Não sou flor,
mas uma borboleta me procurou…
Talvez sentisse
que eu fosse um porto seguro,
uma parada estável durante o seu voo
aparentemente sem rumo.
Sabia que ela vivia
os seus últimos momentos.
Passou a maior parte de sua existência
a esperar a liberdade.
A sensação de ser livre carrega a morte anunciada
em sua própria gênese.
Se todos nós morremos um dia,
que seja dessa maneira: um voo
lindo
para outra possibilidade de ser…
Categoria: Imagens
Corpo Presente / Posições

Tirante o pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente…

Tudo o que nomeamos, discriminamos, classificamos, justificamos, estabelecemos como tal o que é, seja lá o que for. Passar por cima do que está estipulado como líquido e certo, atravessar o significado das estruturas fixadas pelas palavras não é fácil. O Sol, a Lua, o dia, a tarde, a Terra, a manhã, as horas, os minutos, o Tempo, os segundos, o sexo, o homem, a noite, a mulher… É o Sol que se põe? É a Terra que se move? Quem come quem?…
Trama
Da ponte, a trama
Da cidade, o drama
Dos campos sem grama
Dos rios de lama
Da vida em programas
Dos corpos em chamas
Da luta pela fama
Do império da grana
Que aos corações inflama.
A Cicatriz*
Por conta do calor, além da falta de paciência em deixar os meus cabelos rebeldes razoavelmente alinhados, decidi raspar o teto. Os meus cabelos, com o passar do tempo, acabaram por formar um grupo revoltado, constituído por membros cada vez mais finos, que um a um, abandonaram a minha cabeça, como a prenunciar uma época em que deixarão o alto do meu corpo quase que totalmente desertificado.
Ao fim da raspagem, Marlos — o cabeleireiro — ao passar o espelho por trás, como faz habitualmente quando faz um corte, foi revelada a velha cicatriz. Como um arqueólogo que descobre uma nova pedra de roseta que em vez de uma escrita, apresentava apenas uma linha, que fez relembrar uma história inteira. A origem daquela cicatriz foi como um mergulho nas águas dos tempos, mais precisamente (ou imprecisamente?), aos meus cinco ou seis anos de idade quando, minha família e eu, vivíamos na Penha.
Morávamos na parte de baixo da casa (ao qual chamávamos de porão) da minha Tia Raquel e Tio Zé Gomes, alugada por eles. Devia ser muito conveniente para os meus pais, pois a fábrica de componentes flexíveis para carros dos meus tios, na qual eles trabalhavam, ficava no mesmo terreno. Não sabia, então, que essa “facilidade” de certa forma escondia uma guerra surda no espírito de meu pai, que se sentia extremamente dependente dessa situação em que família e ganha-pão se misturavam de maneira promíscua.
Quanto a cicatriz adquirida, eu diria, de forma simplificada, que se deu por causa de ciúme entre irmãos. Certa ocasião, os meus tios e primos viajaram e os donos da casa permitiram que nós pudéssemos, durante as noites que passariam fora, assistir à televisão de muitíssimas polegadas os programas favoritos da época. Para uma criança tudo é muito maior, porém em confronto com a nossa de 14″, a diferença era memorável. A simples existência de uma sala de televisão, com amplos sofás e distância adequada, sem improvisação de cadeiras ou camas para sentar deixava que nos sentíssemos em um mundo novo de conforto.
No último dia de nossa imersão, pedi para o meu pai me levar de cavalinho, como ele fazia com o meu irmão menor. Já devia ser pesado demais para isso, mas ele acedeu graças a minha insistência. Para irmos até a parte de baixo da casa, tínhamos que descer uma escada composta de ladrilhos que, devido à uma chuva fina, estava por demais escorregadia. Ao final dos últimos degraus, o meu pai escorregou e eu acabei por bater a minha cabeça. Muito sangue e choradeira depois, curativos e dengos me acalmaram naquele momento e por anos.
Os meus cabelos cresceram o bastante para soterrar a lembrança marcada por aquele fato, no entanto sobrou o consolo da cicatriz que me fez lembrar de um momento de carinho do meu pai, que quis atender os reclamos chatos de um menino enciumado. Doeu, mas valeu!
Texto de 2013*
Projeto Fotográfico 6 On 6 / Equinócio
Em 2020, entre o equinócio do Outono, que se deu em 20 de Março, e o equinócio da Primavera, que se dará em 22 de setembro, o Brasil viveu e vive a experiência da Pandemia da Covid-19, causada pelo novocoronavírus. A previsão macabra é que no próximo equinócio alcancemos a marca de 140 mil mortos pela gripezinha, como um dia nomeou o pandêmico J.M.B., atual presidente da República Federativa do Brasil. Enquanto isso, os dias passam como se fossem iguais, mas irregulares, como se fora um sonho perplexo-randômico-estático a cada dia que amanhece, entardece e anoitece.
Sol de verão nos últimos dias de Inverno. Alijei seus efeitos luminares na fímbria do mar-preto-do-morro. E eis que se vê a mostra um crepuscular Sol da meia-noite deslocado de seu tempo. Absoluta bola avermelhada de fogo cristalizada.
Júpiter e Saturno se apresentaram em conjunção visual com a Lua nos últimos dias de Agosto. Astros distantes entre si, brincaram unidos no firmamento. Ausente um equipamento que pudesse captar a majestade do momento, registrei o brilho lunar emprestado do Sol entre folhas de bananeira e goiabeira, como se fosse uma fruta de luz.
Dias secos. Minhas plantas clamam silenciosamente por água. Eu, que tenho ouvido vozes inaudíveis para muitos, as compreendo e as banho com o líquido vital. O rejubilar das folhas se me assemelham a aplausos. Com a espada d’água, as reverencio.
No equinócio do Outono, eu estava no litoral sul de São Paulo. Foi decretado o fechamento das faixas de areia, o comércio, o funcionamento de pousadas e hotéis e foi impedido o translado entre as cidades. Fiquei preso junto à imensidão do mar. Após retornar a Sampa, voltei outras vezes para a Baixada. Por algum motivo singular, a visão da Serra do Mar — a Muralha — vinha a ganhar um significado inaudito.
Despudoradamente, os sapatinhos-de-judia se abrem também à noite. Ao sair para o quintal, uma delas me encara como cara de quem não sabe o quanto é atraente. Ou apenas dissimula a sua inocência para oferecer beleza íntegra, a narcísica flor.
Forçado a deixar de trabalhar fora de casa, passei a ser uma “dona-de-casa” modelo. Ou pretendi. Sei que o termo usado entre aspas carrega o peso de uma função que no patriarcado significou o máximo que uma mulher poderia alcançar como status social. Tirante as “donas-de casa” que tinham empregadas domésticas. Neste período pandêmico, as tarefas caseiras que fazia para ajudar, tornou-se minha função primordial. O que sempre acreditei, se confirmou: a louça se reproduz incessantemente.








