BEDA / A Lua De Suez

desmesurado calado em pés
contra o pouco calado do canal
Sempre Verde carregado trava no Suez
com o peso da civilização humanal
na estrada d’água desvia do caminho
encosta seu corpanzil na linha marginal
como se navegasse simples ribeirinho
por imperícia, termina encalhado
interrompe a circulação da riqueza
empobrece um pouco o rico abestalhado
imerge o pobre ainda mais na pobreza
previsão de prejuízo, bilhões de dinheiros
chama-se técnicos, consulta-se cientistas
move-se fundos, usa-se máquinas, traz-se engenheiros
faz-se planos, formula-se teorias mecanicistas
a personagem longínqua no espaço
a tudo testemunha, eterna observadora
de guerras, vida, morte, a discórdia, o abraço
de idas e vindas, marés e secas, a causadora
intervém o astro feminino, a Lua, filha da Terra
mostra a altaneira, pacífica, estival, face plena
com a sorte sazonal da fase ideal, encerra
com a elevação das águas, a crise terrena
lição para os seres que se colocam como supremos?
terão percebido os donos do poder o quão são pequenos?
alienados conseguirão se situarem longe dos extremos?
buscarão no centro da Força a grande a oportunidade que temos?


Adriana Aneli Alê Helga – Claudia Leonardi Darlene Regina
Mariana Gouveia – Lunna Guedes / Roseli Pedroso

Predadores

Caladas,
mudas
de mangueiras emergem no jardim
expostas a céu aberto.
Entre folhas, restos de caroços
postos ali para fertilizarem o solo,
não se contentam
em apenas terem sido o coração
de belas e apetitosas frutas.
Avidamente consumidas
por seres “superiores”,
querem voltar em vida nova
e função.
Seres em desenvolvimento,
ressuscitados do desprezo,
consubstanciam a ordem natural —
vida-morte-vida —
porém terão interditados os seus trajetos,
serão arrancados daquele retângulo.
Inesperados, não são aspirados
seus crescimentos.
Nem elas teriam condições de sobreviver
e nem nós, que dominamos aquele lugar,
de termos o jardim que desejamos.
Nesses momentos,
em que escolhemos entre a vida e a morte
de todo um ecossistema —
troncos, caules, folhas, flores, frutos, insetos, pássaros —
sinto-me o pior dos predadores…

Última Primeira Vez

Por uma última vez,
peço mais uma primeira vez
voltar ao centro do mundo…
Ainda que o nosso mundo se restrinja
ao quarto de um quarto de um quarto
de uma casa sem paredes,
no canto de nossas mentes,
para onde fugimos
no último quarto de um eterno minuto…

Quero você,
ainda que neurastênica,
irritada e irritante,
misofônica e barulhenta,
inconstante e desesperada
por amor sem pudor,
que tento recusar por temor
de me perder de mim para sempre.

Mas que adianta me preservar,
se sem você sou menos do que um logro
que se esconde sob a fama de louco?
Por que me recusar a amar profundamente
se o pouco que me resta é menos do que um pouco?

Temos outros em nossas vidas,
mas a história de cada um de nós dois
não importa se nela não tiver nós dois…
Quero uma última primeira vez…
Quero que me dê e se dê,
que se doe a quem se doará por inteiro
ainda que doa, porque doerá.
Sei que não sobreviverei,
mas antes morrer de amor,
que é melhor do que morrer —
é viver por um instante que seja
o que importa viver…

Astronauta

Meu amor,
estou a me sentir como um astronauta
fora da nave,
a fazer um passeio no espaço…
Deixo a minha mente vagar
e sinto que não me importaria se as amarras
que me unem ao módulo
se desprendessem…

Sei que a sensação de plenitude,
provocada por nosso amor,
me acompanharia nesse voo sem volta pelo Infinito…
Eu seria mais uma infinitesimal partícula que o compõe,
a participar do concerto silencioso
da imensidão sem fim –
Universo em expansão…

Um dia, o meu corpo congelado
talvez entrasse em órbita de algum planeta frio…
Ao cair no solo seco e estéril,
a semente do nosso amor
viria a se reproduzir em
vida, seres
estações climáticas,
chuvas,
dias,
noites,
crepúsculos,
luares,
frutos, seres
em multiplicação –
borboletas,
abelhas
em flores
e namorados ardentes,
a se beijarem em bancos de praças
sob árvores frondosas…

Há milhões de milhas da Terra,
o nosso amor ressuscitaria
e pariria
um planeta…

Foto por Pixabay em Pexels.com

Ser Cereja

Que cereja o que Deus quiser!
Que assim cereja!
Quer tenha sido,
quer venha a ser,
quer cereja!
Hoje, acordei assim,
sendo cereja!
De vermelho translúcido,
uma frutinha!
Tão apetitosa, que me comi!

Foto por Bruno Scramgnon em Pexels.com