações humanas até hoje. O Brasil, um país miscigenado — muitas vezes à força — escancara a incoerência de ser brasileiro, nos colocando em posições cada vez mais discrepantes entre ideia e ação. Graças a isso, estamos vivenciando situações que não ultrapassam os ciclos passados, fazendo eclodir as possibilidades de nossas piores dores.

Cada dia é um dia…

Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi /
Darlene Regina / Roseli Pedroso / Lunna Guedes

B.E.D.A. / Pai

Vou à padaria — prosaicos
pãezinhos recém-saídos do forno
iniciariam o meu dia na casa vazia.
Mesmo depois de acordar,
visualizar-responder às mensagens,
caminhar,
só me é dada à luz dos olhos
depois de um gole de café,
com pão e manteiga — homenagem
aos meus primeiros cinquenta
anos de vida com mamãe.
Seu rosto marcado e cabelos prateados
ainda passeiam por trás das minhas retinas
dez voltas em torno do sol depois
de cumprir a nossa sina…


No retorno aos muros de meu recolhimento,
um anónimo bêbado insone,
àquela hora da manhã
tropeça em si mesmo,
lata de cerveja à mão,
olha para todos os lados,
como se esperasse alguém chegar,
um abraço a lhe abraçar…
Seria a esposa,
um amigo,
irmão,
um filho,
ninguém?
Apenas o próximo fantasma a lhe assombrar?
Um pai sem filhos?
Um filho sem pai?
Um dia dos pais
sem paz,
sem par,
sem possibilidades-passos-pessoas
a lhe aguardar?…


Eu me projeto em sua condição.
Porém, só me embriago de sonhos.
Acordado, carrego à mão
o nada ser,
o nada a acontecer,
o nada gestar…
A não ser versos sem rima,
arrítmicos,
textos-tropeços em palavras tísicas,
quedas em si-abismo…


Mas sou pai…
num país de filhos
e pais mortos,
sem cerimônias de adeus…
Não consigo escapar ao presente
e ébrio de insensatez,
compadecido,
lanço ao desconhecido:
Bom dia, pai!
Ele sorri desdentado
e ainda que talvez tivéssemos
a mesma idade, responde:
Bom dia, filho!…

Participam do B.E.D.A.:

Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Adriana Aneli

B.E.D.A. / Os Chinelos

Dia dos Pais. Domingo de descanso, dentro do “descanso”. Com poucos eventos para cumprir pela Ortega Luz & Som, cumpro minhas tarefas caseiras diárias. Eterna labuta em que sempre falta o que fazer. Mais do que ninguém, percebo o quanto elas têm tempo de duração efêmero. Horas, com sorte. Valorizei desde sempre a faina ao qual apenas as mulheres tinham por “obrigação” executarem. Simplesmente porque haviam nascido mulheres. Quase como se fosse predestinação — gado marcado — pertencente aos senhores da casa.

Por sorte — no sentido de destino fui criado quase que somente por minha mãe. Irmão mais velho, eu a ajudava nas tarefas de casa. De certa forma, comecei a gostar disso, ainda que em muitas situações, quando algo mais atraente surgia, como jogar bola, eu as tenha deixado de lado. Puxar água do poço, fazer fogueira para esquentar a água do banho de canequinha, são coisas que não faço mais. Porém, fazer feira, preparar comida para as criações de galinhas e para os muitos cachorros, varrer a casa e o quintal, lavar a louça, preparar almoços e jantas também as realizo atualmente.

O meu pai foi exemplo em sentido contrário de como não deveria agir como pai. No entanto, não é fácil se desvencilhar de anos de tratamento de choque patriarcal. Busquei ser para a Romy, a Ingrid e a Lívia alguém que fosse, no mínimo, verdadeiro, estando certo ou errado, na visão que pudessem ter de mim. Chegava a dizer em tom de brincadeira séria, que a nossa relação não era uma Democracia. Não que as impedisse de serem o que ou quem quisessem ser. De certa maneira, o máximo que podemos fazer com relação aos filhos é que lhes forneçamos subsídios, espaço seguro e anteparo para os voos pessoais. E isso passa também por regramento.

Depois de sua passagem, tenho tentado aplainar as diferenças com o meu pai para chegar o mais perto possível dele — perdoá-lo em mim, me perdoando. Os momentos mais próximos que tive com o senhor, meu pai, foi quando arrisquei entrar por três vezes no lugar onde ficou preso e foi torturado — nas celas do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) onde hoje encontramos a Estação Pinacoteca. Cheguei a entrar no saguão, mas não consegui ir além. Li que as antigas celas haviam sido convertidas em mini galerias, com exposições temporárias de artes. Esqueceram de dizer que fantasmas rondam aquele lugar e as vozes de torturados ecoam pelas paredes e atravessam as mentes de alguns, como eu.

Em todas as ocasiões, chorei. Quem eventualmente me visse, não entendia nada. Mas estava sentindo a dor de meu pai e de tantos outros que ali sofreram. Sentia não apenas a dor física, mas também a de abandono à própria sorte. Sentia a humilhação por ter a vida nas mãos de tipos que chegavam a sorrir com o sofrimento alheio. Sentia a aniquilação da humanidade em jogo de via dupla tanto torturados quanto torturadores — transformados em simples animais.  Encharcados de suor, urina e merda, os seviciados voltavam para as suas celas subjugados a ponto de agradecerem não terem morrido depois de cada sessão em que crescia o desejo de verem extinto o padecimento — uma pequena vingança contra quem sente prazer em levar o inimigo ao limite intangível.

Há alguns dias, a Tânia me presenteou com um par de chinelos pelo Dia dos Pais. Eles me remeteram aos chinelos que meu pai usava, parecidos a estes. Confortáveis, abertos, podem ser usados com aquela meia velha, puída, de aconchego confiável. Acolhimento de aposentado, meu pai talvez se reservasse o direito de ficar longe de filhos e netas, com seus pedidos, desejos e manhas. Nunca foi bom em ser pai, com certeza não seria melhor avô. Ou foi e eu não sei. Ouvi relatos das minhas filhas e sobrinha que me indicavam o contrário. Então, vai ver, o problema era pessoal, só comigo mesmo…

Resolveremos essa pendenga um dia…

Participam do B.E.D.A.:

Adriana Aneli / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia /

Lunna Guedes / Darlene Regina / Claúdia Leonardi

B.E.D.A. / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Vícios

A palavra Vício é derivada do latim vitium e significa falha ou defeito. Também poderia ser definido como dependência física ou psicológica que impele alguém a buscar o consumo excessivo de algo, geralmente uma substância. Normalmente está associado a um problema ou imperfeição, denotando fraqueza ou deformidade de caráter, eventualmente causando desarranjo pessoal, familiar e/ou social.

Festa Grega com a Banda Kostakis, em 14 de março de 2020

No meu caso, percebi que sou viciado em trabalhar — hábito que deixei de exercer quase de supetão com o advento da Pandemia de Covid-19. Da noite para o dia, foram cancelados os mais de cem eventos programados para o ano de 2020, a partir de meados de março, quando realizamos uma festa grega.

Casamento em São Bento de Sapucaí – MG, em Outubro de 2020, com a Banda Almanak

Em outubro do ano passado, realizamos — meu irmão e eu, da Ortega Luz & Som o primeiro do que seria uma série de festejos que denotaria a retomada da normalidade. Na época, se discutia a ascensão do “novo normal”. Tenho por mim que apenas uma chuva cósmica mutante de proporção planetária instauraria uma mudança no comportamento do homem. O valor desse evento — um casamento na fronteira entre São Paulo e Minas — foi realizado com todas as medidas protocolares de proteção: distanciamento social, número reduzido de pessoas, em lugar aberto, arejado, o uso de máscaras (para os trabalhadores) e disponibilidade de álcool em gel. O interessante é que como já havíamos recebido em março, pagamos para trabalhar. O valor antecipado havia se desvanecido nos meses anteriores da doença que paralisava o País.

Foto ilustrativa em evento realizado em Julho deste ano. O Natal de 2020 foi realizado pela mesma banda Felice Itália.

Em dezembro, fizemos dois eventos especiais Natal e Réveillon. Estávamos vivendo a possibilidade de passarmos ao novo fechamento total das atividades comerciais. Alheios às necessidades em relação aos procedimentos restritivos no combate à Pandemia, convivi com negacionistas enquanto degustava uma excelente comida. Ainda bem que não tive uma congestão.

Réveillon realizado no Satélite Clube, de Itanhaém, com a Banda Matrix.

O Réveillon ocorreu no Litoral paulista — em Itanhaém sob um calor infernal, como poucas vezes senti. Como se não houvesse amanhã, o público dançou aglomerado e desmascarado. Os fogos do Ano Novo refletido nas águas do mar duplicavam os meus presságios de que 2021 seria uma reedição do ano que estava acabando somente na folhinha.

Trio La Bella Itália, em show realizado no Teatro Safra, em Julho de 2021.

Uma das minhas maiores decepções foi encontrar muitos dos meus companheiros do setor de entretenimento artístico vociferando contra as medidas de restrição. Tanto quanto eles, sofri econômica e psicologicamente os seus efeitos. No entanto, eu sabia que a alternativa seria a morte, como ocorreu com muitos dos meus colegas e seus familiares.

Banda Ray Conniff Tribute, em evento realizado em São Paulo, em Julho de 2021.

Uma pequena retomada parece estar em processo com o avanço da vacinação. O fantasma no horizonte é a variante Delta da SARS-COV-2 — resultante da defasagem do processo retardado (de forma intencional) da imunização. A manifestação do Vício em seu pior vezo é o de ostentarmos com orgulho e estrepitosa empáfia maléfica, o nosso atraso institucional, o reeditando de tempos em tempos em variações cada vez mais virulentas, como ocorre atualmente.

Vejo nuvens negras no horizonte…

Participam do B.E.D.A.:

Lunna Guedes / Darlene Regina / Adriana Aneli / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Roseli Pedroso