Projeto Fotográfico 6 On 6 – Outono

Meninas, em 95
Minhas filhas, Romy, Lívia (no berço) e Ingrid, em 1995.

O Outono chega carregado de saudade, reafirmada a cada folha que se desprende das árvores do quintal. As temperaturas mais altas deixam de ser mais frequentes, pouco a pouco. Por algum motivo obscuro (a mesma saudade?), tentamos organizar os álbuns de família, o que quase nunca conseguimos. Talvez aconteça neste Outono, talvez, não… Enquanto isso, viajamos para outros tempos – emoções antigas e renovadas.


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Antes do descobrimento…

A chegada do Outono, me incentiva, mais do que no Verão, que eu vá me encontrar com a praia, o mar e o sol mais inclinado. É uma estação que aproveito para me internar-exteriorizar.  Sou Eu-tono… Encontro a areia deserta, apenas habitada por pássaros. Viajor, recuo eras, a ponto de regressar à época do Descobrimento. Como em “Somewhere In Time”, o encanto se quebra por causa dos dejetos deixados pelos humanos no presente…


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Tortillas paraguayas…

Nesta época do ano, nem sempre temos tempo para organizar almoços ou jantares. As sobras de um dia para outro, como arroz, propiciam que eu faça um dos meus pratos salgados favoritos, digno representante de anos precários da minha infância – tortillas paraguayas – uma das heranças de minha origem de filho da meu lado paraguaio por parte de pai. Receita? Além de arroz, farinha de trigo, ovos, leite, queijo ralado, sal a gosto…


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Flores inesperadas…

O que fazem flores no meu Outono? Pois, é… Flores simples, ignorantes que não devam florir nesta estação outonal, surgem despudoradamente nos recantos mais inesperados. Como à margem de nossas calçadas mal cuidadas. Afinal, por dádiva de um País Tropical, temos cores em tempos acinzentados…


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Sois sol…

Época nebulosa, é comum o sol brincar de esconde-esconde em dias indecisos, de quatro estações em poucas horas. É só esperar para encontrar horizontes-contrapontos que aludem a quadros de pintores iniciantes. Volto à infância, quando vivia a decorar papéis com as mesmas cenas que se repetem de manhãs às tardes, antes e depois das chuvas.


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The Beatles In The Couch…

Por vezes, a passar pelas calçadas de Sampa, encontramos recantos. Foi o que aconteceu nesta semana quando, na região da Paulista, em um anoitecer recém-lavado, encontramos Mar de Livros – Sebo-Brechó-Discoteca – ponto de encontro gostoso forrado com itens de colecionador e livraria. Lá, até os Beatles encontramos no sofá… Após uma reunião, eu e Lunna, um escritor e a editora-escritora da Scenarium, experimentaram momentos de descontração, risos e descobertas. Aconteceu neste Outono, o que por si só, já o torna muito especial.

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | OUTONO

EDITORA SCENARIUM PLURAL

COM A PARTICIPAÇÃO DE Mariana GouveiaLunna GuedesMaria Vitoria

Projeto Fotográfico 6 On 6 / As Minhas Manhãs

As manhãs normalmente demarcam o início dos dias para a maioria dos seres. Os meus dias tanto poderão começar à tarde ou à noite, como terminarem quando quase todos estão a despertar. Nessas manhãs indeterminadas, posso estar a dormir após uma longa jornada de trabalho, como estar em trânsito para mais um evento madrugador ou, ainda, a voltar de um. Isso, quando não costuro os pés de um dia nas orelhas de outro, a constituir um existir anómalo.

Fechado em casulos, a minha atividade muitas vezes não me permite ver o sol ou a chuva, sentir o calor ou o frio vindo do exterior. Passageiro transitório das horas, vivo sob o foco de luzes artificiais. Justamente eu, que ama a Natureza e que admira a demonstração de sua energia criadora.

Quando em casa, invariavelmente, leio ou escrevo, faxino ou cozinho – atividades caseiras que estranhamente me inspiram ideias para os meus textos. Se for fazer algo fora, transito por ônibus ou trens de Metrô por Sampa. Como não dirijo, por carro, sou apenas um carona. As seis fotos a seguir, tentam localizar visualmente minhas manhãs mais comuns…


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Janelas para o Largo de São Bento, na Rua Florência de Abreu.

Quando estou de folga, tento aproveitar o dia desde cedo. Uma das coisas que mais gosto de fazer é caminhar pela cidade. Eu simplesmente me “perco em lembranças” de uma época que não vivi. Como um arqueólogo de uma civilização ainda viva, apesar de mostrar as veias abertas de sua transformação, percorro suas ruas sendo um com a cidade – moribunda em uma das suas faces, enquanto se reconstrói em outra.


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Serra do Mar

Quando faço eventos em outras cidades, muitas vezes, tenho que me deslocar mais cedo para chegar ao destino a tempo de montar o “circo”. Como carona, tenho a possibilidade de ter contato visual mais cuidadoso com as paisagens que se sucedem. Rios, serras, florestas, campos, e horizontes – luzes transformadas em vida.


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Espaço deslizante…

Eu sou passageiro (quem, não é?) e nos coletivos a paisagem também é humana. Fico entretido a observar pessoas que comungam o mesmo espaço deslizante pelos asfaltos da metrópole. Antes do advento das redes sociais, os passageiros se mostravam mais interessantes. Ouvia diálogos inusitados sobre todos os tipos de situações e casos. Garimpava hábitos e rostos diferentes. Episódios cada vez mais raros, quando duas ou mais pessoas se reúnem em uma conversa, lá estou…


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Limpar a mente…

Uma das coisas que mais gosto de fazer são as tarefas caseiras. Nesses exercícios quase mecânicos, consigo me abstrair de preocupações para me ater às ocupações. Varrer o quintal, então, é um deleite. Os movimentos contínuos, a buscar restos, juntá-los, para desobstruir os caminhos, limpar a mente. Em meu quintal, por exemplo, consigo conjugar essa ação com os ciclos naturais das árvores frutíferas aqui de casa. Através disso, nascimento, crescimento, frutificação, amadurecimento, morte e renascimento se descortinam diante de mim.


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A beleza pode ser enganadora…

Todas as terças, é dia de feira livre aqui na minha região. Eu aprendi com a minha mãe, desde menino, escolher e adquirir frutas, legumes e hortaliças, além de outros produtos. Consigo perceber a qualidade de acordo com alguns indicativos fáceis de serem observados. Porém, outros beiram a pura intuição. É comum a beleza ser enganadora com relação ao sabor. Consistência tem muito mais valor.


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O meu dia só começa quando tomo o primeiro gole de café.

As minhas manhãs começam, não importa a hora, quando me sirvo de café. O seu gosto me remete à infância. À família que lutava com dificuldades para manter-se unida e funcional. Às manhãs que se iniciavam às 4h30, em plena madrugada, para irmos para a escola longínqua. À minha mãe, que me “cafeinou” com mamadeiras com leite para que eu conseguisse despertar. Seja qual seja a hora, o meu dia só começa com cheiro e o sabor do primeiro gole de café.

Participam também deste projeto:

Mariana Gouveia  — o outro lado
Maria Vitória  — estranhamente
Lunna Guedes  — Catarina voltou a escrever

Projeto Fotográfico 6 On 6 / O Que Me Inspira

Vivo que estou, tudo me inspira. Do amor à violência, tudo o que se manifesta como expressão humana me deita raízes e razões – a escrita como artifício e meio. No entanto, há temas que fico a respirar recorrentemente. Enquanto não consigo lhe revelar alguns dos mistérios – o que nem sempre o torna menos enigmático – volto a ele várias e várias vezes.

Os fenômenos naturais sempre me atraíram muito. Menino da cidade, antes de saber que havia o mar em mim, a partir dos oito anos de idade fui viver na Periferia, nos rincões quase rurais da Zona Norte do início dos anos 70. Esse afastamento do Centro, permitiu me relacionar com as questões climáticas para além do simples incômodo que pudessem provocar o frio ou o calor, a seca ou a estiagem. Na cidade vascularizada por riachos e rios, isso não deveria ser uma preocupação. No entanto, estando esses recursos encobertos por tampões ou cercados por muros e asfalto, sofremos com a escassez de água ou enchentes destruidoras. A chuva e o sol também são nossos aliados. Quando nos mudamos, não tínhamos água encanada. Ainda que possuíssemos um poço artesiano, usávamos a água da chuva para encher as tinas que colocávamos ao sol em cima da laje para esquentar para um banho morno, além de servirem para regar as plantas e lavar o quintal.

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Chuva na Marginal Tietê.

 

Percebíamos a influência das estações nas plantas. Tínhamos várias árvores frutíferas e sabíamos as épocas em que cada uma frutificava. Bananas, brotavam o ano inteiro. Mangas, goiabas e abacates, sazonalmente. Plantávamos milho, feijão e cana. No inverno, a geada no verde dos morros provocava um efeito de riqueza prateada aos primeiros raios de sol inclinado.

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A quem estas mangas querem seduzir?…

 

Sem a interferência de tantas luzes artificiais, no céu noturno, contemplava com reverência a majestosa grandiosidade do corpo alongado da Via Láctea a derramar o seu leite estelar. Durante o dia, as nuvens em céus de todos os tempos me encantavam, com as suas características particularmente volúveis, em formas e combinações. Os jogos de luz e sombra provocados pela dança retilínea do sol e esvoaçante dos corpos fluídicos costumava entreter o meu olhar em manhãs e tardes. Da mesma maneira, hoje deixo-me levar como a uma pipa ao sabor do vento. Crepúsculos e auroras são naturais símbolos de renovação.

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Voo em direção ao ocaso…

 

Desde essa fase, iniciei mais profundamente o meu contato com os bichos, o que estimulou o desenvolvimento da minha empatia com os outros seres, ainda que não humanos. Fui criador de galinhas e patos. Sempre tive muitos cachorros, gatos e até uma porquinha já passeou como um animal de estimação – Priscila. Inteligente e vivaz, não me lembro de seu destino, muito novo que era. Ou procuro não lembrar. Fiquei dez anos sem comer carne…

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Betânia, no andar de cima. Frida, abaixo. Donas do sofá.

 

As pessoas humanas formavam um grupo estranho para mim. Eu me identificava com os seus componentes em alguns aspectos, normalmente quando fugiam do padrão normal. Sempre fui amigo dos mais estranhos. Formávamos um grupo seleto. Estudantes tímidos, gostávamos de futebol, xadrez, dominó e música. Eu, particularmente, de História, Geografia e Literatura. E Cinema. Sonhava filmes. Sonhei Amarcord.

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Somos filhos da Pátria!

 

Das criações humanas – casas, edifícios, templos, máquinas, instrumentos de comunicação, veículos de transporte, móveis, apetrechos, utensílios, roupas e tudo mais – sempre me fascinaram os casulos, grandes e pequenos, que perdurarão ainda algum tempo depois que nós nos formos. São monumentos à nossa arrogância diante da Natureza. Em torno delas, as cidades se reproduzem e se espalham em ruas, avenidas, praças, estádios – tudo o que torna habitável a sua vaidade.

 

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Pátio do Colégio, ponto gerador.

 

Inspirado por minha convivência com São Paulo, seus habitantes e (des)caminhos, participo do grande concerto – vida que segue sem rumo aparente. Não sei como sobrevivi. Quando brincava de Índio e Cowboy, eu sempre preferi ser o Índio…

 

 

6 On 6 / O Que Te Inspira?
Projeto com a participação de Lunna GuedesTatiana KielbermanMariana Gouveia, Obdúlio Nunes Ortega Maria Vitória.

 

A Luz

A LUZ


Em determinada época da minha existência, estava convicto em viver apenas de luz. Ela seria o meu alimento e o meio pelo qual caminharia. Seria um asceta. Estava convicto disso. Convicção é uma graça só concedida aos ignorantes, aos profetas, às crianças, aos inocentes ou aos loucos. Eu ainda apresento algumas convicções. Sem elas, sucumbiria ao relativismo imposto pelo Manual da Isenções de Posicionamentos Pessoais. Preciso manter meus preceitos, ainda que à revelia das modas e das opiniões coletivas consagradas como fatos da vida (até a próxima tendência alterá-los). Sem certezas, me perderia na escuridão, apesar de gostar dela para contrapor à claridade solitária. Porque, ao final de tudo, estamos sós.

Por caminhos que o reconhecemos apenas após percorrê-los, ainda que as indicações sejam claras, acabei por trabalhar fisicamente com a luz. Eu e meu irmão somos sócios em uma pequena empresa de prestação de serviços em sonorização e iluminação para eventos. Por alguns anos, ao ser solicitada a minha profissão no preenchimento de algum documento, assinalava sem estar muito convicto: Iluminador.

Consigo viver de luz, portanto. E som. Participo de festejos, de congraçamentos, de diversão. Sou do circo, não do pão. Mas me alimento dos momentos que se revelam luminosos, principalmente após a terceira dose dos participantes. Os meus possíveis personagens se apresentam. O escritor presta homenagens transversas. Faço uso da palavra que me salva. E me condena. Meu vício e alimento.

Pela palavra, me revelo, me identifico, me abismo. A cada queda, uma revelação. A cada texto, glória e decepção. Disso, se diferenciam dos filhos. Apesar de parecer uma gestação. Em 2017, publiquei um livro – REALidade, pelo selo Scenarium Plural – Livros Artesanais. Eu me senti feliz pela oportunidade de trazer a minha expressão para o velho formato. A palavra cristalizada em letras impressas tem um fascínio estranho. Quase como se fosse a construção de um portal (a)temporal baseado em Física Quântica. A sensação parece ser a mesma. Viajo sempre.

Na passagem de 2017 para 2018, trabalhei na minha função. Realizamos um belo evento. Recebemos como retorno a plena satisfação do público. Após todos se retirarem, restou a nós, responsáveis pelos equipamentos que dão suporte à apresentação dos artistas do canto e da dança, desmontar o “Circo”. Ao final, para “descerrar a cortina”, apaguei as luzes do salão. Foi então que percebi alguns dos copos com as velinhas ainda acesas sobre as mesas. Bruxuleantes, as luzinhas invadiram o meu olhar de sonhador. Me sentindo abençoado, parti dali estranhamente iluminado e iniciei um novo calendário.