A Manga Do Monge

Manga do quintal

Ao alcance da minha mão
Entre verdes, uma amarela
Feito um maduro mamão
Não foi preciso sacudidela
Quase repousa, a manga
Entre meus dedos, ao toque
Como estivesse junto à sanga
Apenas experimento o choque
De ser transportado para longe
Para o instante do doce corte
Em que decidi não ser monge
Mas me lambuzar de outra sorte
De vivenciar o gosto da fruta
De arregaçar as mangas
Ter filhas, enfrentar a labuta
Viver a vida, juntar bugigangas
Parece que a cada mordida
A história se repete em ondas
Antigas sensações reacendem
Bons fantasmas fazem suas rondas
Mandam-me lembranças enquanto ascendem…

O Mais Pesado Que O Ar

Noite feita,
quase relego ao esquecimento
a imagem da tarde…
Crepúsculo recuperado,
o passado
se faz presente e arde…
Revejo a nave que não sei se chega ou se parte…
Pinceladas compostas de água e luz — a arte —
pontua o fundo da paisagem
ao oeste.
Eu, poeta do poente,
sei que apenas o amor é combustível poderoso o suficiente
para fazer voar
o mais pesado que o ar…

A Esfinge

Exposta às intempéries – à luz, à câmera, aos desejosos olhares –
passam todos por sua superfície,
essência que se esconde,
ao se mostrar em pele…
Corpo de mulher, cabeça de azul – esse ser-etéreo-cor –
proclama a antiga máxima, apenas por tradição:
“Decifra-me ou lhe devoro!”
Pois que não deixa de devorar, a quem-qualquer se lhe aproxima –
o pensamento e a atenção – tensão
que não se basta.
Antes, se abastece da atração – se desbasta
de adoradores que se entregam, de bom grado,
à sua devoção-devotamento…
A Esfinge ora a que deus, se ora?
A oratória é de quem quer ser,
mais do que a qualquer divindade – adorada.
De hora em hora, são miríades – mulheres, homens e anjos-de-asas-sem-penas –
entidades-sem-sexo a penarem
por seu olhar-de-terra-à-vista do primeiro astronauta:
“por mais distante,
o errante navegante –
quem jamais lhe esqueceria?
Eu-o-observador, creio que seu segredo está em não ser decifrada –
A Esfinge –
mas ser aceita em sua complexidade-de-mulher-que-finge
ser quem não é, por profissão
de fé e paixão.
Que esse fingimento é sua essência-de-jogo-de-espelhos que se alheia
e se mistura às gentes, que as consumem por dentro,
enquanto sua beleza de Alien simbiótica-mística-quântica
a reproduzir sua imagem em cada íris de quantos-olhos-outros,
muitos, embarcados em existires sem nexo.
Por que o faz, se mata de amor aos seus hospedeiros e se deixa morrer?
Sua natureza esfíngica explica…
E nada revela.


Senhora

Michelle Pfeiffer (Lea De Lonval) & Rupert Friend (Chéri), em Chéri, de Stephen Frears

Eu era moço
Ela, uma senhora
E senhora de si
Se enamorou de mim…
Logo, me buscou
E, nela, me encontrei
E com ela aprendi a ser
Senhor de mim…

Aprendi a abrir portas
A usar a língua
Para falar e amar
Aprendi a amá-la…

E, através dela
Amei a todas as mulheres
Amei as feias e as belas
As fortes e as frágeis
As boas e as más
As sãs e as loucas
Amei muitas e muito
Todas, nela…

Certo dia, ela me deixou
Sentiu que fosse a hora
Porém, nunca saiu de mim
Ela me fez um homem
Que ama mulheres
Que ama amá-las
Que a ama eternamente
Nelas…

Sempre Haverá…

O Sol e as estrelas
Os navios e os barcos à vela
As luas e os planetas 
A quinta dimensão e as quintas
As bruxas e as profetisas
Os mares e as brisas 
As musas e os poetas
As lesmas e as borboletas
Os asseclas e os obreiros
Os pacíficos e os guerreiros
Os práticos e os sonhadores
As flores e as cores
Os insetos e as bactérias
Seres de todas as matérias
Os sapos e as serpentes
A Terra e as sementes
As lembranças e os esquecimentos
As tempestades e os bons ventos
Os prazeres pequenos e os plenos 
As águas boas e os venenos
Os homens e as pedras
As igrejas e as cátedras
As preces e os ditos definitivos
Os remédios e os lenitivos
As dores e as doenças
A morte e a vida e as crenças
Os amantes antigos e os modernos
Os amores súbitos e os eternos
Todo o bem e todo o mal
Sob a abóbada celestial…

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