Árvore que caiu durante a madrugada, em Junho de 2015, na Praça da República
Eu era uma árvore antiga Já vira milhares de cenas Já vivera milhares de vidas Por cada cabeça que passou por mim Eu me compadeci da maioria E me perguntava: de onde vinham? Para onde vão? Como conseguem viver sem raízes? Sem um lugar para chamar de chão? Cresci forte e via propósito Nas aves que abrigava Na sombra que projetava Comecei a adoecer Quando percebi os atos desrespeitosos O descaso com a minha saúde As pessoas alimentando o meu solo Com o lixo humano Senti que não servia mais para limpar o ar Aplacar os ruídos fortes Filtrar o ódio que os bípedes produziam Morri aos poucos Galho por galho Folha por folha Tronco e raiz Decidi, então, me deitar Sem ferir ninguém Na calada da noite Testemunhada apenas por meus pares Vertendo terra cor de sangue Para ser esquartejada E levada aos pedaços Para jazer em partes Longe das gentes E seus pecados…
quando a toquei cego pelo amor desvelei os véus da percepção humana para além do sentido barato e velado da visão
ultrapassei a pele alcancei a alma meu corpo se tornou todo potência energia sem identidade dor orgástica-holística prazer perfeita desorganização do sentido do sentir
unidos a roçar terminações nervosas hipersensibilizadas drogados pelo cheiro gosto escuridão clarividente paixão eterna profunda muito mais que amor perene platitude
invasão de novos territórios para além da vida penetrações atraídos por buracos negros onde se consomem fótons fantasias glúons gulosos quarks aquartelados neutrinos sanguíneos constelações galáxias inteiras
suor golfo úmido rocio em pelos vaporizados resfolegar arpejos brotar plena consciência corpo epiderme campo fértil da breve morte bem-vinda big crunch em um último beijo no tempo que não existe mais…
Nesta quinta-feira, dia internacionalmente conhecido nas redes sociais para a postagem de #TBT, mostro aqui alguns registros esparsos no tempo. A expressão “TBT“, é a abreviação, em inglês, de “Throwback Thursday” ou, em tradução livre, “quinta-feira da nostalgia”. São, como serão estas aqui, imagens que nos remetem a comentários sobre a vida — que aprendemos a identificar como algo quase indecifrável enquanto a vivemos sem sabermos o fim em si. A não ser que tenhamos fé que assim não seja. Fé prova a existência da fé, mas não o que o objeto da fé trata. Criar algo que possivelmente não tenha alguma finalidade é de uma teimosia insanamente admirável…
BELO HORIZONTE EM SP (2015)
Peço que me desculpem o abuso, mas não posso deixar de partilhar com vocês a visão que tive do final da tarde de hoje, um sábado do início de inverno de 2015. Esta é uma São Paulo de belos horizontes, quando nos é dado presenciar. Boa noite!
COCÔ-ARTE (2012)
Quem vive com cachorros, sabe que nem tudo são flores no relacionamento com esses seres especiais. Como são artistas em vários aspectos — malabaristas, atores, palhaços e produtores de arte — muitas vezes eles têm rompantes criativos. Hoje, logo de manhã, contemplei essa arte das minhas cadelas em um lugar que deveria estar vedado ao acesso delas, já que colocamos um gradil que deveria impedi-las de acessar (esqueci de dizer que também eram acrobatas). Chamei essa criação de cocô-arte, mesmo porque, arte cocô está cheia por aí…
SANGUE NA TARDE (2016)
O inverno anuncia tardes derramadas em delírios… Mal podemos perceber que o tempo seco nos arranca a umidade da pele que se arrepia ao toque do frio… Os olhos desejam que se torne espelho a beleza que se apresenta, enquanto vemos que a paixão do Sol pela Terra termina vertida em sangue…
O ESTIVADOR (2016)
Esta é uma homenagem aos trabalhadores do cais, que carregaram nas costas a riqueza do País. Esta estátua se encontra em um trecho do longo percurso junto aos cais do Porto de Santos. Normalmente relacionado ao trabalho em embarcações, “estiva” refere-se à primeira camada de carga que se mete em um navio, e que é geralmente a mais pesada. Em decorrência disso, o trabalho físico de transporte de toda a sorte de objetos — sacas, fardos, móveis, madeira, ferro, etc — acabou por designar a atividade-profissão de “estivador”. Durante séculos, seres escravizados ou pagos à soldo, embarcaram a riqueza sempre mal distribuída por todas as nações do mundo. Eventualmente ainda realizada em lugares sem o maquinário adequado, a estiva me é bastante próxima, já que de forma semelhante, carregamos, eu, meu irmão e outros, equipamentos de sonorização e iluminação para a montagem de apresentações evanescentes, como se fossem eventos mágicos que só se confirmam se filmados e/ou fotografados. Provas totalmente refutáveis, ainda mais que a memória se dilui ao longo do tempo…
EM LUA, ARADO (2017)
Céu enluarado, vasto campo arado de estrelas enterradas nas nuvens… Um dia, brotarão em luz as sementes de um tempo limpo, sem dolo e má intenção… Não, hoje…
DANÇANDO, SEMPRE (2014)
Voltando da academia, pensando sobre o atual momento político, as eleições de domingo e sobre o destino de nosso país, concluí que vamos dançar. Todos! Decidi que vou aprender balé clássico. Se for para dançar, que seja com estilo e arte, praticando um “arabesque par terre”.
As janelas me veem passar… Sou aquele ser noturno no momento soturno da mudança de turno dos fantasmas do Centro… Na única sacada que se destaca, a saudade me saúda… Sou fulminado por seu olhar, tão luminoso quanto mil janelas abertas a me observar…
A metamorfose se deu, de início, pelo olhar… O movimento dela o paralisou. Como se fotografasse cada gesto, aprisionou dentro de si a evolução do casulo à borboleta – da flor ao céu – asas da imaginação…
Quis recuar quando suas vozes ocuparam o mesmo ambiente – palco de suas atuações… Percebeu que fluíam sonoras conversas de palavras entrecortadas, caladas…
As lacunas preenchidas de desejos perfeitos em suas incompletudes. Quebradas as barreiras – distâncias de centímetros-quilômetros – peles sem proteção, mentes despertas, liberta de atavismos e consequências, o imediato transformado em eterno, se reconheceram outros, os mesmos…
Ele, transmutado de Jekyll em Hyde, de homem em lobo, de mortal em vampiro, de Clark em Superman – todos e ninguém, vivia ausente de si… Passou a respirar o vácuo se não aspirasse o hálito da paixão…
Transformação irremediável, perigosa, instável, liberdade de viajante encarcerado, não trocaria o permanente desconforto do atual caos da criação do mundo pela antiga estabilidade da morte em vida…