Esteira do Tempo

Esteira do Tempo
Esteira rolante da Linha Amarelado Metrô de São Paulo*

Aconteceu pela primeira vez há alguns meses, numa sexta-feira. Enquanto caminhava, como todos os dias, pela esteira rolante em direção à Linha Amarela, pareceu que se ausentou por alguns segundos. Quando voltou a si, via a mesma pessoa que vira antes do apagão a se deslocar no sentido inverso. Teve uma visão, de um outro lugar. Talvez conhecido, não lembrava de onde. Um platô, um grande vale abaixo, com construções que se apequenavam á distância, ao fundo. Do outro lado, uma grande várzea que se espraiava a perder de vista.

Apesar de instantânea, foi muita intensa a sensação de deslocamento. Sugeria não apenas outro lugar, mas outro tempo. Cheiro de mato e flores, sons naturais – vento, água, canto de pássaros e coaxar de sapos. Passou o final de semana a esperar que voltasse a repetir a experiência na segunda-feira. Era um desejo novo, a substituir a rotina desgastante e que encarava com a impaciência de caminhos obstruídos.

Na segunda, de manhã, ao passar pela esteira, se frustrou por não se deslocar para “lá…”. Um tanto decepcionado, chegou ao edifício onde trabalhava, na Paulista. Lembrou-se quando, menino, presenciou uma rápida chuva de meteoritos – episódio que nunca mais se repetiu – um sentimento de conexão com o Universo.

Ao final do expediente, ao percorrer o mesmo trajeto, voltou a viajar. Uma sensação mais duradoura. A mesma visão, com maior número de detalhes. Percebeu a região da Paulista, sem construções, totalmente desabitada, pássaros a voar em bandos. No fundo do vale, na atual região do Centro, se deparou com a São Paulo nascente, reflexos do sol nos sinos das cúpulas das igrejas. Ao voltar, sentiu-se tão bem…

A cada deslocamento, conseguia chegar cada vez mais perto do aglomerado de casas e ruas. Evitava conversar com as pessoas que encontrava para não intervir naquela realidade. Cria que não o vissem, até que uma delas o saudou. Pesquisou sobre as vestimentas e a arquitetura, a cada retorno. Meados do Século XIX. Uma cidade tipicamente interiorana. Sensação cada vez forte de pertencimento, como um filho no ventre de sua mãe.

Era dramática a diferença entre o conjunto de ruas estreitas que percorria – horizontes abertos contra a imensidão das sucessivas avenidas – pelas quais se deslocava-preso à ônibus ou carros. O relacionamento entre as gentes parecia fluir de maneira natural, apesar das diferenças sociais. O ar, limpo, carregava um cheiro de esperança e mudança.

Tomou a decisão de mudar de tempo, definitivamente. Tudo sugeria que o deslocamento se dava por desejo pessoal. Porém, São Paulo não quis. Tanto quanto como quando começou, deixou de ter as visões-viagens-presenças. Desaparecido do outro lado, especulou que tenham imaginado que o estranho visitante tenha rumado à outras paragens. Restou-lhe a dor de perder uma cidade inteira nas esteiras rolantes da Linha Amarela.

*Foto in: http://viatrolebus.com.br/2013/10/ligacao-entre-estacoes-paulista-e-consolacao-ganhara-novo-tunel/

 

 

 

Inesquecível

Romy I
Inesquecível, Romy…

Carlos, em hora vaga, decidiu entrar na cafeteria para ler um pouco e saborear um cappuccino ou dois. Aproveitou a boa sorte do caixa livre. Fez o pedido, esperou menos do que esperava e se dirigiu ao segundo segundo andar. Sentou a um canto e mal pode abrir o novo lançamento da Scenarium – SADNESS – quando assomou a sombra de alguém logo na primeira página. Ao olhar em direção ao vulto, o passado o atropelou na faixa segurança, feito um caminhão desgovernado. Um tanto desconfortável, reconheceu Regina e se ergueu em sua direção. Estava tão linda quanto à época da faculdade.

Perguntou o que fazia por ali, enquanto a beijava de leve no rosto e a abraçava com força, como a confirmar a existência do fantasma vestido de saudade que o assombrou desde que quis se desencontrar dela. Regina respondeu, com aquele eterno sorriso entre brincalhão e escárnio, que sempre a categorizou: “Passava em frente, quando o vi subir as escadas… Como você está? Pelo jeito, bem! Está bonito…”. Ele nunca soube distinguir quando ela falava sério ou brincava. Sabia que não era mal-apessoado, porém diante dela, nunca conseguiu se sentir adequado.

Fazia sete anos que não a via. A última vez, ocorreu na festa de formatura do curso de comércio exterior. Viajou, logo após. Obteve uma ótima chance de aprimorar o inglês e de tentar fugir daquele sentimento que impedia de manter qualquer relacionamento com mais alguém. Naquele momento, mais confiante em si, tentou rapidamente compreender, na fração eterna de segundos que a olhava nos olhos, porque nunca se revelou apaixonado por ela. Mesmo depois de tanto tempo, voltava a ser o moço desengonçado. Não duvidava que ela soubesse do efeito que causava nele. Sempre suspeitou que gostava de brincar com ele, como a gata faz com o camundongo.

Na Austrália – outras vibrações, outra cultura – sentiu como se fosse uma muda transplantada em novo solo. Finalmente, se reconheceu outro. Lá, conheceu sua futura esposa, outra brasileira, Anna. Após dois anos, voltaram. No Brasil, casaram. Há um ano, chegou Bianco. Montaram apartamento na Santa Cecília. Estavam bem. Vidas sem sobressaltos e sem novidades no horizonte. Até voltar a ver Regina. Lembrou de Ono, um colega que se tornou escritor. Ele lhe falava sobre a Teoria de Tempo Intenso – quando tudo parece acontecer ao mesmo tempo, com força e intensidade inimagináveis. Foi assim que percebeu o quanto ainda a amava.

Mas, pela graça da boca de canto de sereia de seu amor, ela mesmo a salvou de cometer um desatino. Enquanto conversavam sobre o passado – em que enumerou as várias ocasiões em que ficou com boa parte de seus colegas – falou sobre César, então seu melhor amigo. Este, por saber de sua paixão por Regina, prometeu que nunca teria nada com o objeto de sua avassaladora paixão platônica. Ela, aparentemente sem saber desse acordo, falou que havia traçado o seu companheiro de quarto de pensão. Muitas vezes… Lá mesmo, enquanto viajava, em momentos intermitentes. César já não pertencia ao seu rol de amigos. Deu em cima de sua atual companheira, logo que a conheceu. Anna relatou o ocorrido e ele cortou a amizade. Naquela ocasião, imaginou que, eventualmente, tivesse ficado com Regina, apesar da promessa. Contudo, aquela “novidade” o arrasou como se tivesse acabado de acontecer.

Como por encanto, os olhos de Regina deixaram de exercer a imensa atração que levou muitos marinheiros à morte. O que Carlos não conseguiu se atentar foi que ela apenas começou a falar sobre o passado de tragadora de homens, depois que revelou que estava casado, com filho novo, casa montada. Depois de se perceber deixada, sempre desejou reencontrá-lo. Com ele, sempre se sentiu especial. Para ele, reservou o melhor de seus sentimentos. Depois de muitas cabeçadas, distinguiu claramente o que queria. Era Carlos. Como ele não participava das redes sociais, foi difícil localizá-lo. Descobriu onde trabalhava e aproveitou a ocasião propícia para encontrá-lo, por um desses “acasos” do destino. Sabê-lo bem, com outra mulher, filho e lar, a aniquilou. Quis se vingar.

Ao final do encontro, o sorriso de Regina se transformou em risco enrugado. O rosto de Carlos, transparecia autoconfiança. Outro beijo, mais leve e corpos descolados em um último abraço desajeitado.  Ele disse que ficaria um pouco mais. Ela se retirou, carregando a dor pela falta que faria a perspectiva do amor do único homem que realmente já a interessou. Ele, voltaria para sorrisinho banguela de seu filho e o conforto seguro dos braços de Anna…

Balada

Globinho
Face luminosa da lua…

Filas se formam para adentrar à bolha. Desejosos por perderem os sentidos, embalados por batidas em RPMs cada vez mais acelerados, seres vivos entregam seus corpos às frequências-repetitivas-circulares. Em meio às ondas sonoras, luzes psico-estroboscópicas não permitem que se formem pensamentos, apenas reações. Conduzidos por substâncias lícitas e ilícitas, civilizados repetem antigos rituais coletivos tribais-gentis.

Mantras eletrônicos-aliciantes se sucedem em cascatas no salão de cima a baixo, lado-a-lado, para-dentro-para-fora, em frenesi que transcende o indivíduo e assume proporção de tsunami mental. Por instantes, pode-se sentir reverberar a presença do amor químico, entre suores e salivas. O mundo vibra como substância etérea. Visita à face oculta da lua.

Tudo é espontâneo, permitido, nada é sem sentido. Entregar-se a si e a outra pessoa é satisfatório, natural. Sexo sem penetração. DJ é Deus, reverenciado como tal, a ser contemplado com chupadas das meninas e meninos mais entregues, enquanto outras línguas pronunciam cânticos-grunhidos-gemidos ritmados em resposta à condução do maestro do som oscilante.

Depois de horas, exangues, fruídos personagens retiram-se do ambiente onde oraram enlevados pelas seitas pagãs-dionisíacas do movimento, em estertores de membros e cabeças. Voltam à vida comum, social-insaciável em consumação de pensamentos encadeados-ordenados em números e proporções, regras e utilidade civil… até que chegue o próximo sábado.

Baile Eterno

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Pelos bailes da vida…

Formavam um casal marcante das noites dançantes dos salões de São Paulo – Ypiranga, Piratininga, Homs, Casa do Sargento. Apreciavam todos os ritmos, porém os boleros, com seus temas passionais, pontuavam a imaginação e os passos dos dois dançarinos. Entrelaçavam-se de tal maneira que quase não se distinguiam. Vez ou outra, descolavam os rostos e se entreolhavam enternecidos.

A movimentação que faziam, ao estilo carioca, permitia que rodassem a pista, de um ponto ao outro. Por onde passavam, recebiam cumprimentos e olhares de admiração pela evidente paixão com que compartilhavam a cumplicidade.

Após quarenta e três anos de baile, uma doença fulminante acamou a dama por meses. Após o que, ela veio a falecer, para a consternação dos companheiros dançarinos. Algo inédito, seu velório ocorreu em uma pista de dança. Antes da saída do cortejo, se formou uma grande roda onde todos, com os seus melhores trajes, homenagearam a dançarina com uma salva de palmas, tão comum ao final de cada seleção de canções.

Soube-se que, antes de perder definitivamente a consciência, pediu ao companheiro de vida-passos que não deixasse de frequentar os salões de baile. Desejo atendido, ainda que amigas do casal insistissem em convidá-lo às pistas, ele não consentia atendê-las.

Preferia voltear sozinho como se tivesse a antiga parceira nos braços. Alguns, se condoíam. Outros, que não conheciam a sua história, apenas presenciavam mais uma figura estranha da noite, como tantas.

Passados alguns anos, ele já não consegue erguer os braços junto ao peito e nem rodar a pista no sentido anti-horário. Restringe-se a passar compassadamente frente ao palco, de lado para outro, cabeça baixa, à espera do dia que entrará no Grande Salão. Nele, encontrará a parceira. Pedirá gentilmente que se erga e a convidará para a pista. Enfim, indissoluvelmente unidos, continuarão a dançar o Baile Eterno.

Terra Nova

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Terra Nova nasceu com um dom especial. Além do apuradíssimo olfato… Ele conseguia antecipar acontecimentos que ocorreriam que o envolveriam. Ao toque da mão de um humano ou à aproximação de outro ser da sua espécie, imediatamente antevia carinhos ou maus tratos, brigas ou brincadeiras…

Assim, era comum Terra Nova ficar sempre na expectativa, a guardar certa distância dos outros seres. Com o tempo, começou a desenvolver a capacidade de prever situações antes mesmo de ser tocado ou ele mesmo “tocar” outros com os seus múltiplos sentidos.

Chegado aos dez meses de idade, Terra Nova, que estava sendo treinado para detectar explosivos em bagagens em aeroportos, acordou assustado com as antevisões que o perseguiram durante a noite toda. Nelas, via a si mesmo explodir… Porém, não só ele, mas muitas pessoas. Não as conhecia e nem os lugares em que estavam. Compreendeu que o seu raio de percepção estava a alcançar distâncias para além do que poderia chegar fisicamente um dia…

Naquele dia, Terra Nova percebeu que não conseguiria viver daquela maneira. O planeta todo lhe invadia a mente avassaladoramente… À primeira oportunidade que teve, fugiu para o mais longe que pode… Em certo momento, soube que tudo acabaria o mais rápido possível. Tanto sofrimento teria, finalmente, um fim… Um pouco antes do choque fatal da bala contra o seu corpo, sentiu uma tremenda compaixão por todos aqueles que o matavam…

http://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,apos-escapar-e-atrasar-voos-cao-e-morto-em-aeroporto-na-nova-zelandia,70001703621