Eu quero ser lido, mas jamais decifrado… Eu quero ser saboreado, mas nunca perder o gosto… Eu quero ser rio manso para ser navegado e mar revolto que afunda embarcações… Quando me mostrar indômito, buscarei a comunhão… Quando estiver sereno, quero causar perturbação dos sentidos e dos sentimentos… Quero ser seu e emancipado de mim, quando estiver consigo… Barco jamais ancorado, conduzir e ser conduzido… Navegar e amar…
Há, dentro de mim, uma briga Momentos em que o meu coração grita Debate-se dentro do peito Com o pulmão se atrita Rebela-se contra os órgãos que abastece de sangue Autoritário, tenta impor as suas certezas Rumar contra as correntezas Chega a sugerir que sonhe a mente Mente que não aguentará outras aventuras Que sofrerá com outra aversão Confia na sua característica demente A da mente que se engana facilmente Porque sabe que ela não se exprime Para além dos sentidos Aprecia pela visão Enternece-se pelo som Subjuga-se pelo toque Submete-se pelo gosto É uma mente limitada Ao mundo que apreende pelas demandas do corpo Porque é mais simples buscar o sentido de tudo Pela experiência sensorial? Onde está a minha alma, Que não assume a posição de senhora? A tentar reencontrar a consciência perdida Pelas vidas afora A cada manhã e aurora De mim, para mim Amém?
Vivo quase o final da minha quinta década. Estou, como nunca antes na minha vida, me sentindo em plenitude. Não que tenha tanto fôlego quanto antes, porém nunca tive, como agora, consciência de minhas limitações. Além de certeza de minhas possibilidades… Sei que sou falível. Por isso, me cuido mais e cuido mais de quem está a minha volta. Tento não deixar nada ao acaso. A não ser quando sinto que é o acaso que deva comandar a trama. Como disse alguém deste sertão, “a felicidade se acha nas horinhas de descuido”… Então, antes de voltar para a realidade do sonho, sem cuidado, saltei para a precariedade da vida real. Só não esperava que o mergulho nessas águas sem termo fosse tão profundo, que talvez não possa retornar…
O meu amor gosta de Bukowski e eu amo Augusto dos Anjos. Se Augusto dos Anjos tivesse sido influenciado por Bukowski, talvez não tivesse existido o poeta como o conheço. O preto, se se conformasse em se ater ao seu destino proclamado — marginal, apesar de ser maioria, palavra difícil de ser decifrada em meio a vocábulos fáceis de serem compreendidos, não chegaria a mim — menino da periferia — que me encantava com a palavra complexa que feria.
Se abraçasse o enunciado do americano — bêbado que vomitava durezas de descrente, leoninamente egoico, dogmaticamente estoico, adepto da simplicidade de expressão — não seria grande além do tempo, o paraibano. Dos Anjos era palavra quase inacessível. Fosse fiel às prisões do imediato e do lugar, se filiaria a obviedade e ao possível.
O americano, necessário, porém perplexo, o paraibano, imprescindível, contudo sem aparente nexo, não se confrontam em meu coração, que eu sinta. Um, eu leio e deixo minha rebeldia extemporânea satisfeita. Outro, eu leio a mim e me encontro incompleto, a tentar alcançar lonjuras. O ébrio, ainda que espalhafatoso, morreu velho. O professor que era poeta, morreu aos 30. Não se encontraram a não ser diante dos meus olhos — os versos de um embriagam e me deixam de porre, os do outro suplantam meu corpo e dilaceram minh’alma. Bukowski, brincava com o perigo de existir. Dos Anjos, fazia de companhia a morte que não o enlutava, mas celebrava.
Bukowski, foi ele. Dos Anjos, sou Eu. Enquanto que o egoísta não quis mostrar a ninguém o pássaro azul no peito, o centrado revelou a “frialdade inorgânica da terra”. Enquanto um soltou crônicas de amor louco em ereções, ejaculações e exibicionismos, sendo incensado; o outro, incompreendido em seu tempo, renegou a religião como resposta e proclamou que ninguém doma o coração de um poeta — sendo amaldiçoado.
Sou palavra difícil. É compreensível que não possa ser entendido. Mas acho triste não ser lido ou ouvido por quem diz me amar. Começo a duvidar da minha expressão. Não deveria me derramar? Deveria ser prosaico ou antes, calado? Ao me revelar, deverei ser contido? Deverei reverberar a palavra fácil, complacente? Erradicar a minha fala de estranha vertente? Ser Bukowski e seguir a inóspita franqueza? Ou ser Dos Anjos e violentar meu cotidiano dos termos óbvios e tiranos? A única simplicidade a qual me rendo é dizer que a amo e disso não me arrependo…
Da ponte, a trama Da cidade, o drama Dos campos sem grama Dos rios de lama Da vida em programas Dos corpos em chamas Da luta pela fama Do império da grana Que aos corações inflama.