Michelle Pfeiffer (Lea De Lonval) & Rupert Friend (Chéri), em Chéri, de Stephen Frears
Eu era moço Ela, uma senhora E senhora de si Se enamorou de mim… Logo, me buscou E, nela, me encontrei E com ela aprendi a ser Senhor de mim…
Aprendi a abrir portas A usar a língua Para falar e amar Aprendi a amá-la…
E, através dela Amei a todas as mulheres Amei as feias e as belas As fortes e as frágeis As boas e as más As sãs e as loucas Amei muitas e muito Todas, nela…
Certo dia, ela me deixou Sentiu que fosse a hora Porém, nunca saiu de mim Ela me fez um homem Que ama mulheres Que ama amá-las Que a ama eternamente Nelas…
O Sol e as estrelas Os navios e os barcos à vela As luas e os planetas A quinta dimensão e as quintas As bruxas e as profetisas Os mares e as brisas As musas e os poetas As lesmas e as borboletas Os asseclas e os obreiros Os pacíficos e os guerreiros Os práticos e os sonhadores As flores e as cores Os insetos e as bactérias Seres de todas as matérias Os sapos e as serpentes A Terra e as sementes As lembranças e os esquecimentos As tempestades e os bons ventos Os prazeres pequenos e os plenos As águas boas e os venenos Os homens e as pedras As igrejas e as cátedras As preces e os ditos definitivos Os remédios e os lenitivos As dores e as doenças A morte e a vida e as crenças Os amantes antigos e os modernos Os amores súbitos e os eternos Todo o bem e todo o mal Sob a abóbada celestial…
Até o outro dia, eu vivia em minha cidade Quem caminhava por aquelas calçadas Tinha oito, dez, doze anos de idade Sonhava cantar entre bocas caladas
Queria ser ginasta olímpica ou acrobata Seria bailarina, atriz, cantora e modelo Corria, saltando por sobre o muro do meu castelo Princesa que eu era, moleca, brincava de pirata
Corria de carros e de touros, de gansos e de moços Até que cresci e o perigo começou a me atrair Descobri o poder que tinha de conquistar sem esforços Lançava olhares ao redor, possuía e tinha vontade de partir
E parti em busca de sentimentos profundos e do mundo Vivi amores, senti dores, provoquei desmoronamentos Alcancei o céu e chafurdei no lodo imundo Fui considerada excelente e fomentei lamentos
Eternamente apaixonada e quase sempre apaixonante Capturei vítimas e me vitimei, fui muito amada e muito amei Na curva da rua a menina que fui não mais ouviu o vento sussurrante Deixou de subir em árvores e de ouvir respostas que clamou
Envelheci ao encontrar o meu amor definitivo? Ao sentir que pertenço a alguém, deixei de sonhar? O meu corpo, compartilhado, se sentirá permanentemente cativo? Por que, em vez de certezas, agora só tenho o que perguntar?
Não sou flor, mas uma borboleta me procurou… Talvez sentisse que eu fosse um porto seguro, uma parada estável durante o seu voo aparentemente sem rumo. Sabia que ela vivia os seus últimos momentos. Passou a maior parte de sua existência a esperar a liberdade. A sensação de ser livre carrega a morte anunciada em sua própria gênese. Se todos nós morremos um dia, que seja dessa maneira: um voo lindo para outra possibilidade de ser…
A loucura não era pouca. Ele, tomado de amor, vibrava em jatos. Ela, gemente de paixão, terminava em prantos…
Dos lençóis revolvidos, surgiam unidos em corpo, suor e sangue. As almas, abandonando a ambos, esvaíam-se pelos poros…
Os fluídos, em escambos, formavam um rio de odores doces e cruas dores…
Quando se despediam, era como se fosse o último encontro. É como se acabasse o mundo. Como se fechassem os portais do tempo. Como se cessassem a contagem das idades. Como se inaugurasse o Templo da Saudade…
Até o próximo quarto de Lua. Até se abrir a porta do próximo quarto. Até a entrega do próximo beijo. Até a consumação do imenso desejo. Até que ele se entregasse em exaustão à rinha, até que ela incorporasse a Louca Rainha…