
Um Menino




Moravam no mesmo andar do antigo edifício. Velhos conhecidos por olhares, pouco se falavam. Os jovens, filhos do interior, vieram para São Paulo para estudar. A instauração da Quarentena foi apenas mais um capítulo na marcha de acontecimentos. A súbita decisão governamental pelo isolamento social os encontrou hesitantes entre ficarem ou retornarem às suas famílias. A capital apresentava o maior número de casos e, receosos que pudessem eventualmente infectar pais e avós, decidiram ficar. Tudo isso foi tema da primeira conversa mais longa que tiveram, a voz meio difusa pelo uso das máscaras. Iniciada no elevador, continuou no corredor junto às portas de seus apartamentos, com a distância protocolar.
Surgiu uma conexão imediata entre os dois desgarrados. Estabeleceram o hábito de conversarem postados nas respectivas varandas, em entardeceres ultrajantes de tão belos, espraiados em céus outonais-vanilla–sky. Certa noite, madrugada silente, ele a ouviu chorar. Tiago chamou por Ana. Não obteve resposta. Bateu na porta da vizinha. Ao abri-la, se derramou em seus olhos avermelhados e inchados. Indo contra os protocolos, dispensadas as palavras, se abraçaram. As bocas se procuraram. As línguas caladas-eloquentes trocaram saliva e sorveram prazer. Desobedientes civis, mergulharam sem máscaras no desejo um do outro. O amor a iluminar a noite, virulento. Sentiram-se eternos.
Revezavam os leitos, alastrando ambos os apartamentos do fogo da paixão e da alegria da entrega. Camas e lençóis, contaminados de seus joviais fluídos, refletiam as primeiras luzes da manhã em composições cada vez mais inauditas de corpos entrelaçados. Apesar do sofrimento coletivo, os dois quase abençoavam a quarentena que os uniu. Planos para o futuro naturalmente surgiam em meio a longas conversas e beijos amiúde. Ainda assim, omitiram das respectivas famílias o encontro proibido. Esperariam tudo passar para que não ficassem aflitos com os jovens amantes. Por isso, os pais de ambos receberam com surpresa a notícia da internação dos filhos como sendo um casal de namorados com insuficiência respiratória.
Os jovens não apresentavam tosse. A febre confundia-se com o calor que geravam na sofreguidão do amor. O mal estar se instalou quase ao mesmo tempo. Preocupados um com o outro, procuraram os postos de saúde. Lotados. Devido ao fato de serem jovens, foram dispensados. Voltaram para casa, cansados e ofegantes. Quando pioraram, pediram ajuda ao porteiro que chamou a ambulância. Permaneceram intubados por alguns dias e vieram a óbito com um intervalo pequeno entre as partidas. Entre tantas mortes, a história dos estudantes apaixonados passou despercebida, a não ser entre os habitantes das pequenas cidades de onde vieram.
O País, enlutado, ainda teria que passar por outras tragédias – resultantes de uma doença incubada dois anos antes.

Em Quarentena, estando isolado na casa da praia, não tenho horários específicos para as refeições. Quase dez horas da noite, decido fazer pizza. Saio, compro os ingredientes necessários e, ao revirar o armário em busca da fôrma, encontro a máquina do tempo, ainda que incompleta, sem as presilhas. Nela, produzo uma boa pizza de atum e cebola com molho de tomate.
A minha mãe adorava novidades em apetrechos para o lar. Logo que foi lançada, Dona Madalena adquiriu uma fôrma que poderia assar pizzas utilizando as bocas do fogão. Economizava o uso do forno, em tempos de escassez, além ser mais prática e rápida. O segredo era saber dosar o volume do fogo para que não queimasse. E foi através daquele utensílio que voltei para mais de quarenta anos antes no tempo.
Vários instrumentos caseiros usados em décadas anteriores vieram para a casa da praia. Volta e meia, me deparo com pratos, xícaras, louças, copos e talheres antigos, além de vários outras coisas-mecanismos que me fazem voltar ao passado. Quase imediatamente, despontam visões da minha mãe a manipulá-los, como se fossem videoaulas de utilidades domésticas.
A pizza ficou boa. Sei fazê-las – as pizzas – assim como outras comidinhas, de maneira que minhas filhas voltam sempre a pedi-las. Nunca busquei aprender anotando ou medindo dosagens de ingredientes. Simplesmente comecei a reproduzi-las quase magicamente. Feijão, arroz, sopas, misturas variadas e outros componentes de refeições ou lanches se materializam concluídas e saborosas. O segredo – eu era ajudante de cozinha de minha mãe. Acho que, ainda que não estivesse atento, a repetição cotidiana foi apreendida de algum modo.
Talvez seja isso ou mamãe se apossa de minhas mãos e por elas revive o prazer de cozinhar para aqueles que ama. O ingrediente secreto, porém, é evidente – aquele que torna os alimentos mais simples em experiências tão saborosamente dolorosas, na verdade, uma junção rica de saudade e amor.

A pena da Quarentena a terminar…
A moça, romântica,
daquelas de novela de TV,
depois do isolamento,
sem lamento,
procura pelo amor que crê
ser o ideal –
deleitoso, íntegro, leal…
Ainda que este pareça ser o momento errado.
Pela semântica do olhar,
imagina que com ele cruzará
pelas calçadas que caminhar.
É otimista, mas idealista –
mais que beleza, quer integridade –
descarta a quem dela se aproximar
desmascarado…