
BEDA / Eu Aceito



Um passado de dificuldades imensas
Pouco dinheiro, muito trabalho, marido que sumiu
Acordo…
O choque do meu corpo com o frio da manhã
me faz ressoar ranheta
e arrepia a minha pele quente
de mamífero…
Expilo pelo nariz
restolhos liquefeitos
em decomposição
e respiro…
Conquanto
saiba de nossa transitoriedade
e impermanência física,
acredito em nossa transcendência
como Seres,
contra todos os prognósticos…
Ainda que assoe mais excrementos,
estou a sentir que mentimos substâncias
contingentes,
enquanto vivo a nossa verdade atemporal…


Você me chamou e não a ouvi
Estava absorto na faina cotidiana
Navegava pelos rios de asfalto da cidade
Percorria os túneis de fuga terra adentro
Para fora de mim mesmo
Sempre apartado do meu corpo
O que poderia ser um sinal de independência
Não se cumpria
Pois os pensamentos arquitetados
Por outras mentes
Eram absorvidos por meus olhos
Invadiam o meu cérebro
Caminhados por minhas pernas
Se incorporando à minha rotina
Como se meus fossem, através do poder de intervir
Consumado pela arquitetura citadina
Realizada pelos planejadores do ir e vir
Estava partindo para um lugar certo
Porém não pensava nisso
Mesmo querendo parecer borboleta
Ainda que formada e liberta
Voltava para o meu casulo
Que me atraía
Como tal, as minhas asas voavam um voo curto
Mais decorativas do que eficientes
E termino sendo um simples humano ser
Fingindo um próprio querer…