Projeto Fotográfico 6 On 6 / As Minas E As Manas Da Família

Não deveria ser necessário um dia especial para comemorar a existência da mulher. Por ser um homem que as ama, eu as valorizo todos os dias. Alguma mulher poderia perguntar que tipo de mulher eu amaria. Com toda a razão, aliás. Há homens que “preferem” amar mulheres que se atenham a se apresentarem como objetos sexuais ou que se restrinjam a tarefas específicas, normalmente ligadas a funções de menor alcance social, ainda que fundamentais.

Eles não admitem contestação ou qualquer sinal de maior capacidade mental e, muito menos, física – espaço em que tenta mostrar maior predomínio – como se merecesse distinção por ser o caçador dos primeiros grupamentos humanos. De fato, quando encontra uma possível companheira que alia atrativos físicos a identificação aos papéis designados pelo Patriarcado, sacramenta a união.

Eu sou fascinado pelas mulheres em toda a complexidade e atributos. Torço por aquelas que ainda não descobriram o poder que carregam. Admiro àquelas que buscam alcançar a plenitude propalada pelo movimento feminista. Mesmo as que originalmente tenham nascido no gênero masculino e se sentem femininas. Acredito que possam encontrar as suas identidades como mulheres, para além de efeitos hormonais.

Ainda garoto, buscava respeitar as meninas e as irmãs. As minas e as manas – as próximas e as distantes – eram, acima de tudo, motivo de admiração e fascínio. Com a minha irmã parental, tinha altercações motivadas por nossas personalidades impositivas. Típicas entre irmãos que competem entre si por atenção ou espaço. Mas nunca deixei de reconhecer a sua força e importância. Atualmente, temos uma relação estável em que o convívio é mais harmonioso, dentro do que seja possível entre um libriano e uma capricorniana.

Depois de me abster da vida social até quase os vinte e cinco anos, para além do estudantil e profissional, comecei a pensar que pudesse enfim me envolver romanticamente com a contraparte da espécie. Foi um processo penoso, já que não é nada confortável estar diante de pessoa uma autônoma, de vivência díspar, vontade e desejos divergentes e, ainda assim encontrar mais similaridades do que incongruências, para seguir no caminho da construção de uma família.

E assim, no encontro com a Tânia, surgiu o meu grupo mais íntimo, formado por nós dois e as três meninas. Antes, apenas filhas, essas minas são também manas, já que adultas, passamos a conversar de igual para igual sobre os assuntos mais prementes da Sociedade – da eleição do Ignominioso Miliciano à Guerra da Ucrânia, dos refugiados da cotidiana guerra invisível em nosso próprio País à afirmação libertária da mulher diante do Patriarcado.

A base da qual eu venho é de uma relação abusiva de minha mãe por meu pai. Ausente muitas vezes, quando voltava para casa, a saudade e o respeito terminavam gradativamente feridos, sendo substituídos pelo medo. Eu o tenho como um exemplo a não ser seguido. Todo o desprezo que tentou incutir em mim pelas mulheres (assim, no coletivo, para despersonalizá-las), foi barrado pela energia descomunal de minha mãe, Dona Madalena, que nos criou praticamente só, realizando todos os tipos de trabalhos para nos manter saudáveis e aptos, pelo estudo, a nos tornarmos cidadãos plenos. Nela, encontrei o resumo de tudo o que uma mulher consegue realizar, apesar da pobreza material, habitantes da Periferia paulistana. Nós nos tornamos – seus três filhos – pessoas de bem.

A Família Ortega, do pai ausente, no Natal de 2002, de mesa farta como gostava, Dona Madalena e seus três filhos: Humberto, eu e Marisol.
A primogênita, Romy. De personalidade esfuziante, apesar de todas as tribulações que vive pela saúde instável, resta dizer que é de Leão, ou seja, o Sol nasce quando ela chega. Trabalha numa área de atuação semelhante à minha. Por mais que eu objetasse, nunca interferi nos projetos das minhas filhas, principalmente se as fizessem felizes.
A moça da foto, Ingrid, nasceu sob os eflúvios de Aquário. Dizia, quando era criança, que seria advogada. Hoje, a mulher pequena no tamanho, desenvolve um grandioso projeto de auxílio à pessoas desprovidas de recursos para se defenderem da injustiça institucional por raça ou classe social.
Lívia, a mais nova, administradora, de personalidade forte e aguerrida como as outras, a escorpiana de mão cheia, ainda está tentando encontrar o equilíbrio que os números pretendem representar. Com o tempo, perceberá que a vida sempre apresentará saldos positivos, apesar do quadro das entradas e saídas apresentarem déficits financeiros.
Tenho certeza que é pelo amor que a sagitariana Tânia tem espalhado pelo mundo ao cuidar, como Enfermeira, daqueles que sofrem, curando ou minimamente aliviando suas dores, que terá o seu nome reconhecido. Pelo amor dos nossos amigos cachorros que receberam abrigo, alimento e carinho em sua casa. Alguns que depois foram para outros lares e os que estão conosco, dos quais receberá lambidas eternas em seu coração. Pelas plantas que produzem flores, frutos, visitantes alados e perfume. Pelo amor que devotou a quem está próximo, tão próximos que já não sabem viver sem ela em suas vidas.

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Isabelle Brum

Almodóvar No 9501

Pedro Almodóvar, El Caballero

Neste mês de Março de 2022, completa cinco anos do lançamento de REALidade, meu primeiro livro pela Scenarium Plural — Livros Artesanais. Nele, está reunido várias crônicas que escrevi em anos anteriores a 2017. Quando as releio, encontro aqui e ali coisas que mudaria na formulação de alguns, mas não há como alterar o contexto porque foram totalmente baseadas em experiências pessoais. Algumas, estranhas, como a que exponho abaixo.

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A caminho da Faculdade, pela manhã… encontrei o cineasta Pedro Almodóvar na condução.

Ele vestia uma camisa bege clara, com gravata-borboleta de mesmo tom. Portava óculos escuros e um fone de ouvido. A barba bem escanhoada e o cabelo embranquecido, bem aparado, completavam o visual do diretor de “Mujeres al borde de un ataque de nervios“.

Encostado junto a uma das pilastras do ônibus articulado, bem ao centro — onde as curvas mais suaves davam a impressão de ser tão radicais quanto se estivéssemos em um carro de corrida — pude vê-lo ainda a segurar firme a barra superior com a mão esquerda… e a carregar uma pasta preta na mão direita.

Como olhava insistentemente para ele, cheguei a perceber que esboçou um sorriso, provavelmente, crente que eu o paquerava.

Ele deve ter notado a comoção interna que provocava em mim, por estar a dividir o ambiente comum com um dos meus ídolos. O estranho é que só eu parecia ter a noção de que estava ali, diante de mim, um dos maiores nomes da cultura mundial!

Certamente, para aquele povo espremido em tão pequeno espaço, teria um efeito espantoso o fato de ver Michel Teló a se deslocar para o Centrão de “busão”, às sete e meia da manhã! No entanto, Almodóvar não era atentado por olhares tão intensos quanto os meus.         

O que traria o Señor Caballero para São Paulo? Um festival de cinema que eu desconhecesse… o lançamento de um documentário sobre a sua vida… ou estaria buscando inspiração para um novo filme, longe dos temas da Espanha reinventada por ele, ou mais próximo da minha antiga, atávica e maldita origem?

Disfarçado de um improvável promotor de vendas ou um atarefado dono de lojas de eletrônicos, o criador de “Hable con ella” desceu um pouco antes do ponto final, no Largo do Paissandu.

Fiquei a penar se voltaria a vê-lo… acompanhando seus passos enquanto pude. Concluí que ele volverá para a pele que habita, como aquele que dirige com má educação os caminhos do nosso prazer estético e emocional. Talvez, um dia, um personagem parecido comigo, — um senhor vestido com roupas de estudante de Educação Física —, apareça em algum novo filme lançado por ele… e, então, terei certeza de que não foi apenas mais um sonho meu…      

Um Macho Alfa Para Chamar De Seu

Para o primeiro, ele fez questão logo que pode de fazer juras de amor. “I love you!” para lá. “I love you!” para cá. Seu objeto de desejo, brilhava alaranjado na escuridão que vibrava em torno de si. Mal por natureza, o de baixo encontrou identidade no sujeito de cima que dirigia sua casa à base de mentiras. Igualmente filho da mentira, sentia-se distinguido ainda que fosse desprezível e desprezado. As proles de ambos se imiscuíam em tarefas de sequazes espelhados. Apraziam-se todos de beber de fontes que julgavam inesgotáveis. A cegueira os guiou a construir fronteiras muradas, a derrubar linhas de comunicação com a verdade, a estabelecer a morte como ponto de medida de caráter edificante. Até que, um dia, o macho alfa do Norte foi embora, apeado do poder. Para quem os seus olhos se dirigiriam com o desejo de antes? Quem seria o exemplo de homem a ser seguido como amante dedicado?

Voltou a sua atenção para o Leste. Viu que ali estava alguém que, como ele, não prezava os limites da dignidade e tampouco da vida humana. Alguém ambicioso, que estufava o peito como ele mesmo fazia. Dono de mísseis que poderiam destruir o mundo assim como o outro, este, não apenas isso, não teria constrangimento em fazer uso. Um homem que via como corajoso, não insano como é. Que, como o seu antigo amante, ia atrás do queria sem pestanejar, ainda que não tivesse o topete físico do antigo. Um macho alfa, sem dúvida. Ridículo, como todos são. Para ele, alguém que valeria a pena investir. Para isso, serviria como peão no jogo de poder de seu novo objeto de desejo. Para isso, faria o que fosse pedido. Ajoelharia para rezar, ainda que colocasse o nome de seu País como almofada de apoio. Entregaria flores para homens que atacou um dia, apenas para receber um pouco da atenção de seu novo amado, se bem que bem menos do que a sua companheira atraiu. O ciúme que teria sentido foi por ele ou por ela?

Enfim, quando o seu novo macho alfa descumpriu a palavra, mas cumpriu o que intencionava – dominando como queria ser dominado, invadindo como queria que o invadisse, matando como sempre quis matar – deve ter sentido o máximo prazer orgástico que apenas um demente sentiria nesses momentos. Um ser que condena nos outros o que não aceita em si. O máximo elogio que poderia dar: se absteve de condenar a invasão. Entregou o País à reprovação mundial.

Eu E Os Bichos

Jojo Todynho em sua teia

Dia de intensa chuva, ao sair para rua, vi junto ao muro um rato correndo em minha direção. Passou por debaixo do portão e subiu em uma pedra de granito junto à entrada. Fez menção de continuar seu trajeto para dentro da garagem e o impedi com o meu pé. Falei para o bicho:

Descansa um pouco, mas nem pense em entrar. As cachorras vão lhe atacar!

Antes que terminasse de argumentar, a Dominic surgiu como um azougue e abocanhou o pobre rato! Ainda que ela o largasse quase imediatamente alertada por meu grito, logo deixou de se mexer.

Em outra ocasião, após mais um dia de chuva, a porta da sala estava aberta e vi uma barata caminhando lentamente do quintal para dentro. Enquanto escrevia, reparei que ela estava naquele estado em que a energia que movimentava as suas patinhas se esvaia. Tempo de morrer. Tivessem as cachorras acordadas, ela já teria sofrido um ataque. Baratinada, buscava um cantinho para terminar seus dias. Eu apenas a afastei de volta para o quintal e não voltou a entrar.

Vez ou outra, em situações limites, espalmo pernilongos mais atrevidos, mas na grande maioria das vezes, ligo o ventilador para que não tenham equilíbrio no voo, além de esfriar o ar em meu entorno, condições das quais o inseto não gosta. As minhas filhas preferem usar inseticidas e repelentes na pele.  Tanto em relação aos pernilongos, quanto às baratas, elas não gostam que eu aja dessa forma. Respondo:

– Meninas, sou franciscano!

Certa vez, varria o quintal e uma conversa entre mim e um marimbondo moribundo, gerou um conto. Na verdade, era Deus, em uma de suas incursões pelo mundo material. Falou comigo porque o respeitei. Ainda que chame de conto, o diálogo interno realmente ocorreu. 

O meu ano começou com outra conversa. Dessa vez, com formigas. Estava terminando de carregar o equipamento do Réveillon realizado num hotel em Águas de Lindóia quando fui recolher doces que havia separado e pretendia levar para o pessoal de casa. As atentas formiguinhas estavam rodeando os invólucros dos objetos de desejo de ambas as espécies. Logo que as coloquei num saco plástico, longe do alcance dos insetos. Imediatamente, o sentimento de culpa me assomou. Pedi para que elas esperassem e fui buscar possíveis restos na mesa de doces.

Tive sorte e encontrei restos deixados por humanos. Algumas pessoas abocanharam metades dos doces e os deixaram espalhados. Levei uns três pedaços que achei suficientes para alimentar o formigueiro inteiro. Nem podia imaginar onde se localizaria a colônia, assim como não sabemos de onde surgem as formigas que habitam as nossas casas. Enfim, terminado de carregar o equipamento, fui me certificar que as bonitinhas estivessem fazendo o bom trabalho de carregar pedacinhos para a turma. Satisfeito, voltei para São Paulo pensando o quanto devo parecer fora de órbita, a ponto de relutar em escrever este texto.

Esse comportamento desenvolvo desde pequeno. Minhas paredes eram habitadas por lagartixas, bichinhos que admirava. Desenvolvi, durante um tempinho, um relacionamento de confiança com uma aranha-pega-moscas. Muito inteligentes, em vez de caçarem com teia, essas aranhas saltadoras têm uma excelente memória e detectam as suas presas com a sua excelente visão. Normalmente precavidas contra movimentos bruscos, aquele bichinho em especial confiava em mim.

Conheci várias outras, desde as de abdomens mais desenvolvidos até as de patinhas mais longas. Fascinados por artrópodes, pensei até fazer o curso de Zoologia, mas como as plantas também eram atraentes por considerá-las seres (de funções) superiores, sonhei em ter um sítio para a produção de alimentos naturais, aos 14 ou 15 anos. Um livro ampliou para além da suposição a minha impressão em relação aos seres do Reino Vegetal  ̶  A Vida Secreta Das Plantas. Com esse estudo, percebi que toda a vida na Terra estava interligada. Através de GaiaMãe-Terra – os seres viventes são potencializados pela energia material, abrigo da anímica.

Ainda sobre as aranhas, mais recentemente, tivemos uma moradora de tamanho mais avantajado – a Waleska. A visão que ela tinha do crepúsculo era a mesma que eu buscava e compartilhamos vários momentos e ideias. Viveu alguns meses na varanda e desapareceu sem deixar vestígios. Mais recentemente, surgiu uma outra, em uma área mais abrigada, a qual as meninas batizaram de Jojo Todynho. Está conosco há alguns meses e parece ter feito um lar em que comida não falta e seus descendentes podem prosperar. Se bem que o equilíbrio natural impedirá que cresçam em número.  

Consciente de minha excentricidade, não posso deixar de agir como penso a existência. Somos apenas uma das espécies que vivem neste planeta. Não somos os seus únicos senhores. A Natureza parece estar mostrando que nossas ações negligentes acarretam sérias consequências, podendo nos levar à extinção. Muito cedo para nós. Muito tarde para vários de nossos companheiros de jornada de outras espécies, extintas por nós…

Bento Quirino*

Em 2013*, eu estava tentando encontrar um caminho para superar a minha decepção com os rumos que o Brasil havia tomado politicamente. Ao lado do avanço social empreendido com a chegada de personagens alternativos à História elitista do País, que prometiam criar novas perspectivas quanto ao exercício do Poder, ficou na boca o travo amargo no uso de práticas corrompidas e corruptoras. Com o tempo, isso daria ensejo à chegada do lixo em forma de pessoas aos cargos mais altos da República. Em 2013, eu apenas me encontrava desiludido. Nada parecido com o que ocorreu um lustro depois. Voltei passos atrás, para enfrentar a ameaça real de vermos perder avanços, e projetos inovadores, ainda que tenham sido conspurcados por interesses espúrios misturados às boas intenções. Eu votei contra o que se prefigurava maléfico em vários sentidos. Mas viver essa condição superou quaisquer suposições negativas.

Homenagem ao humanista com lixo humano

“Estou em Campinas, à trabalho, onde sonorizaremos uma colação de grau para os cursos técnicos de nível médio do Colégio Politécnico Bento Quirino. Não é a primeira vez que trabalhamos para a instituição e, desta vez, me interessei por saber mais sobre aquele que dá nome à ela.

Nascido em Campinas, Bento Quirino dos Santos foi um homem exemplar. Segundo o Wikipédia, ‘quando da epidemia de febre amarela que assolou a região em 1889, o então comerciante prestou tão elevados serviços à cidade que a população, agradecida, fez colocar uma placa alusiva na fachada de seu estabelecimento. Adepto dos ideais republicanos, de que foi ativo propagandista, foi eleito vereador pelo Partido Republicano, ainda à época da Monarquia. Fundou a Santa Casa de Misericórdia de Campinas e foi diretor da Companhia de Iluminação a Gás. Foi um dos fundadores do Colégio Culto à Ciência e da Companhia Campineira de Água, além de presidente da Companhia Mogiana e sócio benemérito de todas associações campineiras. Após a sua morte, grande parte de sua fortuna foi destinada à fundação do Instituto Profissional Bento Quirino e à manutenção da Escola Técnica de Comércio Bento Quirino, assim como diversos orfanatos, hospitais, maternidades e a Creche Bento Quirino.

Ao sair do Auditório Bento Quirino para comer um lanche, cheguei à um largo em que se dividia em duas partes por uma via, formando duas praças. Em uma delas, erguia-se uma igreja – Basílica Nossa Senhora do Carmo – e em outra, postavam-se duas estátuas. Caminhando para perto de uma delas, vi que se tratava do próprio Bento Quirino representado em bronze. Estava devidamente homenageado por alguém que nunca procurou saber que se tratava de uma figura tão eminente, com lixo postado à seus pés.

LABORE MUS UNIS PRO PATRIA

Esse monumento a Bento Quirino ergue-se na Praça Antônio Pompeo. Inaugurado originalmente em 18 de abril de 1914 no saguão do Instituto Profissional Bento Quirino, foi transferido para o seu atual local no dia 18 de abril de 1937, no contexto das comemorações do centenário de seu nascimento. Compondo a figura sentada, encontramos em sua mão esquerda uma divisa em latim – LABORE MUS UNIS PRO PATRIA – que poderia ser traduzido livremente como ‘Trabalhemos unidos pela Pátria‘.

Sim! Decididamente, ele era um idealista…”.