Esta é a Brenda… Há quanto tempo ela está conosco, nos acompanhando? Há 13, 14, 15 anos? Hoje, está na casa vizinha, com a minha irmã. Vou visitá-la. Ao me aproximar, a amiga abana o rabo e tenta erguer a cabeça. Percebo a sua dificuldade e me agacho para acariciar o seu dorso magro de pelos duros e embranquecidos. Passo a mão delicadamente, sabendo que a sua estrutura enfraquecida sente os toques de meus dedos com o peso dos anos, apesar do amor. Antes de sair, ainda a ouço emitir um latido fraco, de despedida… Ela se foi pouco tempo depois desse nosso último encontro…
Parti de lá, pensando em não voltar… Sofrimento, perdas, encontros desencontrados, beijos não dados, desejos calados. Foi minha casa, meu lar, meu particípio passado, presente aberto, futuro ameaçado. Janelas, todas, abertas para o horizonte. Portas, duas, sempre exploradas como entradas e saídas, sem superstições. Na rua pouco iluminada, gostávamos de ver estrelas em céu de campo plano e arborizado. Cerca branca de madeira — cenário de filme romântico — idealizado. Mas as brigas ganharam peso, som e fúria. Éramos dois sem medo de magoar, sem desejo de cura. Queríamos matar o amor tanto, que nos matava. O quarto sempre iluminado como um quadrilátero de luta. A Lua perdendo foco, ainda que cheia, a empalidecer — luz cada vez menor, mesmo quando crescente. Saí, saindo, findando em mim, em si, lá… Sem retornar fisicamente, continuo a recordá-la de tal maneira que a carrego comigo — uma casa inteira — onde não mais moro, sendo por ela habitado…
A moça seguia o calendário lunar. Adepta de magia, a cada ciclo a se encerrar, vivia fora do tempo, três dias… Sua jornada coincidia com as fases da Lua, sua amiga e confidente, doidivana e consciente de tudo e de nada — aspectos plenos de suas limitações e incongruências… Encontrou nesse intervalo, alguém que a amou. E ela também amou a quem encontrou. Mas ele não a entendia. Queria que as coisas tivessem sentido, mas o sentido que ela tinha não era o seu sentido. Ela acreditava que o que se sente não é conforme ao Tempo disforme, particular e diverso, pessoal e intransferível — átomo e universo. Três dias fora do calendário em que podia amar a quem quisesse e logo após deixaria, sem se ater que quem a tivesse por tão pouco tempo, pelo resto da vida a levaria na lembrança de todos os seus sentidos…
Eu queria falar de amor, mas meu amor foi embora… Depois disso, o meu amor me deixou. Porque o amor morre antes em nós e nossos amores, como flores sem água, ressecam, escurecem e vemos suas pétalas deixarem suas hastes e nossos braços.
Nossos abraços deixam de aquecer o corpo-solo, as nossas mãos não fertilizam mais carinhos, os nossos olhos não vislumbram mais o sol na manhã orvalhada.
Quando isso aconteceu? Foi da noite para o dia? Ou fui sendo envenenado pouco a pouco, minha alma a se desertificar até se tornar terreno pedregoso, ácido e impuro?
O que sei é que quando olhei ao redor só percebi padecimento e ignorância, violência e ódio, morte e desdém. Doenças e falsas crenças, o mal a grassar de graça — desgraça e trapaça — povo contra povo, o tentacular polvo do poder a provocar a confundir, a maldizer, a mentir, a matar…
Antes, eu conseguia proteger o meu jardim… Afastava predadores e pragas, me abrigava de palavras negativas, frequências de indecências em ultrajantes vagas dos corruptores do espírito… Conseguia ultrapassar as nuvens escuras de tenebrosas ameaças e ver a luz. Conseguia pôr a cabeça e respirar para fora do lamaçal — esgoto de merdas, merdinhas e merdaças.
Porém a luta insana me esgotou. Cansado, submergi sob a influência do homem mau — mitológico e orgulhoso representante do Medo e do Mal-feito. O meu amor me deixou e não consigo mais falar de amor — boca que se calou em campo de cultivo inóspito-asfaltado, rumor de lembrança boa, falta que magoa — dor fantasma de membro amputado…