Vivo quase o final da minha quinta década. Estou, como nunca antes na minha vida, me sentindo em plenitude. Não que tenha tanto fôlego quanto antes, porém nunca tive, como agora, consciência de minhas limitações. Além de certeza de minhas possibilidades… Sei que sou falível. Por isso, me cuido mais e cuido mais de quem está a minha volta. Tento não deixar nada ao acaso. A não ser quando sinto que é o acaso que deva comandar a trama. Como disse alguém deste sertão, “a felicidade se acha nas horinhas de descuido”… Então, antes de voltar para a realidade do sonho, sem cuidado, saltei para a precariedade da vida real. Só não esperava que o mergulho nessas águas sem termo fosse tão profundo, que talvez não possa retornar…
O meu amor gosta de Bukowski e eu amo Augusto dos Anjos. Se Augusto dos Anjos tivesse sido influenciado por Bukowski, talvez não tivesse existido o poeta como o conheço. O preto, se se conformasse em se ater ao seu destino proclamado — marginal, apesar de ser maioria, palavra difícil de ser decifrada em meio a vocábulos fáceis de serem compreendidos, não chegaria a mim — menino da periferia — que me encantava com a palavra complexa que feria.
Se abraçasse o enunciado do americano — bêbado que vomitava durezas de descrente, leoninamente egoico, dogmaticamente estoico, adepto da simplicidade de expressão — não seria grande além do tempo, o paraibano. Dos Anjos era palavra quase inacessível. Fosse fiel às prisões do imediato e do lugar, se filiaria a obviedade e ao possível.
O americano, necessário, porém perplexo, o paraibano, imprescindível, contudo sem aparente nexo, não se confrontam em meu coração, que eu sinta. Um, eu leio e deixo minha rebeldia extemporânea satisfeita. Outro, eu leio a mim e me encontro incompleto, a tentar alcançar lonjuras. O ébrio, ainda que espalhafatoso, morreu velho. O professor que era poeta, morreu aos 30. Não se encontraram a não ser diante dos meus olhos — os versos de um embriagam e me deixam de porre, os do outro suplantam meu corpo e dilaceram minh’alma. Bukowski, brincava com o perigo de existir. Dos Anjos, fazia de companhia a morte que não o enlutava, mas celebrava.
Bukowski, foi ele. Dos Anjos, sou Eu. Enquanto que o egoísta não quis mostrar a ninguém o pássaro azul no peito, o centrado revelou a “frialdade inorgânica da terra”. Enquanto um soltou crônicas de amor louco em ereções, ejaculações e exibicionismos, sendo incensado; o outro, incompreendido em seu tempo, renegou a religião como resposta e proclamou que ninguém doma o coração de um poeta — sendo amaldiçoado.
Sou palavra difícil. É compreensível que não possa ser entendido. Mas acho triste não ser lido ou ouvido por quem diz me amar. Começo a duvidar da minha expressão. Não deveria me derramar? Deveria ser prosaico ou antes, calado? Ao me revelar, deverei ser contido? Deverei reverberar a palavra fácil, complacente? Erradicar a minha fala de estranha vertente? Ser Bukowski e seguir a inóspita franqueza? Ou ser Dos Anjos e violentar meu cotidiano dos termos óbvios e tiranos? A única simplicidade a qual me rendo é dizer que a amo e disso não me arrependo…
Da ponte, a trama Da cidade, o drama Dos campos sem grama Dos rios de lama Da vida em programas Dos corpos em chamas Da luta pela fama Do império da grana Que aos corações inflama.
A Lua, quarto crescente, de 102 bilhões de anos… A Aranha, de 102 dias… Um dia, se extinguirão… Só o amor sobreviverá.
Gilson, o rapaz que tem a sensibilidade de encontrar o pai no tom de voz de um desconhecido, deu o mote e logo me senti compelido a criar algo em torno desta foto. Ele, inclusive, sugeriu um título – A Aranha Que Roubou A Lua. Quem compõe ou escreve, sabe que muitas vezes uma canção ou um texto segue certo protocolo e para quem tem as ferramentas, é até fácil construir temas aceitáveis. Mas desde o início, em vez de uma crônica gracinha, chegou a mim os versos que coloco a seguir. A Lua, ainda que roubada, continua a ser poética.
Noite alta… Ainda não era amanhã… E, ainda que fosse, vivo sempre o hoje. Amanhã é um lugar distante ao qual nunca chegarei…
Lua em quarto crescente, o homem, descrente do amor, a busca no olhar e a fotografa. No registro revelado, uma aranha arranha a imagem da penumbra contra as luzes artificiais.
O ser, inicialmente invisível, rouba a Lua de seu protagonismo. Coloca cada elemento, com a sua função. Nada ocorre à esmo. A aranha aprisiona o seu alimento… A Lua consola a minh’alma…