Uma Mulher

Até o outro dia, eu vivia em minha cidade
Quem caminhava por aquelas calçadas
Tinha oito, dez, doze anos de idade
Sonhava cantar entre bocas caladas

Queria ser ginasta olímpica ou acrobata
Seria bailarina, atriz, cantora e modelo
Corria, saltando por sobre o muro do meu castelo
Princesa que eu era, moleca, brincava de pirata

Corria de carros e de touros, de gansos e de moços
Até que cresci e o perigo começou a me atrair
Descobri o poder que tinha de conquistar sem esforços
Lançava olhares ao redor, possuía e tinha vontade de partir

E parti em busca de sentimentos profundos e do mundo
Vivi amores, senti dores, provoquei desmoronamentos
Alcancei o céu e chafurdei no lodo imundo
Fui considerada excelente e fomentei lamentos

Eternamente apaixonada e quase sempre apaixonante
Capturei vítimas e me vitimei, fui muito amada e muito amei
Na curva da rua a menina que fui não mais ouviu o vento sussurrante
Deixou de subir em árvores e de ouvir respostas que clamou

Envelheci ao encontrar o meu amor definitivo?
Ao sentir que pertenço a alguém, deixei de sonhar?
O meu corpo, compartilhado, se sentirá permanentemente cativo?
Por que, em vez de certezas, agora só tenho o que perguntar?

Voo

Não sou flor,
mas uma borboleta me procurou…
Talvez sentisse
que eu fosse um porto seguro,
uma parada estável durante o seu voo
aparentemente sem rumo.
Sabia que ela vivia
os seus últimos momentos.
Passou a maior parte de sua existência
a esperar a liberdade.
A sensação de ser livre carrega a morte anunciada
em sua própria gênese.
Se todos nós morremos um dia,
que seja dessa maneira: um voo
lindo
para outra possibilidade de ser…

A Rainha Louca

A loucura não era pouca.
Ele,
tomado de amor,
vibrava em jatos.
Ela,
gemente de paixão,
terminava em prantos…

Dos lençóis revolvidos,
surgiam unidos
em corpo, suor e sangue.
As almas,
abandonando a ambos,
esvaíam-se pelos poros…

Os fluídos,
em escambos,
formavam um rio de odores
doces
e cruas dores…

Quando se despediam,
era como se fosse o último
encontro.
É como se acabasse
o mundo.
Como se fechassem os portais
do tempo.
Como se cessassem a contagem
das idades.
Como se inaugurasse o Templo
da Saudade…

Até o próximo
quarto de Lua.
Até se abrir a porta
do próximo quarto.
Até a entrega
do próximo beijo.
Até a consumação
do imenso desejo.
Até que ele se entregasse
em exaustão à rinha,
até que ela incorporasse
a Louca Rainha…

Navegar E Amar

Eu quero ser lido,
mas jamais decifrado…
Eu quero ser saboreado,
mas nunca perder o gosto…
Eu quero ser rio manso para ser navegado
e mar revolto que afunda embarcações…
Quando me mostrar indômito,
buscarei a comunhão…
Quando estiver sereno,
quero causar perturbação
dos sentidos e dos sentimentos…
Quero ser seu e emancipado de mim,
quando estiver consigo…
Barco jamais ancorado,
conduzir e ser conduzido…
Navegar e amar…

Coração, Mente E Alma

Há, dentro de mim, uma briga
Momentos em que o meu coração grita
Debate-se dentro do peito
Com o pulmão se atrita
Rebela-se contra os órgãos que abastece de sangue
Autoritário, tenta impor as suas certezas
Rumar contra as correntezas
Chega a sugerir que sonhe a mente
Mente que não aguentará outras aventuras
Que sofrerá com outra aversão
Confia na sua característica demente
A da mente que se engana facilmente
Porque sabe que ela não se exprime
Para além dos sentidos
Aprecia pela visão
Enternece-se pelo som
Subjuga-se pelo toque
Submete-se pelo gosto
É uma mente limitada
Ao mundo que apreende pelas demandas do corpo
Porque é mais simples buscar o sentido de tudo
Pela experiência sensorial?
Onde está a minha alma,
Que não assume a posição de senhora?
A tentar reencontrar a consciência perdida
Pelas vidas afora
A cada manhã e aurora
De mim, para mim
Amém?