Projeto Fotográfico 6 On 6 / Pets

Termos um Pet significa que entregamos nossa dedicação e amor a um ser que, virtualmente, deverá viver menos do que nós. É um exercício de coragem, entrega e fortaleza. O termo “Pet” se popularizou no Brasil, a designar preferencialmente aos animais de estimação — cachorros, gatos, pássaros, roedores, répteis, peixes, ofídios , etc. O significado, em inglês seria o de animal ou, mais extensivamente, de animal favorito. Que “meus” cães e pássaros não me ouçam, mas não há como dizer que todos sejam favoritos. Ouso dizer que, como filhos ou netos, há um mais querido do que outro. Não direi quem seja o meu nem sob tortura.

Bethânia

A Bethânia é minha companheira do entardecer. Com ela, tenho passado os crepúsculos, quando eu observo o Sol se por e, ela, a fiscalizar o movimento da rua, enxerida que só, a latir para cada pessoa que passa. Chata! Seu ciúme já a fez merecer um capítulo em meu livro de crônicas — REALidade.

Dominic & Domitila

A Domitila é mãe da Dominic, mas cresceram separadas. Quando teve a sua única gestação, distribuímos os filhotes da Domitila e conosco ficou a Frida, de saudosa memória. A Dominic ficou com a minha irmã, minha vizinha. Quando a Frida ascendeu, sua irmã veio para o nosso lado. De início seu comportamento arredio foi se modificando e hoje é uma carinhosa companheira de todos os momentos, sempre procurando a presença humana.

Bambino

Bambino é meu neto, filho da Ingrid. Ele foi recolhido de um abrigo no interior que sofria ataques de uma onça. Sobrevivente, veio para a casa da família, a qual visita ocasionalmente. Atualmente, fica com a minha filha no apartamento onde mora, sendo tratado como um “Princeso“, seu apelido, paparicado por todos que vivem ou frequentam a “Prainha“.

Lolla Maria

Conosco há cinco anos, a Lolla, minha outra neta, filha da Lívia, é voraz e preguiçosa. De idade indefinida, já que foi resgatada como todas as outras, tirante a Dominic, a mocinha gosta de banana, mamão, abacaxi, mexerica e laranja, além da ração que lhe damos. Supomos que não seja tão nova. Surgiu uma mancha no olho direito, tinha maminhas intumescidas quando a recolhemos, sinal indireto de que tenha gestado. Tem a linguinha mais rápida da Zona Norte e rouba beijos de quem estiver desatento…

Arya

A guerreira Arya é a cachorra mais cremosa que existe. É tão fofa que todas querem agarrá-la e apertá-la. Apenas temos que tomar cuidado para não machucá-la, já que sente dores em virtude da Cinomose que foi detectada ainda cedo. O tratamento é constante e tem dado suporte a sobrevivência com qualidade, apesar dos sintomas progressivos. Entrou por nosso portão adentro e conquistou a todos quase imediatamente. Espero que fique conosco muito tempo ainda, enquanto tiver forças.

Dulce / Elton John & Kardashians

A Dulce tem cerca de doze anos, já. Com as patinhas um pouco atrofiadas, com o peitinho depenado, a recebemos para substituir outra calopsita da Romy. Ela teve dois companheiros. Um deles voou para “nunca mais” e o outro faleceu. É uma companheirinha ainda cheia de vida. Os ganizés Elton John e as Kardashians — Kim, Kendall e Kyllie — chegaram recentemente. Era um desejo antigo da Tânia e para receber essa turma, montamos um bom galinheiro no Yellow Brick Road Garden — meu projeto para esta Pandemia de Covid-19. A Kim, uma mistura com galinha normal, bota ovos azuis. Com essa criação estou revivendo meus tempos de granjeiro de duas décadas de vida.

Mariana Gouveia – Lunna Guedes 

Uma Mulher

Até o outro dia, eu vivia em minha cidade
Quem caminhava por aquelas calçadas
Tinha oito, dez, doze anos de idade
Sonhava cantar entre bocas caladas

Queria ser ginasta olímpica ou acrobata
Seria bailarina, atriz, cantora e modelo
Corria, saltando por sobre o muro do meu castelo
Princesa que eu era, moleca, brincava de pirata

Corria de carros e de touros, de gansos e de moços
Até que cresci e o perigo começou a me atrair
Descobri o poder que tinha de conquistar sem esforços
Lançava olhares ao redor, possuía e tinha vontade de partir

E parti em busca de sentimentos profundos e do mundo
Vivi amores, senti dores, provoquei desmoronamentos
Alcancei o céu e chafurdei no lodo imundo
Fui considerada excelente e fomentei lamentos

Eternamente apaixonada e quase sempre apaixonante
Capturei vítimas e me vitimei, fui muito amada e muito amei
Na curva da rua a menina que fui não mais ouviu o vento sussurrante
Deixou de subir em árvores e de ouvir respostas que clamou

Envelheci ao encontrar o meu amor definitivo?
Ao sentir que pertenço a alguém, deixei de sonhar?
O meu corpo, compartilhado, se sentirá permanentemente cativo?
Por que, em vez de certezas, agora só tenho o que perguntar?

A Rainha Louca

A loucura não era pouca.
Ele,
tomado de amor,
vibrava em jatos.
Ela,
gemente de paixão,
terminava em prantos…

Dos lençóis revolvidos,
surgiam unidos
em corpo, suor e sangue.
As almas,
abandonando a ambos,
esvaíam-se pelos poros…

Os fluídos,
em escambos,
formavam um rio de odores
doces
e cruas dores…

Quando se despediam,
era como se fosse o último
encontro.
É como se acabasse
o mundo.
Como se fechassem os portais
do tempo.
Como se cessassem a contagem
das idades.
Como se inaugurasse o Templo
da Saudade…

Até o próximo
quarto de Lua.
Até se abrir a porta
do próximo quarto.
Até a entrega
do próximo beijo.
Até a consumação
do imenso desejo.
Até que ele se entregasse
em exaustão à rinha,
até que ela incorporasse
a Louca Rainha…

Almas Gêmeas

Eu não acredito em alma gêmea. Ou melhor, não acredito que a nossa vida deva se fundamentar na busca de alguém com a qual venhamos a se identificar a tal ponto que nos dê prazer apenas por ser igual a nós. Considero que isso seja uma espécie de masturbação. Eu acredito no crescimento mútuo das pessoas pelo embate de ideias, pela diversidade de sentimentos, pela diferença de posturas, pelo confronto de mundos. Eu acredito tanto nisso que me permito ser o outro, vez ou outra. Cada vez mais… Chamaria isso de compaixão – quando nos colocamos completamente na situação que o outro ser está vivendo. Essa viagem para outro é perigosa, conquanto não tenhamos certeza total de quem sejamos (se é que a temos alguma vez). Enfim, essa transitoriedade deve ser buscada com cuidado para que não nos percamos no caminho.

Em uma brincadeira interna da Scenarium Plural, chamam de “Eu Lírico” o empreendimento de ser outros. Eu, meio que cainho de paraquedas, sugeri que seria igualmente um “Eu Rico”. Graças a essa a personalidade lírica, podemos cometer pecados, dentro da escrita, buscar experiências, fazer quase uma peregrinação extracorpórea para construir histórias nas quais viajamos. Assim é quando escrevo. É comum eu me colocar no lugar de alguém que permite se apaixonar na caça de outra pessoa com a qual se identifique.

Passo por altos e baixos em minha própria auto avaliação, mas creio que tenha um ponto fulcral, uma linha mestra que me conduz que me permita dizer: “esse sou eu”. E esse ser não consentiria ferir quem quer que fosse ao buscar aventuras para, um dia, se comprazer em se encontrar, ele mesmo, em outra pessoa. No entanto, aceito igualmente a possibilidade de que o indivíduo acredite que isso seja possível e tente empreender esse encontro. Eu me vigio em minha prisão ética, mas não quero deitar normas para o amor. Liberdade para os amores!

Sou Palavra Difícil

O meu amor gosta de Bukowski
e eu amo Augusto dos Anjos.
Se Augusto dos Anjos tivesse sido influenciado por Bukowski,
talvez não tivesse existido o poeta como o conheço.
O preto,
se se conformasse em se ater ao seu destino proclamado —
marginal, apesar de ser maioria,
palavra difícil de ser decifrada
em meio a vocábulos fáceis de serem compreendidos,
não chegaria a mim — menino da periferia —
que me encantava com a palavra complexa que feria.

Se abraçasse o enunciado do americano —
bêbado que vomitava durezas de descrente,
leoninamente egoico,
dogmaticamente estoico,
adepto da simplicidade de expressão —
não seria grande além do tempo, o paraibano.
Dos Anjos era palavra quase inacessível.
Fosse fiel às prisões do imediato e do lugar,
se filiaria a obviedade e ao possível.

O americano, necessário, porém perplexo,
o paraibano, imprescindível, contudo sem aparente nexo,
não se confrontam em meu coração, que eu sinta.
Um, eu leio e deixo minha rebeldia extemporânea satisfeita.
Outro, eu leio a mim e me encontro incompleto,
a tentar alcançar lonjuras.
O ébrio, ainda que espalhafatoso, morreu velho.
O professor que era poeta, morreu aos 30.
Não se encontraram a não ser diante dos meus olhos —
os versos de um embriagam e me deixam de porre,
os do outro suplantam meu corpo e dilaceram minh’alma.
Bukowski, brincava com o perigo de existir.
Dos Anjos, fazia de companhia a morte
que não o enlutava, mas celebrava.

Bukowski, foi ele.
Dos Anjos, sou Eu.
Enquanto que o egoísta não quis mostrar a ninguém
o pássaro azul no peito,
o centrado revelou a “frialdade inorgânica da terra”.
Enquanto um soltou crônicas de amor louco
em ereções, ejaculações e exibicionismos,
sendo incensado;
o outro, incompreendido em seu tempo,
renegou a religião como resposta e proclamou
que ninguém doma o coração de um poeta —
sendo amaldiçoado.

Sou palavra difícil.
É compreensível que não possa ser entendido.
Mas acho triste não ser lido ou ouvido
por quem diz me amar.
Começo a duvidar da minha expressão.
Não deveria me derramar?
Deveria ser prosaico ou antes, calado?
Ao me revelar, deverei ser contido?
Deverei reverberar a palavra fácil, complacente?
Erradicar a minha fala de estranha vertente?
Ser Bukowski e seguir a inóspita franqueza?
Ou ser Dos Anjos e violentar meu cotidiano
dos termos óbvios e tiranos?
A única simplicidade a qual me rendo
é dizer que a amo e disso não me arrependo…