… 7, 8!

7, 8!
Giovanni Boldini, Dançarina Espanhola no Moulin Rouge

Éramos dois perdidos numa cidade suja.
Nossos caminhos se encontraram – bailarina-cerebrina e espectador-expectador…
Meus olhos a perseguirem seus passos nas esquinas-palcos.
Eu, um solitário, cercado de pessoas e afazeres,
fui beijado por ela em dia de Carnaval diante da porta do trabalho.
Ela brandiu o seu leque, fantasiada de espanhola;
eu, um espanhol fantasiado de ninguém, o roubei…
Apaixonado, atrapalhado, alucinado, amargurado, assustado,
me recusava a olhá-la nos olhos fugidios-furta-cores –
sabia que neles me perderia para sempre…
Ela me amou como sempre me conhecesse;
eu, como se nunca devesse tê-la encontrado – pecado em forma de mulher –
cristão-penitente me a me sentir condenado…

Este-eu-pobre-ridículo-homem-tempo-seco,
enquanto ela era tempestade – raios e trovões em dia claro de sol –
visão oscilante feito miragem de oásis no deserto;
nunca soube ou quis amá-la como deveria
e ela gostaria.
Preferi fugir para um lugar onde sentia frio e dor,
mais confortável do que é amar – ser enganado por meus sentidos – nunca ter certeza de onde estava ou se caminhava ou se flutuava
ou se estava a cair indefinidamente numa fossa abissal…
Consegui sobreviver à vida por ela ofertada.
Preferi passear comigo mesmo em confortável-estável-imutável-roda-gigante
num eterno domingo no parque da morte…
Nos deixamos por mensagens-rompantes-soluços-choros de criança,
sem adeus ou carta de despedida…

BEDA / Portais

Portais

Na penumbra do quarto,
enxergo o seu corpo com as minhas mãos
e a minha língua…
Deito minha pele a cobrir a sua,
peito com peito,
plexo com plexo,
pernas entrelaçadas,
braços a abraçarem,
bocas a dizerem tanto – sons indefinidos –
recital em alfabetos primitivos,
guturais…
Ao erguer a minha cabeça,
à minha esquerda, o antigo rádio-relógio
mostra quatro números idênticos – 11:11 –
abertura de portais…
Pela passagem,
a penetro,
me entrego,
vou e volto e vejo
passarem figuras que me visitam,
talvez
múltiplos de mim,
gama de energias…
Sou outro, você é outra,
somos todos e ninguém…
Chegamos a um lugar-nenhum-lugar.
Morremos para esta vida por um tempo –
além –
e inauguramos a eternidade…

BEDA / Uma Só Asa

Eu, até os meus quatorze ou quinze anos, escutava muito mais músicas brasileiras do que estrangeiras. Corria o início dos anos 70. Era bastante fascinado pelas letras, que em conjunto com as belas melodias, compunham o meu acervo poético, para quem não tinha tanto acesso à literatura em versos para além dos livros didáticos do ginásio.

Entre os compositores que apreciava, Chico Buarque era um dos meus favoritos. As suas composições, falando das mulheres como se fora uma, me influenciou grandemente. Eu, que apenas queria entender aquele ser que se expressa fortemente através da associação do cérebro a uma parte do corpo que os homens nem sequer imaginam o poder – o útero – o usei como referência em muitos aspectos. Quando ouvia “Mulheres de Atenas”, “Com açúcar, com afeto”, “Cotidiano” e “Sem açúcar”, por exemplo, sabia que era apenas um contraponto, já que a minha mãe, minha referência imediata, não se parecia com aquelas mulheres aparentemente submissas.

Nos versos a seguir, que fiz para um projeto musical apenas iniciado, mas nunca levado adiante, tento me colocar no lugar de uma mulher. Espero que as minhas amigas se sintam pelo um pouco representadas por eles. Se não, perdoe a intromissão nesse universo que tento compreender até sempre.
Anjo
Uma Só Asa

Quem quer um anjo em sua vida, quem quer um amor?
Que caia do céu, direto para você, um anjo transgressor?

Um anjo caiu em meu quintal e foi assim
Uma luz, um estrondo… e um rapaz se ergueu
Entre a garagem coberta e o canteiro do jardim
De seus ombros largos, apenas uma asa, a outra se perdeu…

Vestia uma roupa muito branca, quase transparente

Deixava entrever as formas de um corpo esguio
Jeito de menino-homem, com a sua asa pendente
Caminhando decidido, veio direto para mim, bravio

Não tive medo, não pensei neste tempo doentio

Parece até que o esperava, o buscava em meu sonho
Não aguardava que fosse um anjo vindo do vazio
Mas senti que ele seria aquele ser que chegara risonho…

Ao se aproximar, pegou em minha mão, que tremia
Beijou a minha testa e baixou os lábios até a minha boca
Apenas entreabriu a sua e soprou que me queria
Que já há algum tempo me observava e que chegara a nossa época…
Perguntei sobre a asa que não trazia, a que havia sumido
Respondeu que começou a pensar apenas em mim e que caíra em casa
Já amputado, porém feliz, pois fora atendido em seu pedido
E dessa maneira, ganhei o meu homem, um anjo de uma só asa…

Quem quer um anjo em sua vida, quem quer um amor?
Que caia do céu, direto para você, um anjo transgressor?”

BEDA / Carroceiro De Sonhos

Carroceiro

Ontem
O sol passou por aqui
Homens
Cães
Carros
Passaram por aqui
E eles passaram pela paisagem
Passaram tão rapidamente
Quanto a pressa de chegar queria
Tão devagar quanto a água do Tietê
Se movia
Ontem
A paisagem passou por mim
Em uma carroça
Dos tempos do sem fim…

BEDA / O Desamado

DESAMADO
Amanhecer fogoso…
O sol assoma no horizonte,
impetuoso…
fulgurante…
No entanto, para o desamado,
os seus raios não apenas queimam,
mas penetram, feito adagas,
a golpearem o seu corpo cheio de chagas…

Aturdido, o desamado
não compreende como pode tanto amar
e se ressentir tanto
de quem ama…
Padece por estar longe…
Quando por perto, é repelido
e sofre por ver seu amor desperdiçado…

A quem ama,
também o amou…
Ou talvez ainda o ame…
Mas viveu outras histórias de paixão
que machucaram o seu corajoso coração,
tão bravo que insiste em se apaixonar de novo…
Precisa se sentir plena e ímpar,
não apenas distinta entre todas,
mas única e soberana,
feito uma leoa na estepe…
Qualquer olhar lateral a faz desconfiar,
a remete às presas fendidas,
às paixões perdidas…

Como defesa,
prefere boicotar o amor,
substituir a sofreguidão pelo corpo do amado
por outro vício –
cigarro, bebida, sexo sem sentido, qualquer droga…
Afastar o desejo por aquele que a fere sem querer –
o triste desamado, que naufraga
em sua santa ignorância
inepta e juvenil…