Maratona Setembrina | A Maga dos Dedos (Ou Poema A Quatro Mãos)

Unhas Pintadas
Vermelho-paixão…

Manhã de inverno cambiante,
ela acabara de fazer as mãos com Maga,
artesã de anos – vinho nos dedos.
Chegou ao apartamento vazio,
mas pleno da presença dele…
A distância não o deixava menos próximo –
tanto quanto seu corpo,
cada objeto estava impregnado do toque do amado.

Na taça,
o espanhol “Dos Dedos de Frente”.
Começou a escrever uma carta
que talvez nunca enviasse.
Porém, seu desejo percorria a pele,
eriçava seus pelos:
pulsão de vida.
Vibração de artérias preenchidas
de sangue e energia…

Fechou-se no quarto,
abriu as pernas…
Logo depois,
percebeu o quanto o amor faz estragos.
Ligou e pediu socorro.
Disse que encostou na porta do elevador.
O que não deixava de ser verdadeiro –
foram movimentos para alto e para baixo…

Diante das unhas de dois dedos
da mão direita borradas,
Maga a olhou com olhar compreensivo.
Conhecia de perto o que sentia…
Ambas se calaram em mútua conexão.

Há coisas que talvez se possam abrandar…
A manicura,
sabia que podia consertar os efeitos
da falta que a consumia…
Porém, para tamanha saudade
não havia cura…

 

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Maratona Setembrina | Amor Falado

Amor Falado
O poder da palavra… 
O rapaz ficara avesso ao toque humano desde que perdera a mãe em um supermercado. Ela pediu que o menino fosse buscar ovos na seção que ficava no fundo da grande loja e, quando voltou, a genitora já não se encontrava junto ao carrinho, carregado com as compras do mês, do lado de uma das caixas registradoras. Esperto, apesar de contar apenas com cinco anos, deu o telefone do trabalho do pai, que logo foi encontrá-lo. Testemunhas disseram que depois que ele se afastou, a mulher saiu pela porta do supermercado em direção ao estacionamento. Seu carro foi visto saindo apenas com a motorista, em direção à Marginal. Sem deixar bilhete ou outro tipo de mensagem, nunca mais deu notícias. Largou, além do marido desnorteado, um filho atônito-entristecido.
Com o correr dos anos, a criança desenvolveu um comportamento arredio. Cumpria a rotina escolar contando com os poucos colegas que pudessem dizer que fossem razoavelmente próximos. Passou por aqueles tempos quase sem ter sua presença reconhecida. Nessa contínua auto imersão buscava encontrar as razões por ter perdido a mãe dentro si. Intuía que ele fosse o motivo de sua partida. Ao mesmo tempo, a prospecção da culpa que carregava propiciou que mergulhasse em leituras cada vez mais extensas sobre o amor versado em palavras.
Escritores que discorreram sobre o amor constituíam a maior parte de sua biblioteca. A leitura contumaz de Jane Austen, Shakespeare, D.H. Lawrence, Federico Moccia, Jorge Mario Llosa, Nicolas Sparks, Miguel de Cervantes, Lunna Guedes, entre outros, fez com que construísse a Teoria do Amor Falado, que tinha como base declarar o amor, ainda que não dirigido diretamente a alguém. Começou a crer que fosse uma energia que existisse independentemente dos seres, que qualquer pessoa poderia se apropriar apenas ao verbalizá-lo.
De fato, além da própria palavra amorosa, o seu olhar de elo perdido da vida, seduzia olhos e ouvidos de seus interlocutores. Quando questionado sobre a origem de sua postura, respondeu: “Não só precisamos ler-ouvir que somos amados. Fiquei tanto tempo sem poder dizer que amava alguém, que percebi o quanto é importante doar amor ainda que apenas escrito ou falado”…
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