BEDA / A Ilha

Ilha

Saindo da academia, eu caminhava de volta à minha casa pela larga avenida de duas pistas, separada por uma ilha ajardinada. Logo, encontrei aqueles três que formavam aquela família cambaleante. Um homem, uma mulher e um cão, envelhecidos e cansados. Aparentemente, eram moradores de rua, usavam andrajos, estavam sujos e caminhavam cambaleantes e… cansados, os três.

O homem estacou o seu passo, o cão, grande, mas muito magro, também parou, bem junto ao companheiro. Ambos olharam para trás, esperando a mulher cansada se aproximar. Todos juntos, novamente, ameaçavam atravessar a pista naquele passo lento e indeciso, de cansaço e embriaguez, dois deles; de cansaço e fome, o outro. Comecei a temer que os três não conseguissem ultrapassar a cortina de carros velozes que pareciam aumentar a velocidade ao perceberem a intenção do grupo.

Tão cansados pareciam os três que cheguei a me perguntar – por que simplesmente não paravam e descansavam? Vi-me com a mesma barba desgrenhada do homem, apiedei-me do cabelo hirsuto e despenteado da mulher, alcancei os sintomas da perplexidade do cão. A intenção de atravessar talvez fosse para isso mesmo – chegar à ilha central, onde deitariam à relva e à sombra, entre as pedras, os seus cansaços e desapegos.

Fiz-me outra pergunta – por que não decidiam descansar, permanentemente? O que os mantinham caminhando a esmo pelas ruas e canteiros de jardins? Vivendo de recolher restos de comida ou latas de cervejas e refrigerantes jogadas nas calçadas pela pouca educação dos seus semelhantes, para trocá-las por poucas moedas? Julguei que por amor, solidariedade ou companheirismo, os três seres, mesmo tão cansados, permaneciam vivos e unidos. Ele a ela, ela a ele, o cão aos dois, caninamente…

Finalmente, de forma periclitante, chegaram à divisa verde que separava o rio asfáltico. Nessa ilha, dormiriam (sonhariam?) e lamberiam as feridas, os três, tão cansados…

BEDA / Scenarium / Carta À Cecília, Mulher Do Olhar Marinho

Cecília

Eu, menino, apaixonado por mulheres, entrei em contato com os seus olhos claros através da revista “O Cruzeiro”, versando sobre seu percurso de escritora. À época, você já havia fechado seu olhar marinho para o mundo, quando eu contava ainda três anos de idade. A foto era em preto e branco, portanto não tinha como saber que fossem azuis-esverdeados, como testemunham que fossem. Não duvido que a depender da luz que incidisse sobre eles, outras cores se somassem – todas as possíveis do arco-íris. Se chegou a vê-los vazios, talvez os revelasse por espelho comum dos dias mais amargos, do coração que não se mostra.

Mulher de valor ímpar, imagino que achasse graça em ver sua face gravada em notas de 100 Cruzeiros, ao tempo de planos econômicos que a transformaram em Cruzados, depois, em Cruzados Novos e, novamente, em Cruzeiros, no processo de desvalorização contínua da nossa economia, até vir se tornar definitivamente item de colecionador de numismática, ciência-irmã das coisas fugidias. Sua obra literária, no entanto, só cresceu em apreciação e relevância, minha cara poeta. Palavras que ultrapassaram as fronteiras da vida comum e da morte física, para estampar a cara da nossa alma. Sua fala poética não emudecerá, jamais.

Confesso que enquanto você falava de Isabéis, Dorotéias e Heliodoras, eu a confundia com Lygia e Clarice, irmãs na língua e na literatura. Leve dislexia de quem foi dado a ler as três quase ao mesmo tempo. Eu, fascinado, tentava decifrar a mulher ainda garoto e me perdi no emaranhado dos pensamentos-sentimentos-emoções humanos mais profundos – perdição da minha vida. Foi-me dado a conhecer que a mulher apresenta fases como a Lua, que ela se pertence antes de eu querer que pertença a mim e, se ou quando ela viesse a me querer, talvez eu não esteja presente para possuí-la. Desde então a soube fugidia-errante – no céu, na rua.

Sobrevivente entre quatro irmãos, filha da esperança e da melancolia de interminável fuso, amou, foi e é amada, por companheiros e leitores. Que soube que o dia se faz, ainda que o sol estivesse encoberto. Que, de modos rebeldes, tornou-se prisioneira do amor por lutar pela liberdade de viver, nem alegre e nem triste, mas poeta. Que desmoronou e edificou a eternidade – não passou, ficou. A você, Cecília, toda a minha admiração por ter vivido pela palavra e ter aprendido com a inconstância das primaveras a deixar-se cortar e a voltar sempre inteira – desejo de todo o ser.

In: Missivas De Agosto – https://scenariumplural.wordpress.com/2019/08/14/carta-a-cecilia-mulher-do-olhar-marinho/

BEDA / Mulheres Maduras

Mulheres Maduras
Helen Mirren, atriz
Eu convivo com mulheres maduras de todas as idades. As mulheres que ostentam números menores nos “RGs”, nunca menor que milhões, passaram por tantas fases internas e externas, sentiram tantas emoções, vivenciaram amores e desamores, sofreram decepções, sangraram decalitros de sangue, perceberam o mundo a doer no centro de sua barriga em tantas cólicas, que simplesmente poderiam deitar e declarar aos quatros ventos: “Não quero mais nada disso!”…No entanto, levantam a cada manhã a desejarem ser felizes. Querem mudar o mundo ou o cabelo; fundarem uma nova empresa ou iniciarem uma nova empreitada; comprarem sapatos ou carros novos; carregarem novos sonhos em bolsas novas; colocarem aquele vestido que fará o seu amor exclamar “Uau!”; chamarem a atenção de um possível novo amor, causar admiração ou apenas se sentirem bem. O amor que carregam dentro de si querem fazer valer a pena. Querem pagar todas as penas, se preciso for, para vivê-lo…

Pobre dos homens que não as valorizam. O quanto perdem por não poderem conhecer novos universos tão próximos de si. Garotos que um dia quiseram ser navegadores, astronautas ou mergulhadores, não se atinam que poderiam viajar para tantas realidades alternativas apenas se desligassem de seus umbigos para alcançar mundos inexplorados ao alcance das suas mãos, acionado os quase trinta sentidos que existem. Sei que, pelo menos as mulheres, os tem…

Homens, para o nosso bem, amem as mulheres maduras. Não precisam “tê-las”, porém as “tenham”, se forem “suas”, porque elas querem se sentir pertencidas, também. Só temos a ganhar em vida e substância se, mesmo por um tempo em nossas vidas, descobrirmos essas estranhas realidades a se imiscuírem em nossas parcas realidades…

Talvez alguns de vocês tenham percebido que eu tenha terminado cada parágrafo com reticências… – palavra que só se escreve no plural. Mulheres maduras são como reticências, para mim. Deixam no ar a ideia de continuidade sem muita explicação, porque carregam inúmeras delas… Como rastros de perfumes pessoais que semeiam, os quais nós, homens e meninos, não sabemos quantificar, mas que os nossos corpos acolhem em saraivadas de poderosas sensações inomináveis a nos fecundar a terra…

BEDA / O Desamado

DESAMADO
Amanhecer fogoso…
O sol assoma no horizonte,
impetuoso…
fulgurante…
No entanto, para o desamado,
os seus raios não apenas queimam,
mas penetram, feito adagas,
a golpearem o seu corpo cheio de chagas…

Aturdido, o desamado
não compreende como pode tanto amar
e se ressentir tanto
de quem ama…
Padece por estar longe…
Quando por perto, é repelido
e sofre por ver seu amor desperdiçado…

A quem ama,
também o amou…
Ou talvez ainda o ame…
Mas viveu outras histórias de paixão
que machucaram o seu corajoso coração,
tão bravo que insiste em se apaixonar de novo…
Precisa se sentir plena e ímpar,
não apenas distinta entre todas,
mas única e soberana,
feito uma leoa na estepe…
Qualquer olhar lateral a faz desconfiar,
a remete às presas fendidas,
às paixões perdidas…

Como defesa,
prefere boicotar o amor,
substituir a sofreguidão pelo corpo do amado
por outro vício –
cigarro, bebida, sexo sem sentido, qualquer droga…
Afastar o desejo por aquele que a fere sem querer –
o triste desamado, que naufraga
em sua santa ignorância
inepta e juvenil…

BEDA / Inveja Branda

Inveja

Inveja – talvez seja a palavra mais próxima ao sentimento que tenho com relação ao que observo nas mulheres que amam. É uma inveja branda e que considero, de certa forma, um salto para melhor na gama de sentimentos que se conflitam em mim. Tenho exemplos próximos e mais longínquos de mulheres que expressam esse amor em momentos os mais diversos. Tenho como um dos exemplos a minha mãe que, além de amar extremadamente a nós, seus filhos, amou a meu pai a sua vida toda. Amor não correspondido. Até quase o final de sua existência, nutria certa esperança de que ele, enfim, voltasse para o lar. Portanto, foi surpreendente para nós quando, depois de mais de quarenta anos de “casamento”, pediu o divórcio, para lá dos seus setenta anos. Nesse episódio, prevaleceu o amor por seus filhos e netas. Ela percebeu que talvez não tivesse tanto mais tempo de vida e precisava ter condições de realizar o que cria ser necessário, nesse ínterim, até o fim.

Mulheres que amam declaram o seu amor a plenos pulmões, bagunçam a vida de seus objetos de amor porque, muitas vezes, eles (por exemplo, homens) preferem ficar na zona confortável da platitude. Muitas vezes, no entanto, esse amor salva a vida de quem é amado, aquele que chafurda penosamente na sensaboria da areia movediça sem uma referência amorosa valorosa. Eu sou alguém que foi salvo pelo amor. Nunca é tarde para alardear que mulheres – mãe, companheira, filhas – constituíram a minha boia de salvação no mar calmo e sem limites da absência sentimental que era a minha vida.