Tenho por amor, a Tristeza. Eu A amo com a certeza dos amores impossíveis, daqueles épicos, inéditos, inauditos, malditos…
A minha Amada me livra da Ilusão de que o Eterno exista, de que a Vida persista para sempre, para além… Do Bem a vencer o Mal…
Eu A recebo em minha cama, faço amor com a rigidez do membro espasmódico a ejacular dores adormecidas e despertadas das minhas entranhas… Estranhas testemunhas da minha entrega sem Esperança…
Sim… agora eu sei que acabou… Tentamos, mas já não dói tão gostosamente… A ferida cicatrizou… Quis voltar a ser aquele que a amou (não que eu não a ame ainda), apenas sei que aquele amor já não me pertence mais… Sei que o meu egoísmo pôs tudo a perder…. Sei que ficarei a penar a eterna saudade de mim em você…
Aquele Eu que a amava daquela maneira, sentia-se confiante, sentia-se amoroso, sentia-se confidente, sentia-se poderoso, sentia-se como se o mundo lhe pertencesse… E o seu (meu) mundo era você…
Eu, aquele, sentia-se expandir para fora dele até abarcar toda a Vida e a Natureza… Deus supremo, ciente de seu poder, esqueceu-se da fonte que irradiava tamanha grandeza… Ele, Eu, aquele, esqueceu de você em si…
Então, algo se perdeu… Eu me perdi… Perdi você… Quando se afastou, vociferei, a tratei como uma rés que ferrei, propriedade minha, que não se compartilha… Que preferia ver morrer à mingua, de fome e de sede…
Preferi feri-la com a minha língua… a mesma língua que antes vivia a esquadrinhar a sua pele inteira… A ultrajá-la com a mesma boca que a beijava e lhe repetia palavras de amor… E aquele Eu mal entendia que o verdadeiro ato de possuir é um movimento de doação… Que eu antepunha a exauri-la com a minha paixão…
Talvez, um dia, eu a reencontre em mim… Porém sei que você não será mais a mesma, tanto quanto sei que não serei decerto aquele que então se sentiu total, que não se permitia saber que tanto amor, sem entrega e reciprocidade, torna-se pura masturbação, velada veleidade a causar imenso mal.
Teve uma forte sensação de vertigem, como se um vale inteiro se abrisse diante de si e ficasse à beira de um precipício, apenas seguro pelas pontas dos pés. Quando a viu pela primeira vez a reconheceu como se sempre a esperasse. Não era somente bonita, mas igualmente intensa e radiante a sua presença. Ele a seguiu com os olhos e percebeu que algo deteve os seus passos, porque ela se voltou em direção aos seus olhos. Ficou estática, se bem que parecesse evoluir em volteios pelo ar e começou a sorrir um sorriso de reconhecimento. Sim! Ali estava a pessoa a qual pertenceria a partir daquele instante em diante, como se antes já soubesse que assim seria. Ela se apartou de seu grupo e ele ficou onde estava, já que cairia se fosse em frente. Logo, estavam juntos. Ele, seguro ao segurar a sua mão, caminhou acima do vale que atravessava a alma. Não duvidou de mais nada, como se o mundo finalmente fizesse sentido. Apenas não compreendia como conseguira respirar até então sem a presença de sua amada. Finalmente, compreendeu que a vida e a morte são irrelevantes fronteiras da existência. Tudo era, apenas e tão somente, amor.
Eu sou maricas! Faço questão de ser, principalmente quando alguém, como o capitão que foi expulso do Exército com desonra, associa o termo a algo ruim. Fui buscar no Dicionário o que significava “maricas”, palavra dita no plural, mesmo que o nomeado seja apenas um homem. Sim, porque necessariamente é relacionado a alguém do sexo masculino que tem um comportamento efeminado. É uma palavra restrita aos contextos informais (ou deveria ser), com sentido pejorativo em todas as suas acepções. Efeminado é usado para menosprezar o sujeito, como se ao revelar toques femininos em sua postura denotasse uma doença moral pelo código da canalhice.
“Maricas” acrescenta em sua descrição: “repleto de covardia e medo; covarde”. Isso contraria tudo o que conheço sobre minha mãe e a grandíssima maioria das mulheres. Tenho certeza que a minha melhor parte herdei de uma mulher: Dona Madalena, minha mãe. As mulheres são a parte forte da sociedade e, certamente, da Biologia. Corajosas como nenhum homem, são responsáveis pela procriação. Socialmente, é muito comum se sentirem sozinhas logo após o parto. Ainda que tenham a ajuda dos machos da espécie, normalmente é delegada elas o cuidado da cria — alimentação, higiene, saúde, aquecimento e carinho. Com honrosas exceções, cada vez maiores, os homens pouco participam desse período inicial, muito importante na formação da pessoa que resultará no desenvolvimento do novo ser.
Múltiplas, quando casadas, além de trabalharem fora de casa para ajudarem no orçamento familiar, as tarefas domésticas igualmente recaem sobre os ombros das companheiras como se fosse preceito irremovível na Tábua da Lei. Comportamento herdado do sistema patriarcal, os homens covardemente se isentam nessas ocasiões. Nas empresas, temerosos de perderem para as mulheres os melhores cargos, continuamente sabotam seus desempenhos e se utilizam do machismo para ganharem mais, ainda que elas exerçam as mesmas funções. Unidos nessas ocasiões, impõem um grande atraso nas relações sociais e empresariais que findam por impedir um melhor desenvolvimento econômico e social para todos nós, como povo e País.
Contanto tivesse o Sr. Ortega durante muito tempo como modelo, algo comum numa relação entre pai e filho, com o passar do tempo fui percebendo o quanto incorporava o seu comportamento machista, incluindo a reprodução de frases que rebaixavam o valor da minha mãe. O amor dela por mim, finalmente me fez ver com clareza que a concepção (surgimento) do macho escroto se dá desde cedo. Por sorte ou natureza pessoal, escapei de objetivar as mulheres como seres de méritos intrinsecamente ligados ao corpo. Sempre as tive como especiais, encantadoras e naturalmente superiores. O que não deixa de ser uma supervalorização, talvez até condescendente. Porém, quando comecei a atravessar a barreira do contato mais íntimo, percebi que são seres complexos, bons ou maus em seus cernes, muitas vezes melhores em muitos aspectos quando querem ser uns ou outros, mas continuamente atraentes para quem não tem medo de encontrar uma inimiga espetacular ou apreciar uma amiga sensacional.
Como nunca me ative a estereótipos e gostava de ajudar a minha mãe em quase tudo nas tarefas caseiras, pude perceber que não há trabalho mais pesado do que manter uma casa funcional e em ordem. Gosto de cozinhar, lavar a louça, limpar a casa, cuidar do jardim e dos bichos. Eu me encanto com a beleza das flores e faço vozinhas diferentes para falar com os peludos. Dona Madalena me estimulou a gostar de ler, de cantar, a dar valor às coisas belas. Ela me recitava poemas, o que me incentivou a escrever. Ela me tornou uma pessoa melhor e um homem melhor. Ou seja, um maricas, com toda a honra!
*Texto de novembro de 2020, quando a quem chamo de Ignominioso proferiu mais uma das declarações demeritórias ao cargo que ocupa, chamando a quem enfrenta a Pandemia de Covid-19 atendendo aos protocolos sanitários — uso de máscaras, distanciamento social — de maricas.
Por uma última vez, peço mais uma primeira vez voltar ao centro do mundo… Ainda que o nosso mundo se restrinja ao quarto de um quarto de um quarto de uma casa sem paredes, no canto de nossas mentes, para onde fugimos no último quarto de um eterno minuto…
Quero você, ainda que neurastênica, irritada e irritante, misofônica e barulhenta, inconstante e desesperada por amor sem pudor, que tento recusar por temor de me perder de mim para sempre.
Mas que adianta me preservar, se sem você sou menos do que um logro que se esconde sob a fama de louco? Por que me recusar a amar profundamente se o pouco que me resta é menos do que um pouco?
Temos outros em nossas vidas, mas a história de cada um de nós dois não importa se nela não tiver nós dois… Quero uma última primeira vez… Quero que me dê e se dê, que se doe a quem se doará por inteiro ainda que doa, porque doerá. Sei que não sobreviverei, mas antes morrer de amor, que é melhor do que morrer — é viver por um instante que seja o que importa viver…