O Jacaré*

Quem é você, quem sou eu?
Sou homem, mas não filisteu.
Sou de Libra, sou de cabaré.
Sou menino, sou Jacaré.
Aquele que cocou sete vezes,
não pagou, enfrentou revezes.
Sou um tanto estimado,
um pouco odiado.
Tranquilo em minha raiva,
barco a vela à deriva.
Sou réptil a sobreviver
de resto, do frágil, de cadáver.
Melhor símbolo pantaneiro que podia haver,
agora me tornei opositor ao poder.

*Poema de 2020, que apenas tem lógica na falta de lógica nos tempos de quem nos (des)governa.

Mosca

Como moscas no café da manhã… voo…
Trajetos curtos,
ao final de minha vida – torradas e manteiga.
Desculpem a confusão de entendimento – não sei se sou
eu mesma ou quem me observa…
Consigo, enquanto morro,
ser qualquer um.
Nasci larva,
vivi a flanar,
em zum-zuns,
a beijar lixos ricos e dejetos,
termino os meus dias triunfalmente,
em tapete vermelho…

Incompletude

fui até a água do mar 
dia frio praia deserta
penetrei nas tramas líquidas
do corpo que me absorve
a sensação quase completa
não se dá porque mesmo eu água
não estou dissolvido como o sal
estranho-me estando apartado
me engulo em lágrimas que parte de mim
também é mar
e me integro à desintegração de ser só
sem o total do céu e de si
o sentimento perdura e se digladia
meu corpo ainda vibra potência
ergo-me da cama sono de quatro horas
a espada erguida denuncia que quero brigar
a luta perdida contra o tempo
tudo é questão de tempo
o dia amanhece invernoso
nesta Primavera quase morta
vigésimo primeiro ano do vigésimo primeiro século
olho-me que não sou eu no espelho
na camiseta que visto there is no finish line
e nisso acredito
não deixo a neve grassar na cabeça
limpo o caminho dos meus pensamentos
mas já é tarde
não ser sendo gosto disso
me sinto confortável
na incongruência de ser-não-ser
estou incompleto
estou perdido
estou perfeito…

Pinceladas

Noite feita,
quase releguei ao esquecimento
a pintura da tarde…
Crepúsculo recordado,
revejo a nave que não sei se chegava ou partia…
Pinceladas compostas de água e luz
pontuavam o fundo da paisagem ao oeste.
Poeta do poente,
sei que apenas o amor
é combustível poderoso o suficiente
para fazer voar
o mais pesado que o ar…

Luares*

Sem Super Lua…
Apenas superação…
A eterna ação
da Terra em movimento…
Em uma viagem de velocidade controlada
em torno do Sol.
Bilhões de pessoas já viram céus e astros
mudarem de lugar quando, em verdade,
foram elas que se moveram
vida adentro,
do nascimento à morte…
Essa é a nossa eterna sorte…
E a nossa redenção…

*Poema de 2016