Sempre Haverá…

O Sol e as estrelas
Os navios e os barcos à vela
As luas e os planetas 
A quinta dimensão e as quintas
As bruxas e as profetisas
Os mares e as brisas 
As musas e os poetas
As lesmas e as borboletas
Os asseclas e os obreiros
Os pacíficos e os guerreiros
Os práticos e os sonhadores
As flores e as cores
Os insetos e as bactérias
Seres de todas as matérias
Os sapos e as serpentes
A Terra e as sementes
As lembranças e os esquecimentos
As tempestades e os bons ventos
Os prazeres pequenos e os plenos 
As águas boas e os venenos
Os homens e as pedras
As igrejas e as cátedras
As preces e os ditos definitivos
Os remédios e os lenitivos
As dores e as doenças
A morte e a vida e as crenças
Os amantes antigos e os modernos
Os amores súbitos e os eternos
Todo o bem e todo o mal
Sob a abóbada celestial…

https://www.youtube.com/watch?v=UE2YtHhXxJ8&ab_channel=ST.JUDEFILMES

2+ 2 = 5

Tentando equacionar o que não tem solução, há uma canção que diz – “tudo certo, como dois e dois são cinco”. Nesse caso, o erro de aritmética simples vem a explicar muito bem o desencontro amoroso que ocorre com o casal do tema. Vem bem a propósito de como a “matemática romântica” muitas vezes deixa o regramento ordinário dessa ciência para trás…

Sempre cismei que a união entre dois amantes resultaria, na verdade, em três. Ao somar-se um mais um, esses dois formariam um casal, que vem a ser a terceira unidade da equação – algo diferente dos dois indivíduos envolvidos – apesar de resultante deles. Essa unidade assume uma identidade, formada da total integração entre duas pessoas. Algo que em sendo tão raro, uma sensação tão mágica e ímpar, volta a ser buscada outras vezes por quem a experimentou, como se fora um adicto que busca a fissura da primeira dose.

No entanto, a pensar com os meus botões, depois de confabular com quem busca o amor, vim a especular que a conta correta talvez seja cinco, como um dia cantou o Roberto numa composição de Caetano. Porque cada um dos indivíduos representaria, pelo menos, dois papéis no cotidiano, que somados a mais dois, resultariam em quatro. Esses “quatro tipos de ser” formariam, quando totalmente apaixonados, um quinto e uno elemento. Radicalizando, talvez não fossem apenas dois. Muitos de nós seríamos muito mais. Três, quatro, cinco pessoas lutando dentro de nós para se sobressaírem para alcançarem o domínio e exercerem o controle preponderante sobre o corpo e a mente. Por fim, o produto poderia não encontrar jamais uma base de sustentação. Ao final, como resultante, é isso mesmo que acontece. Poucas as vezes vemos as equações chegarem a uma boa resolução…

Então, podemos estabelecer duas vertentes mais óbvias como critério discricionário, sem o qual a conta nunca fecharia. Para simplificar essa questão, estabeleço que seríamos constituídos por duas forças antagônicas, principalmente quanto ao “amor” para a formação de um casal – a fórmula mais simples para a constituição de uma “família”, mesmo por aquelas de mesmo gênero. Essa minha elucubração surgiu depois de ouvir frequentes afirmativas, em sua maioria por parte das mulheres, de que os homens pensam muito mais com a cabeça de baixo do que com a de cima. Como não vejo muita diferença quando ao comportamento atual das mulheres com relação a esse assunto, poderia dizer que muitas delas pensam muito mais com as exigências do púbis do que com a mente, em várias situações. Dessa forma, todos e cada um de nós, homens, mulheres e as outras variações de identidade, seríamos então estimulados pelo amor de desejo e/ou pelo amor de afinidade de outra ordem pelo outro.

É muito comum iniciarmos a busca da união com outro ser pelo estímulo sexual ou paixão, para depois encontrarmos uma outra possível afinidade entre as partes. Muitos de nós, mais racionais, talvez façamos de modo diferente, dando mais ênfase à uma qualidade diversa da pessoa do que às características mais apelativas do ponto de vista físico. Seria a maneira mais consciente de agirmos, o que até poderia resultar em uma grata surpresa, pela afinidade mental também vir a ocorrer na sexual. Ou apenas poderemos nos conformar em termos como companhia uma pessoa pela qual nutrimos uma grande admiração e que dará sustentação à equação vital. Muito provavelmente, do outro lado poderia haver reciprocidade. Por fim, a compensação de um e do outro fator poderá ser levado por muito tempo por ambas às partes. Até não ser mais possível.

Venho a presumir que, em algum momento, com as mudanças inerentes a convivência do casal, com o aumento da pressão que é manter-se seguindo um mesmo padrão de comportamento, que já não corresponderá às demandas de um ou de outro, pode haver o rompimento dos laços ligados à afinidade mental ou à física ou ambos. O que era soma de intenções, resultará em multiplicação de frustrações, divisão de forças e subtração de vitalidade. O melhor a ser feito será se desfazer do problema, zerando a operação.

Passado algum tempo, no entanto, se buscará novamente a resolução da questão da unidade, que sempre continuará a se fazer presente. Mesmo porque, o ser humano tem a tendência em buscar o equilíbrio, mesmo que ele seja apenas aparente ou precário. No mais das vezes, é no desequilíbrio que normalmente vivemos. É no fio da navalha que passaremos a maior parte da nossa existência. É na corda bamba que tentaremos solucionar as eternas equações existenciais nas quais estaremos envolvidos por nosso tempo de vida, tentando resolver operações de fatores mutantes. Por fim, a conta nunca se fechará. Para sermos mais íntegros, sugiro que tentemos conceber viver na configuração dos números fractais, sejam eles geométricos ou aleatórios…

O Amor

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Noite alta. Em um bar, duas pessoas se reencontram depois de uma longa separação. Amigas desde a infância, retomam assuntos interrompidos depois da viagem de uma delas para a Europa, como se não tivessem passado quatro anos. Decidiram cortar a comunicação por quaisquer meios. Antes que desentendimento, foi um acordo consciencioso. É como se não quisessem que a gravidade da amizade-sol interferisse nos relacionamentos com outras pessoas que se iniciavam, então. Temiam que os respectivos companheiros não entendessem o que tinham, um tão presente na vida do outro em união umbilical.

No reencontro, as bocas abriram-se em sorriso espontâneo e aberto. O abraço, demorado e apertado, parecia confirmar todas as expectativas que carregavam. Ou, até um pouco mais. Nunca haviam se separado por tanto tempo.

Após horas de conversa sobre seus percursos sem estarem juntos – idas e vindas de amores, novos amigos e casos cotidianos – afinal um calor parecia aquecer a alma e ousaram versar sobre o amor. O assunto é inesgotável, mas tudo se torna possível após a quinta rodada de caipirinha. Uma delas, provoca e traz à baila um trecho de Sete Pecados -˗ O Governante Supremo*.

– “Ao contrário do que se propagava – que uma imagem valesse por mil palavras – intimamente sabia que uma só palavra poderia equivaler a mil interpretações diferentes. Como evitar que a comunicação não fosse corrompida por pensamentos espúrios quando se escrevesse ou lesse a palavra ‘amor’, por exemplo?”

– Isso é verdade. O amor não é um sentimento específico, determinado e irretocável. A depender do momento que alguém pensa senti-lo – esse algo que o move ˗˗ poderia receber qualquer nome, como “fome”. Digo isso porque normalmente ele parece surgir em horas de penúria física ou mental. Algo que tenta preencher um vazio. Em muitas ocasiões, dizer “eu te amo” é uma mentira cômoda tanto por quem diz como para quem é dito. Tentativa de se manter a homeostase, sem pensar muito em sua profundidade e alcance. Quem sabe pudéssemos propor um primeiro mandamento: “Não dirás ‘eu te amo’ em vão”.

˗˗ Bem, você fala de relacionamentos esparsos, inconsequentes. Pode ocorrer o comodismo mentiroso. Mas, para mim, o amor tende a ser um sentimento tão importante que muitos têm medo de confessá-lo. É precioso – precisa de proteção e sigilo. Amar geralmente é uma ação que demanda esforço e coragem para vivenciá-lo. Para muitos, é muito mais fácil dedicá-lo a um bicho de estimação do que a um ser “pensante”. Os bichos amam a quem os acolhe, os alimenta ou lhes dão carinho. Absolvem seus cuidadores até das ações mais raivosas contra si… se bem que algumas pessoas, também.

˗˗ Para mim, amor, só de mãe. O vínculo físico entre mãe e cria é poderoso o suficiente para perdurar por toda a vida, mas não é relevante para explicá-lo para além dos fatores hormonais. Sei do amor de minha mãe por mim. Ela é meu modelo de mulher. Mas fui reconhecendo isso ao longo da convivência, entende? Não é um sentimento que tem lugar garantido só porque temos um vínculo visceral.

˗˗ Você acha que tentamos reproduzir pela vida afora esse padrão de amor inicial entre mães e filhos? Acha que não haja pessoas que escapam dessa relação edipiana? Eu, por exemplo, nunca tentei encontrar uma mulher parecida com a Dona Edi. Já tive minha dose de desentendimentos para entender que não gostaria de conviver com alguém como ela. Você sabe como eu a amo, mas quero outro modelo de encontro d’almas.

˗˗ Encontro d’almas? Alguns dizem que o amor nasce da relação física ˗˗ confundem paixão com o amor. Outros, que acontece antes ˗˗ uma atração mágica, sem explicação. Há gente que ama amar, mas amor à primeira vista? Acho estranhíssimo. Quantos erros cometemos ao julgar um livro pela capa? Ainda que haja quem prefira viver de erro em erro, repetindo sempre as mesmas ações.

˗˗ Mas será que vivemos em delírio coletivo? Muitos poetas e compositores cantaram o amor desde sempre. Milhões de canções foram feitas e são entoadas com todo o vigor por inúmeras de vozes. Testemunham, em todos recantos do mundo, com toda a potência do ser, sua força imensurável, que move montanhas. Uma energia que nos envolve aquém e além da pele.

˗˗ Acho que o amor é supervalorizado, cantado em verso e prosa. “O medo de amar é o medo ser livre…” – cantou Beto Guedes. Só se for para nos livrar do autocontrole, nos deixando vulneráveis, entregues a alguém que poderá não corresponder. E aí sobrará pouco de nós para contar a história… Nesse caso, o termo “ser comido” torna-se uma imagem perfeita…

˗˗ Quer dizer que você tem medo de amar? Controlar o amor é uma ilusão. Evitá-lo, uma vaidade fátua. Eu prefiro me despedaçar a deixar de viver um amor. Uma completa interação entre os corpos em que o sangue parecerá circular dentro das veias um do outro. Sei o quão é perigoso desvestir-se do ego para deixar “entrar’ outra pessoa em si. A queda no precipício é inevitável, desejável e aliciante. Mais uma rodada, por favor, Ademir!

˗˗ É por essas e por outras que, para evitar que a sociedade implodisse, foram criadas normas de conduta para regular os relacionamentos na vida em sociedade. Já sabemos que isso é impossível. Além de causar muita dor psicológica. Veja a religião, que inicialmente surge para celebrar a força criadora da Natureza, acabou por ser usada para aprisionar o desejo e a paixão em códigos de conduta ˗˗ quase sempre moralistas ao extremo. Isso para os mais simples, porque nas altas esferas essas leis eram solenemente descartadas. Enquanto o pecado abatia-se sobre consciências e corpos, a morte, a danação, o sofrimento eterno como o destino certo para quem ultrapassasse os limites impostos como celestiais. A promessa do bem estar eterno trocado pela abstenção do prazer imediato. E se todos soubessem que todas as relações são eróticas?

˗˗ É, minha cara, por mais que se valorize outros tipos de amor, há um que independe do liame familiar e sexual. É o da amizade fraterna, entre pessoas que comungam da mesma energia e passeiam pela mesma frequência. Nem mesmo o tempo ou a distância os afastam. Pode-se dizer que resistem a tudo. Só aguentei ficar tanto tempo sem lhe falar porque encarei como senda para o meu autoconhecimento. Hoje, sei mais sobre mim do que já soube antes. Eu a sentia, mesmo na distância. De alguma maneira, você me acompanhou durante todo o período de “ausência”. Nossa! Mal consegui erguer os dedos para as aspas…

˗˗ Amigão. temos a mais nobre das conexões. Independente de ganhos materiais e nível socioeconômico, idade ou gênero. Neste país sexista e homofóbico, de formação patriarcal e machista, que isso ocorra entre uma mulher, como eu e um homem, como você, causa desconfiança. Belos relacionamentos são bombardeados pelo preconceito. Mas saiba que já pensei em nós dois como amantes. E somos, de certa maneira. Será que precisamos que os nossos corpos, além dos nossos olhos, corroborem nossa intimidade como tais?

˗˗ Também passei noites insones nos imaginando como amantes. E uma curiosidade surgiu: continuaríamos amigos tão profundos se deixássemos o nosso desejo falar mais alto? Esse terreno é um campo minado, vivemos por um passo em falso. Ah, corremos o risco que o ciúme e o egoísmo, grandes vilões de qualquer amizade ou vínculo amoroso, prevaleça. Eu, pessoalmente, sou daqueles que luta para que isso não venha a interferir. Muitas vezes, sem sucesso. Porém, prefiro você em minha vida, muito mais do que qualquer outra pessoa que não entenda o que temos…

Tocando as mãos sobre a mesa pelas pontas dos dedos, os dois se entreolharam longamente, bêbados, também de amor…

*Sete Pecados é um lançamento da Scenarium Plural – Livros Artesanais

BEDA / Scenarium / O Vírus Do Amor

Vírus

Moravam no mesmo andar do antigo edifício. Velhos conhecidos por olhares, pouco se falavam. Os jovens, filhos do interior, vieram para São Paulo para estudar. A instauração da Quarentena foi apenas mais um capítulo na marcha de acontecimentos. A súbita decisão governamental pelo isolamento social os encontrou hesitantes entre ficarem ou retornarem às suas famílias. A capital apresentava o maior número de casos e, receosos que pudessem eventualmente infectar pais e avós, decidiram ficar. Tudo isso foi tema da primeira conversa mais longa que tiveram, a voz meio difusa pelo uso das máscaras. Iniciada no elevador, continuou no corredor junto às portas de seus apartamentos, com a distância protocolar.

Surgiu uma conexão imediata entre os dois desgarrados. Estabeleceram o hábito de conversarem postados nas respectivas varandas, em entardeceres ultrajantes de tão belos, espraiados em céus outonais-vanillasky. Certa noite, madrugada silente, ele a ouviu chorar. Tiago chamou por Ana. Não obteve resposta. Bateu na porta da vizinha. Ao abri-la, se derramou em seus olhos avermelhados e inchados. Indo contra os protocolos, dispensadas as palavras, se abraçaram. As bocas se procuraram. As línguas caladas-eloquentes trocaram saliva e sorveram prazer. Desobedientes civis, mergulharam sem máscaras no desejo um do outro. O amor a iluminar a noite, virulento. Sentiram-se eternos.

Revezavam os leitos, alastrando ambos os apartamentos do fogo da paixão e da alegria da entrega. Camas e lençóis, contaminados de seus joviais fluídos, refletiam as primeiras luzes da manhã em composições cada vez mais inauditas de corpos entrelaçados. Apesar do sofrimento coletivo, os dois quase abençoavam a quarentena que os uniu. Planos para o futuro naturalmente surgiam em meio a longas conversas e beijos amiúde. Ainda assim, omitiram das respectivas famílias o encontro proibido. Esperariam tudo passar para que não ficassem aflitos com os jovens amantes. Por isso, os pais de ambos receberam com surpresa a notícia da internação dos filhos como sendo um casal de namorados com insuficiência respiratória.

Os jovens não apresentavam tosse. A febre confundia-se com o calor que geravam na sofreguidão do amor. O mal estar se instalou quase ao mesmo tempo. Preocupados um com o outro, procuraram os postos de saúde. Lotados. Devido ao fato de serem jovens, foram dispensados. Voltaram para casa, cansados e ofegantes. Quando pioraram, pediram ajuda ao porteiro que chamou a ambulância. Permaneceram intubados por alguns dias e vieram a óbito com um intervalo pequeno entre as partidas. Entre tantas mortes, a história dos estudantes apaixonados passou despercebida, a não ser entre os habitantes das pequenas cidades de onde vieram.

O País, enlutado, ainda teria que passar por outras tragédias – resultantes de uma doença incubada dois anos antes.

BEDA / Pescador

PESCADOR

Estou junto ao mar, na praia, em veraneio. Estou retirado do resto da família, a terminar o projeto do meu livro de crônicas¹ que deverá ser lançado pela Scenarium, em março². Cheguei cedo, antes do aumento do movimento prometido para este sábado de sol. À beira d’água, pescadores amadores ainda posicionam as suas varas antes da maior afluência de banhistas.

Pouco a pouco, a areia vem a ser ocupada por coloridos guarda-sóis e brancas tendas, erguidas por turistas de tez coloridas, constituídas por vários tons de branco (como o branco-escritório, por exemplo) e outras colorações.

À minha frente, um alegre grupo de senhoras jovens há mais tempo fazem uma inaudita algazarra. Parecem meninas a sacanear umas às outras o tempo todo. “Olha o salva-vidas! Que lindo! Vem me salvar meu bem! Quero respiração boca a boca!” – Todas riem…

Um pouco mais à direita, duas pequenas gêmeas, de presumíveis três anos de idade, reagem quase ao mesmo tempo e do mesmo modo aos mesmos estímulos. Ao ouvirem as músicas que vem do palco onde se apresentam instrutores de dança, fazem a coreografia em simetria. Gritam em uníssono ao verem os super-heróis: “Olha o Batman! O Homem-de-Ferro! O Homem-Aranha!” – Não sei se perceberam que não são os originais, muito diferentes em tamanhos e formas físicas daqueles. Também devem achar perfeitamente natural que estejam a vender algodão-doce. À passagem de um Batman mais parrudo, as senhoras festeiras pedem para tirar fotos com o “defensor da justiça”. Ele não vende o seu produto, mas ganha cachê por isso.

Vejo passar mais vendedores ambulantes, a pé e com carrinhos; catadores de latas de alumínios e outros a percorrerem as mesmas trilhas desenhadas por pequenos tridentes – marcas das patinhas das centenas de pombas que recolhem restos alimentares. Eu já desconfiava, mas fiz um teste. Joguei perto de mim um pequeno pedaço de maçã, justamente a parte central, que contém as sementes. O pedacinho de fruta foi ignorada solenemente por todas as pombas que se aproximaram do petisco. Tanto quanto os humanos, elas parecem preferir junk food.

Vez ou outra, passam acima da linha d’água aviões com propagandas em longas faixas. Não deixei de me perguntar se esse era o sonho do garoto que um dia queria ser aviador a se cumprir – realizar viagens de trajetos tão curtos quanto repetitivos, em uma rotina de voar em rumo certo.

A intervalos regulares, vou para a água, ao encontro às ondas, íntimo do mar, a brincar com aquele elemento. Às vezes, deito de bruços no raso, a esperar as ondas chegarem, como fazia quando tinha a idade de várias outras crianças que fazem o mesmo que eu, ao meu redor. Chego a perder a noção do tempo…

Na volta do meu penúltimo mergulho, antes do momento que escrevo esta crônica, não encontrei o meu guarda-sol e minha cadeira sob ele. Fui até a tenda-móvel do Paulo, onde tenho comprado as águas de coco e sucos que tomo eventualmente. O Arles me indicou um ponto à frente dele, para onde deslocaram o meu acampamento. Um grupo bem grande quis aportar junto a uns amigos e, dada a intimidade adquirida durante a semana que estou por aqui, trocaram a minha posição de lugar. Acostumado com situações estranhas causadas pela miopia e pelo alheamento em diversas situações, brinquei com o pessoal que quase não estranhei que não estava onde deveria estar. Estou acostumado a me sentir deslocado.

Por sorte, antes do meu translado, pude capturar mais um peixe. Quando me estirei na cadeira, com os óculos escuros no rosto, pude acalmar os meus sentidos e, excepcionalmente senti diminuir o volume da massa sonora que me açoitava por todos os lados. Atrás de mim, já havia visto um casal de namorados, quase a encostar os pés na minha sombra. Conversavam em um tom baixo, mas os meus ouvidos puderam ouvir o que diziam. Eles eram amantes (vim a saber), casados com outras pessoas. Eles me entregaram uma história quase pronta – Os Outros. Escrevi uma variação que não entrega ninguém. Ou, por outra, pode vir a entregar muitos amantes…
¹https-scenariumlivrosartesanais-wordpress-com-2017-03-10-realidade
²Escrita em Janeiro de 2017