#Blogvember / As Algemas

não acredito em almas gêmeas
desdenho de quem queira encontrar iguais em outros
sou pelo confronto de corpos e ideias
de fluxos e refluxos de pensamentos díspares
cresço quando me encaram de frente 
batem nos meus preconceitos
reformulam meus preceitos
invadem minhas fortalezas
derrubando minhas defesas
me devorando por dentro enquanto quero comer
estranhas entranhas entranhadas
confesso não percebi o momento de nossas mãos algemadas
fujo quase sempre de entregas sem tréguas
me debato feito peixe que deseja respirar água
mas o que aconteceu conosco me deixou confuso
já não sei quem sou em você e você em mim
beijo a sua boca cor de carmim
e em vezes de palavras evoluo em gemidos
enquanto salivas se bebem bêbados de paixão
abraço seu corpo o meu corpo
invado a mim em si
refuto planos de permanência absoluta
luto enquanto planto a minha bandeira em território invadido
enquanto me incorpora calma e resoluta
anuncio o luto por minha morte renasço melhor
quando digo sim…

Foto por Anna Shvets em Pexels.com

Participam: Suzana Martins / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Lunna Guedes

#Blogvember / Imaginação Boêmia

é tanta loucura que anda na bohemia
da minha imaginação…
cantou La Castañeda
leio me leio nessa linha
me levanto retomo a consciência
de viver estar no presente
curvo as minhas costas para trás
apoiando as minhas mãos
após vomitar sobre a tela mais palavras
repetidas em locuções conhecidas
como se fossem códeas de pão
de quem se perdeu pelo caminho
após passar noites bebendo indignidades
ouço um samba desses passados passadiços
rezados em dois por quatro na cadência
de meu coração sincopado
agradeço às influências d’áfrica
enquanto choro a dor do desterro
de povos inteiros arrastados em correntes
rumo a cais do outro lado do atlântico
aldeias árvores rios amigos família pais filhos criações culturas
futuros perdidos identidades esfaceladas
guerras terras novas gerações replantadas
em terreno inóspito fértil
regadas à sangue do qual eu bebo
com sabor de alegria e dor
atravesso a cidadela
enquanto desejo voltar a jogar
o meu corpo contra a procela
navegador
que rema rumo ao rir chorar salivar
sobre a pele nua dela
preso aos seus cabelos cor de noite clara
de lua quarto minguante.

Participam: Suzana Martins / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes

#Blogvember / Passo E Compasso

entre um segundo e outro há um espaço transitório
um micro momento de tempo suspenso
um nada entre pontos decorrentes
um elo vazio que formam correntes
onde impera o silêncio absoluto e sombrio
um corpo sem sol sem sombra
escuridão na luz feito mancha na estrela
espaço sem peso que existe sem existir
passado presente e futuro
que acontecem no mesmo passo
trôpego despegado de ato e ação consequência
sequência inconsequente espera dança suspensa
a incerteza do abismo na planície
cismo na crosta terrestre
uma pausa em que há possibilidade de tudo
nunca se realizar uma noite sem mestre
sem dor amor cansaço prazer emoção
até o próximo marco paradoxo que é viver.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Participam os autores:
Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Roseli Pedroso

Dia Do Bendito Maldito

Dia do Poeta

de onde vem essas comemorações
que tentam preencher vazios
e recuperar memórias
relembrar ações
e homenagear quem as comete?
quem hoje em dia ainda considera um poeta
alguém que deva merecer menção honrosa
diante de tanta gente que opera coisas reais
como teclados que acionam números
decretam a vida ou a morte ou a morte em vida?
na avalanche de necessidades óbvias
e outras inventadas mais atraentes e insinceras
o que levaria a uma pessoa elogiar
um ser que desvia pensamentos para além
do querer sobreviver?
bendizer um intruso que transcende as horas
que não caminha com as hordas
pária entre os vivos
renegado entre os mortos?
as coisas são o que são
mas o que são as coisas que não são?
quem busca saber o que não é
ainda que seja mais belamente imperfeito?
por que a matemática da existência residiria na datação
do nascimento o dia da formatura o do casamento
do infarto do infausto da morte marcada?
quem vai mais adiante ou mais profundamente
para o que não postulamos como matéria digna
de nota e notação?
por que há malditos que procuram a benção
no que não é possível ou explicável
a falta em vez da sensaboria de estar em homeostase?
o poeta é um bendito – aquele maldito disfarçado de anjo –
demônio onde busca a dor da palavra ausente
contra a paz do verbo inatacável
poesia está em tudo e prová-la
é um veneno insidioso que questiona idades
e corporações
grupos do bom senso e defensores da exiguidade
seja firme mate para defender sua estupidez
resista à exploração de sua grandeza
não o queremos questionador mas conformista
mais do que acumulador um estoquista
tudo o que ganhar o fará perder a sensibilidade
porém será plenamente útil
não diga sim às diferenças e às muitas identidades
permaneça na linha reta do que é torto e abissal
queira a felicidade da ignorância e da dubiedade
rejeite totalmente a multiplicidade
compre a esperança em cada algo que adquira
sinta-se simplificado moldado e pacificado
mesmo que não se perceba pacífico
não atormente a sua alma com dúvidas
não veja a beleza da flor
não almeje a libertação da dor
apenas porque nada está bem não queira saber
olhe no espelho e se diga lindo feito dorian gray
recolha seu retrato antigo para que engane
a si mesmo que com o novo filtro está melhor
filtre toda a palavra que lhe cause hesitação
incerteza ou estranheza
viva à espera da nova estação
cada vez menos desejada porque a velhice
de espírito lhe abateu aparou arestas
e finalmente ambicionará a morte como o maior bem
não leia até o final estas linhas escritas
por um bendito maldito que apenas quer lhe causar o mal
da insatisfação que nunca será saciada.

Papo Reto

Marginal Pinheiros

há um padrão no caos
revela que nós
paulistanos de fora ou daqui
somos repetitivos – erguemos nossas casas
em imperfeitas linhas retas 
elevamos a nossa imaginação do chão
em reta sobre reta
teto sobre teto
sempre mais alto
sempre mais raso
mais do que seria conveniente
vemos ejacular por alguma antena de aço
a simetria em distonia
e a cor intrometida
em berros pecaminosos
o elemento humano constitui a exceção
à regra – o caminho é um papo reto
a quadratura descobriu
por estas paragens
a sua cidadela.

Elevados na região central em direção ao Leste

atravessar pontes
em tempos nebulosos
atravessar tempos
em pontes tortuosas
atravessar pontempos…