BEDA / Scenarium / Reconciliação

RECONCILIAÇÃO

Naquele dia, acordei muito triste. Já pensava em como aquele sentimento poderia me ser útil na conversa sobre a última briga que tivemos. Isso e também dois pequenos cortes em minha perna causados pelos estilhaços provocados pelo copo jogado em minha direção que se espatifou no piso, após uma altercação com ela e minhas duas filhas.

Tudo começou quando eu admoestei a mais nova por não ser previdente ao planejar com antecedência os seus interesses, deixando para a última hora assuntos que, no final das contas, eu me sentia na obrigação de resolver. Quando percebi que teria que usar o tempo livre de que dispunha, já escasso, para me dedicar àqueles pequenos problemas, comecei a ficar irritado, o que fez com que a minha voz saísse embalada por tons cada vez mais aumentados a cada frase.

Passei a vociferar contra a imprevidência da caçula, quando a mais velha começou a defender a irmã. Era uma situação em que eu usava uma força desmedida para a pouca gravidade do motivo. Mas jogar o copo de suco em minha direção talvez não dissesse respeito apenas àquela briga. Alguma outra coisa mais parecia estar por trás daquele ataque da minha mulher.

De alguma forma, aquela ação poderia ser usada para tornar a minha retórica mais emocional quando a confrontasse – ela me atacou naquele dia tão “importante”. A tensão começou antes, quando já havia discutido igualmente com a caçula, pelo desdém que demonstrara ao ter que comparecer à cerimônia de minha premiação. Nas duas ocasiões, devo ter me aproximado um pouco mais do sentimento que assomava a meu pai quando, em vez de estar salvando o mundo do Capitalismo, ele era forçado a fazer frente às pequenas necessidades de seus filhos, sempre tão solicitantes. A diferença entre mim e ele, é que por mais que esperneasse, eu sempre estaria presente.

Tanto minha mulher quanto eu não conseguíamos ficar tanto tempo sem sexo e por mais que quisesse puni-la com a minha abstinência, bastava que ela apresentasse uma atitude mais receptiva para que eu me deixasse levar por meus impulsos Eu já lera em algum lugar que temos uma cota de autocontrole que podemos suportar. Em algum momento, falhamos em manter uma disciplina férrea sobre todos os aspectos da vida. Além disso, deixando de fazer sexo, punia a mim mesmo.

Foi o que aconteceu no dia do quebra-pau. Contava que o sono e o cansaço me vencesse antes que acontecesse qualquer coisa. O sono não veio e como ela reclamou do frio, apesar das três cobertas que usava, me aproximei de seu corpo por trás, para aquecê-la. Costumeiramente, deitávamos nus. Dentro de instantes, o meu desejo começou a se manifestar. Contra a minha vontade, a lubricidade comandou meu pênis. Mais um pouco, pus-me a cutucá-la por trás, que iniciou um leve movimento de aceitação. Levantei-me, fechei a porta do quarto à chave e impetuoso, arranquei as cobertas e puxei para a beira da cama. Eu a pus apoiada sobre os joelhos-mãos e, sem preliminares, a invadi encontrando um percurso intensamente lubrificado. Alguns minutos depois, em movimentos cada vez mais frenéticos, irrompi em um gozo-fluxo estupendo e surpreendente. Deitada de bruços sobre a cama, o meu corpo sobre o seu, percebi que começou a chorar baixinho até cair em francas lágrimas. Enquanto eu, egoísta e vaidoso, pensava em como fora perfeito – ejaculei na hora certa e havia demonstrado uma perfeita sincronia de tempo e impulsividade.

– O que foi, querida?

– Eu não gosto de brigar com você! Não gosto quando você maltrata a mim e às meninas… Quando fica irritado por coisas tão pequenas, sinto que algo o incomoda, que você não está satisfeito com o nosso casamento e família. Que falta alguma coisa para que você seja feliz…

Com certeza, havia um problema. Como alguém que não acredita na felicidade pode ser feliz? Não, naquelas condições, aprisionado ao corpo que tinha, ao tempo que vivia, com os compromissos que aceitei cumprir, preso à armadilha a não ser eu mesmo, a falsear a minha conduta…

Completou:

– Eu não gostaria de me sentir tão presa a você, tão dependente…

Com a convicção de quem exprimia a verdade daquele momento, a interrompi:

– Eu te amo, querida!

– Eu também te amo! – respondeu.

Como eu gostaria de acreditar nela…

Sem dizer mais nada, seu choro definhou até cessar em um forte ressonar. Adormeceu. Deitados de lado, lambuzados e colados um ao outro, a acompanhei para a escuridão sem sentidos…

 

Beda Scenarium

BEDA / Separação

dry rose flower next to broken heart shaped cookie

Eu me separei…
Deixei casa – paredes, nas quais lembranças pendiam paralisadas…
Portas, por onde muitas vezes passei com desejo de amar e que,
em tantas outras ocasiões, tive urgência de sair,
com vontade de nunca mais voltar…
Janelas, pelas quais divisei paisagens, movimentos, sol, chuva, vento –
protegido das intempéries e dos olhares alheios…
Naquela casa me sentia acolhido ou albergado,
a depender dos olhares, dos humores, dos tons e frissons…

Eu me separei…
Deixei aqueles braços que acolhiam e afastavam,
que imperavam e hesitavam,
que mentiam avidez enquanto aceitavam as minhas obrigações…
Amor ainda existe, ainda nos queremos, queremos amar…
Porém, não quero que, de legado delicado,
tudo se transforme em prisão, a vermos nossas pernas atreladas a grilhões…

Eu me separei…
Mas sei que nunca serei independente do que recebi como patrimônio –
memória de paixão, cumplicidade, comunhão, vivência de amorosa divisão…
Ao perceber que o nosso amor está ameaçado de ser auto fagocitado,
não posso permitir que a incapacidade de ser menos para ser mais
devaste a nossa união…
Amor, por amor, hoje me separei…

 

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Sofá Com Pimenta*

SOFÁ COM PIMENTA
Bethânia, a inocente

Qual o limite do amor? Ou, como prefiro expressar – o limite de amar? Uma das fronteiras que facilmente podemos averiguar ultrapassadas se dá visualmente em nosso sofá. Um sofá com pimenta… e rasgos.

Dado o fato que as “meninas” da casa, especialmente a Bethânia, começaram a morder os cantos do sofá, passamos a colocar pimenta para evitar que continuasse a rasgá-los. Pelo visto, Bethânia entendeu o condimento como se fosse um incentivo, porque outras partes do sofá começaram a ser devidamente abocanhados.

Quando a pegávamos no ato da transgressão, a admoestávamos, dávamos tapinhas de contrariedade, mas parece que a memória dela era menor do que a vontade imensa de deixar as suas marcas em um local tão frequentado por nós, seus humanos, com os nossos cheiros.

Afora os pelos deixados pela mais velha, Penélope, com 13 anos, que tem o privilégio de dormir dentro de casa apesar dessa tosquia involuntária, dos xixis esparsos, nós nos desdobramos para deixar a casa menos bagunçada e limpa. Em outros tempos, principalmente para a Tânia, seria motivo de desespero apenas a ideia de um pelinho no chão.

Podemos estar, aos olhos externos, menos asseados, mas creio que ganhamos em registro de fragrantes fulgurantes do amor. Por fim, apesar da precariedade e do desequilíbrio de conceitos, podemos ver crescer a apreciação que amar também é aceitação dos defeitos e das fraquezas de quem está conosco, humanos ou não.

*Desde esse texto de 2017, a degradação do sofá progrediu a ponto de não ser mais possível recuperá-lo. Não apenas esse, o maior, como os outros dois, individuais. Tivemos que comprar outros para substituí-los. Usados. Os atuais estão resistindo bravamente, muito devido ao fato de a Bethânia ter ficado mais velha e mudado o seu comportamento.

Beda Scenarium

O Preço da Saudade

O Preço da Saudade

Um dia depois de retornarmos de viagem, no Natal do ano passado, fui limpar o piso do quintal dos resíduos habituais: poeira, cocô dos peludos, seus pelos, folhas, ramos, muitas mangas – inteiras ou chupadas. Quem não viu um cão chupando manga, se sentirá decepcionado, principalmente se for um que se deixa levar por preconceitos. Talvez pinte até certa inveja ao perceber o quanto é hábil no mister de deixá-la limpa até o caroço.

Em uma das casinhas, encontrei um dos meus sapatos devidamente “customizado” por algum dos cães, dos quatro que ficaram em casa – Bambino, Domitila, Dominic e Arya. Lolla ficou com a “avó” e Bethânia foi conosco. Além do sofrimento normal de ser apegada a nós, ela fica transtornada com os fogos que insistem em espocar em uma data que deveria ser de silêncio e reflexão – utopia minha.

O par de sapatos foram deixados em uma mureta para serem limpos na cobertura onde fica a lavanderia. Encontrados, foram usados para brincar, acalmar os nervos e, eventualmente, mitigar a saudade. Por eliminação, suponho que tenha sido um dos mais novos – Arya ou Bambino – eles têm folha corrida de antecedentes. Domitila não tem esse costume e a preferência da Dominic é roer panos e cobertores. Ela chega a retirá-los todos das casinhas e roê-los com gosto até ser advertida. Porém, não é o caso de encontrarmos um “culpado”.

Todas as vezes que nos ausentamos por mais tempo, temos que montar uma rede de assistência para que os bichos sintam o menos possível a nossa ausência. Nesta oportunidade, foi o meu irmão, Humberto, que os alimentou e cuidou para que tivessem atenção e a presença humana. Na noite de Natal, pedi para que deixasse a porta da sala aberta para que se sentissem mais abrigados e confortáveis. Bambino, que tem histórico de refugiado, segundo o Humberto, tremia inteiro a cada rojão estourado. Domitila também sofreu bastante. Em jogos de futebol, é comum ela associar o som do locutor a gritar “goool” a fogos explodido e começar a arranhar a porta para entrar.

Nós, da parte humana da família, nos sentimos responsáveis pelo bem-estar dos nossos cães. Qualquer afastamento tem que ser programado e ponderado de modo que não inflija tanto desgaste. É o preço a se pagar ao nos tornarmos cuidadores desses seres inigualáveis. Quanto ao valor do sapato, por maior que seja o prejuízo material ou o dinheiro gasto, será amplamente compensado pelos ensinamentos que nos proporcionam de fidelidade, para além das demonstrações de amor e carinho.

Amor E Aparência

Amor & Aparência

Eles se conheceram no Segundo Grau. Ela, esguia e alta, praticava esportes. Chamava a atenção por seus olhos claros. Ele, rechonchudo e cabeludo, usava óculos. Preferia se dedicar aos estudos e era bom em Português.

Calhou dela precisar de um reforço na conjugação dos verbos, na identificação das sílabas tônicas e dos complementos nominais e dele ser um cara bonachão que gostava de ajudar… Desde então, a dupla inseparável se formou. Nos três anos que estiveram juntos, compartilharam vários interesses e desenvolveram uma sólida amizade permeada de estudos, festas e confidências.

Ela lhe falava dos colegas com os quais ficava e do assédio constante que sofria. Quase maldizia ser tão bonita, enquanto que ele… sabia ouvir… Não era incomum dele enxugar as lágrimas da moça com a mesma manga de camisa que enxugava as suas, bem mais tarde, na calada da noite.

Apesar de estarem sempre juntos, nunca passou pela cabeça de ninguém que os dois pudessem ter um envolvimento romântico. Igualmente não passava pela cabeça dele que ela o quisesse como namorado. Isso o deixava confortável diante dela, ainda que tivesse se apaixonado desde que a vira pela primeira vez. À vista de todos, era um casal improvável, formado pela garota mais popular e o nerd esquisito.

As coisas começaram a ficar estranhas nos últimos seis meses da relação. Frequentemente, ficavam encabulados ao se olharem longamente um para o outro, a se perderem. Entravam em um mundo onde o jogo de aparências não exercia uma força tão poderosa quanto no que viviam – de amigas maldosas e colegas ressentidos-debochados. Nesses momentos de solidão compartilhada, conseguiam escapar ao doloroso-venenoso efeito dos pequenos grupos sociais.

Logo após a formatura, os pais da moça decidiram se mudar para outro Estado, onde buscariam maior tranquilidade e novas oportunidades de trabalho. Esse fato acabou por afastar os dois apenas fisicamente. Nos três anos seguintes, apesar de não se verem, passaram a se corresponder por cartas manuscritas. Ele sempre fora avesso às redes sociais e ela, depois que mudou, decidiu também abolir essa ferramenta de comunicação. Aparentemente, as cartas, que inicialmente serviriam somente como exercícios para a melhoria no uso da Língua, de uma forma incrível, fez crescer a integração entre os dois.

Depois de dois anos, ela começou a insistir para que ele a visitasse e conhecesse as paisagens pelas quais se apaixonara, onde agora vivia. Ele objetava. Dizia estar envolvido em um projeto pessoal importante, para além dos estudos na faculdade de filosofia e letras, que não poderia revelar na ocasião. Ao mesmo tempo, ela dizia que também tinha novidades a lhe revelar, mas que faria apenas pessoalmente. Apesar da crescente expectativa, somente após mais um ano, finalmente se reencontrariam, nas férias de verão.

No dia da viagem, o rapaz mal conseguia permanecer sentado em sua poltrona no avião. Ela, em terra, desde a manhã, chorou algumas vezes. No horário programado, se deslocou ao aeroporto com o coração a pulsar fortemente. Ela sabia que a decisão que tomou poderia impactar na relação. À espera de seu amigo, ficou impaciente ao ver que quase todos haviam passado e não o localizara… Até que um rapaz parado já há alguns minutos se aproximou dela e a chamou pelo nome. Ao prestar maior atenção, custou a crer que ali estava quem esperava. Diante de si, estava um jovem forte e bem apessoado. Sem os habituais óculos, os seus olhos ficaram maiores e se sentiu quase ser engolida por eles.

Quase ao mesmo tempo, disseram: “Você mudou!”… – Depois de um momento, ecoaram: “Mudei por você!”… Ele, com muito sacrifício, havia feito dieta, começou a desenvolver um programa de atividade física e aprumou a aparência. Ela, aproveitando o afastamento de seus conhecidos diretos, decidiu relaxar e deixar de ser tão obsessiva no controle alimentar. Engordou para ficar com a aparência semelhante a dele. Apesar da correspondência constante, nunca mencionaram se gostavam um do outro apesar ou por causa das características físicas que carregavam…

Passado o instante do primeiro impacto visual, ao se aproximarem, olharam dentro dos olhos um do outro, como faziam no passado. Imediatamente, se reconheceram em si mesmos, tocaram os lábios delicadamente como nunca fizeram e, abraçados, saíram rumo ao mundo novo do amor que se descortinava, para além das aparências…