Nós

ao revê-la tanto tempo passado
imensas distâncias espaciais
sem respirarmos
os mesmos ares e hálitos
o fogo quase esquecido
em ardência reacendido
as peles a queimarem próximas
pelo olhar
corpos que seguiram em devaneio
para o futuro presente apaixonado
o reencontro que confirmou
que somos viciados em nós
são liames amarras nós
que nos aprisionam em tramas
a vida como ela é dramas
beijos que prescindem da voz
abraços que nos invertem nos reinventam
toques que contam existências inteiras
histórias longas demais tanto quanto curtas são
entradas e saídas que se confundem
dimensões que se perpetuam
entremeadas umas às outras
energia consumida e realimentada
em átimos de segundo
recriação de universos paralelos
feito cristais estilhaçados belos
retemperados desesperados
porque nunca descansa o vício visgo
que nos matará feito moscas
presas na armadilha luminosa do amor.

Foto por cottonbro em Pexels.com

O Sonho

Quando chegou à academia, se dirigiu à esteira que costumava se exercitar. Ao lado, um rapaz já corria em outra.  Entreolharam-se e rapidamente começaram a conversar sobre amenidades, entre sorrisos. Em pouco tempo, perceberam que compartilhavam coisas em comum… ainda que sobre assuntos absolutamente frívolos. No entanto, ela pensou na mesma hora: “Devo estar ficando louca! Ele é lindo, perfeito para mim e, o mais importante, sonha o mesmo sonho que eu!”…

Naquele mesmo dia, quando saíam da academia, ele se aproximou e lhe deu um beijo. Sem reação, ela se rendeu. Sem dúvida, aquilo confirmou para ela que o sentimento entre ambos era recíproco.  O rapaz a convidou para jantar em seu próprio restaurante. Aceito o convite, levou a melhor amiga consigo imaginando que lhe servisse como testemunha e apoio. Afinal, tudo era muito repentino. Na entrada do estabelecimento, a recepcionista a levou para a mesa pronta preparada com detalhes que a deixou completamente encantada.

Mesmo já tendo passado por vários relacionamentos, a moça mantinha uma ingenuidade que atraía o rapaz. Terminado o jantar, ambos concordaram que havia sido tudo “maravilhoso”, palavra pronunciada quase em uníssono, com brilho nos olhos de ambos. Ele pediu licença para a sua amiga e conduziu a namorada para a cozinha. Pediu atenção aos cozinheiros e auxiliares e anunciou em voz alta: “Gente, quero apresentar a vocês a minha futura esposa!”.

Durante um ano inteiro, a moça recebeu confirmações que realmente havia encontrado uma pessoa que correspondia a todos os seus sonhos. No enunciado do casamento, escreveu: “A vida nos uniu e pediu para vivermos intensamente este amor. Agora estamos compartilhando com vocês o nosso maior sonho – a nossa união! Acreditamos que nossa história já estava escrita e contamos com todos os nossos amigos para testemunhá-la!“

Meses depois, a moça sonhadora foi encontrada morta. Ao seu lado, o gato que amava guardava o seu corpo com as patas sujas de sangue. A suspeita recaiu imediatamente sobre o marido, que compareceu à delegacia para prestar depoimento. Houve rumores de que a esposa havia o surpreendido com a sua melhor amiga na própria cama. Irada, foi em direção ao sujeito, o confrontando. Raivoso, ele a empurrou contra um móvel do quarto, batendo com o crânio numa quina, a atingindo na região occipital. Enquanto perdia a consciência, parecia estar despertando de um sonho…

Foto por Mathias Reding em Pexels.com

Visão Espelhada

Há muitas maneiras da realidade se revelar. No mínimo, devemos sempre contemplar pelo menos duas visões – a nossa e a do outro lado do espelho. A cada situação que se coloca como dilema ou dúvida, exercito a dualidade que se apresenta e costumo exercer essa prática mesmo em questões aparentemente simples e menos sérias.

Uma das oportunidades em que me senti provocado ocorreu quando em um vídeo, um homem diz para o cachorrinho: “eu tenho uma notícia prá te dar: você é cachorro, você não é gente” – após o que a fisionomia do companheiro denotaria surpresa. Postado no grupo da família, escrevi que “se souberem que nós somos gente e não cachorros, seria capaz de deixarem de nos amar…”.

Refletindo sobre isso, não acho que esses seres especiais considerem diferenças entre as nossas espécies como fundamentais. Aliás, movidos por sentimentos irreprimíveis de afeição, “sabem” que pertencemos ao mesmo grupo, sem nenhuma distinção. O elo que nos une é o amor demonstrado sempre que possível, mantido por fidelidade “canina”, apesar de nossas falhas.

A base de sustentação da frase dita pelo tutor parte da ideia de que ser gente teria uma importância superior à de ser um cão. A depender de certas premissas, isso é bastante discutível. Por mim, a surpresa do cachorro poderia se dar mais pelo fato dele fazer menção a uma circunstância que sequer deveria entrar no contexto. Ao amarmos um ser, o desejo é o de nos comunicarmos com ele, que o compreendamos e nos façamos ser compreendidos.

A comunicação pelo olhar em muitos casos é mais evidente do que por palavras e suas devidas gradações de tons. Assim como a linguagem gestual igualmente pertence ao rico diálogo entre nós. Essa relação só nos aprimora como seres humanos. As lições que nos dão são muito mais efetivas do que as impostas como mandamentos.

Antes desse episódio, em conversa com a Tânia, que reclamou do cheiro da Bethânia que insistia dormir em nossa cama, rebati que eles não se importam com o nosso cheiro, apesar de muitas vezes não nos parecerem tão bons para nós mesmos. Ao contrário, sentem falta de nosso “perfume” por ser uma das formas mais poderosas para nos identificar.

A partir daí, procurei não fazer tanta conta dos odores emitidos pelos cães, ainda que alguns não me agradasse eventualmente. A Bethânia tem um cheiro específico que mesmo após o banho, perdura. É famoso o odor de salgadinho de suas patinhas. Nós nos perfumamos com olores que não nos pertencem desde séculos antes, mesmo em grupos mais primários. Ainda assim, os cachorros conseguem diferenciar o nosso cheiro por trás de nossas manobras para despistá-los e nos amam ao sermos apenas nós mesmos.

Eu me sentiria bem triste se um companheiro canino me dissesse: “ei, tenho uma notícia para lhe darvocê não sabe amar como um cachorro!”.

A Flor

o médico intrigado
diante da imagem da ressonância
dá ares de magnética importância
quem sabe estudo científico?
revela que surgira uma flor
na superfície do meu coração
entre ventrículo e átrio esquerdos
perguntei um tumor?
não
era mesmo uma flor
margarida lírio rosa ou jasmim
uma orquídea
ou maria-sem-vergonha talvez?
uma vitória-régia a boiar
no rio da minha caixa torácica?
não sou especialista
em pétalas abertas em órgãos vitais
vamos retirá-la decretou
por  que? perguntei
retorquiu
meu caro
pode ser a primeira de muitas
logo o seu coração ficará florido
seu peito tomado
de perfume e cor
um verdadeiro jardim
chegariam vespas abelhas
beija-flores outros pássaros
quero vê-lo curado
respondi doutor deixe florir
não tenho tremor
febre ou dor
sei o que aconteceu 
sol a raiar dia que nascia
daqueles clichês para se apaixonar
eu a vi pela janela de minh’alma
pela primeira vez
senti meu coração bater em fulgor
natural que medrasse em flor
antes isso do que ódio rancor
carregado de medo temor
de vingança revanche vazio
de sangue e paixão
entre viver gris
prefiro morrer feliz
escolho fertilizar amor 
e regar
e amar…

Foto por Asmau2019u Yusuf em Pexels.com

O Avião

Nesta cidade de pedra,
não tenho pássaros
ou borboletas a usar
como referências…

O mais certo
é que faça o meu coração
se assemelhar a um avião…

Que viaja por vontades,
carregado de paixão,
o amor por combustível…

Sente-se protegido
quando se vê diante
de nuvens carregadas,
apruma o nariz
e vai
no sentido da turbulência
que o fará vibrar…

Nunca se percebe tão vivo
e pleno, plana
após ultrapassar a tormenta
de amar, sabendo que o pouso
é sempre doloroso…