Projeto Fotográfico 6 On 6 / As Minhas Manhãs

As manhãs normalmente demarcam o início dos dias para a maioria dos seres. Os meus dias tanto poderão começar à tarde ou à noite, como terminarem quando quase todos estão a despertar. Nessas manhãs indeterminadas, posso estar a dormir após uma longa jornada de trabalho, como estar em trânsito para mais um evento madrugador ou, ainda, a voltar de um. Isso, quando não costuro os pés de um dia nas orelhas de outro, a constituir um existir anómalo.

Fechado em casulos, a minha atividade muitas vezes não me permite ver o sol ou a chuva, sentir o calor ou o frio vindo do exterior. Passageiro transitório das horas, vivo sob o foco de luzes artificiais. Justamente eu, que ama a Natureza e que admira a demonstração de sua energia criadora.

Quando em casa, invariavelmente, leio ou escrevo, faxino ou cozinho – atividades caseiras que estranhamente me inspiram ideias para os meus textos. Se for fazer algo fora, transito por ônibus ou trens de Metrô por Sampa. Como não dirijo, por carro, sou apenas um carona. As seis fotos a seguir, tentam localizar visualmente minhas manhãs mais comuns…


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Janelas para o Largo de São Bento, na Rua Florência de Abreu.

Quando estou de folga, tento aproveitar o dia desde cedo. Uma das coisas que mais gosto de fazer é caminhar pela cidade. Eu simplesmente me “perco em lembranças” de uma época que não vivi. Como um arqueólogo de uma civilização ainda viva, apesar de mostrar as veias abertas de sua transformação, percorro suas ruas sendo um com a cidade – moribunda em uma das suas faces, enquanto se reconstrói em outra.


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Serra do Mar

Quando faço eventos em outras cidades, muitas vezes, tenho que me deslocar mais cedo para chegar ao destino a tempo de montar o “circo”. Como carona, tenho a possibilidade de ter contato visual mais cuidadoso com as paisagens que se sucedem. Rios, serras, florestas, campos, e horizontes – luzes transformadas em vida.


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Espaço deslizante…

Eu sou passageiro (quem, não é?) e nos coletivos a paisagem também é humana. Fico entretido a observar pessoas que comungam o mesmo espaço deslizante pelos asfaltos da metrópole. Antes do advento das redes sociais, os passageiros se mostravam mais interessantes. Ouvia diálogos inusitados sobre todos os tipos de situações e casos. Garimpava hábitos e rostos diferentes. Episódios cada vez mais raros, quando duas ou mais pessoas se reúnem em uma conversa, lá estou…


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Limpar a mente…

Uma das coisas que mais gosto de fazer são as tarefas caseiras. Nesses exercícios quase mecânicos, consigo me abstrair de preocupações para me ater às ocupações. Varrer o quintal, então, é um deleite. Os movimentos contínuos, a buscar restos, juntá-los, para desobstruir os caminhos, limpar a mente. Em meu quintal, por exemplo, consigo conjugar essa ação com os ciclos naturais das árvores frutíferas aqui de casa. Através disso, nascimento, crescimento, frutificação, amadurecimento, morte e renascimento se descortinam diante de mim.


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A beleza pode ser enganadora…

Todas as terças, é dia de feira livre aqui na minha região. Eu aprendi com a minha mãe, desde menino, escolher e adquirir frutas, legumes e hortaliças, além de outros produtos. Consigo perceber a qualidade de acordo com alguns indicativos fáceis de serem observados. Porém, outros beiram a pura intuição. É comum a beleza ser enganadora com relação ao sabor. Consistência tem muito mais valor.


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O meu dia só começa quando tomo o primeiro gole de café.

As minhas manhãs começam, não importa a hora, quando me sirvo de café. O seu gosto me remete à infância. À família que lutava com dificuldades para manter-se unida e funcional. Às manhãs que se iniciavam às 4h30, em plena madrugada, para irmos para a escola longínqua. À minha mãe, que me “cafeinou” com mamadeiras com leite para que eu conseguisse despertar. Seja qual seja a hora, o meu dia só começa com cheiro e o sabor do primeiro gole de café.

Participam também deste projeto:

Mariana Gouveia  — o outro lado
Maria Vitória  — estranhamente
Lunna Guedes  — Catarina voltou a escrever

Eu Odeio Você!

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O Observador

Ela olhou diretamente nos meus olhos e vociferou, boca encrespada: “Eu odeio você!”.

De suas pupilas faiscantes, dardos de desprezo me despedaçaram em tiras.

Não sei como me sustentei sobre as pernas. Cheguei a ouvir uma vozinha dentro de mim, que dizia: “Fique em pé. Se cair agora, ela o desprezará ainda mais…”.

Calei e afastei o meu corpo desabitado de mim. Uma típica reação de autodefesa do sistema vegetativo autônomo. Emocionalmente, estava morto.

Sabia que ela estava fora de si. A medicação que tomava estava afetando o seu nível de consciência, a ponto de ver em mim, o inimigo.

Outras ocorrências mais graves vieram a se precipitar, logo depois. Decidimos que deveríamos cessar a administração das drogas que, em vez de ajudarem, tornavam as condições de seu estado mental bem mais precárias. Com isso, aos poucos, o seu humor melhorou e, aparentemente, ela retornou a ser a pessoa amorosa que sempre demonstrou ser.

Sobre esse e outros acontecimentos à época, nunca chegamos a conversar. Carrego a curiosidade meio mórbida em saber se aquele ódio tenha transbordado de tal modo que ainda perdure em reminiscências. Eu, jamais esqueci… Ao me ver diante dessa possibilidade, me acovardo…

Ressuscitado mais uma vez, já não era o mesmo. Aquele outro – o Observador – que apenas me acompanhava do lado de fora da trama, passou a assumir cada vez mais a minha identidade. Na posição de ator principal, quase sempre atua  o coadjuvante…

Projeto Fotográfico 6 On 6 / O Que Me Inspira

Vivo que estou, tudo me inspira. Do amor à violência, tudo o que se manifesta como expressão humana me deita raízes e razões – a escrita como artifício e meio. No entanto, há temas que fico a respirar recorrentemente. Enquanto não consigo lhe revelar alguns dos mistérios – o que nem sempre o torna menos enigmático – volto a ele várias e várias vezes.

Os fenômenos naturais sempre me atraíram muito. Menino da cidade, antes de saber que havia o mar em mim, a partir dos oito anos de idade fui viver na Periferia, nos rincões quase rurais da Zona Norte do início dos anos 70. Esse afastamento do Centro, permitiu me relacionar com as questões climáticas para além do simples incômodo que pudessem provocar o frio ou o calor, a seca ou a estiagem. Na cidade vascularizada por riachos e rios, isso não deveria ser uma preocupação. No entanto, estando esses recursos encobertos por tampões ou cercados por muros e asfalto, sofremos com a escassez de água ou enchentes destruidoras. A chuva e o sol também são nossos aliados. Quando nos mudamos, não tínhamos água encanada. Ainda que possuíssemos um poço artesiano, usávamos a água da chuva para encher as tinas que colocávamos ao sol em cima da laje para esquentar para um banho morno, além de servirem para regar as plantas e lavar o quintal.

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Chuva na Marginal Tietê.

 

Percebíamos a influência das estações nas plantas. Tínhamos várias árvores frutíferas e sabíamos as épocas em que cada uma frutificava. Bananas, brotavam o ano inteiro. Mangas, goiabas e abacates, sazonalmente. Plantávamos milho, feijão e cana. No inverno, a geada no verde dos morros provocava um efeito de riqueza prateada aos primeiros raios de sol inclinado.

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A quem estas mangas querem seduzir?…

 

Sem a interferência de tantas luzes artificiais, no céu noturno, contemplava com reverência a majestosa grandiosidade do corpo alongado da Via Láctea a derramar o seu leite estelar. Durante o dia, as nuvens em céus de todos os tempos me encantavam, com as suas características particularmente volúveis, em formas e combinações. Os jogos de luz e sombra provocados pela dança retilínea do sol e esvoaçante dos corpos fluídicos costumava entreter o meu olhar em manhãs e tardes. Da mesma maneira, hoje deixo-me levar como a uma pipa ao sabor do vento. Crepúsculos e auroras são naturais símbolos de renovação.

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Voo em direção ao ocaso…

 

Desde essa fase, iniciei mais profundamente o meu contato com os bichos, o que estimulou o desenvolvimento da minha empatia com os outros seres, ainda que não humanos. Fui criador de galinhas e patos. Sempre tive muitos cachorros, gatos e até uma porquinha já passeou como um animal de estimação – Priscila. Inteligente e vivaz, não me lembro de seu destino, muito novo que era. Ou procuro não lembrar. Fiquei dez anos sem comer carne…

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Betânia, no andar de cima. Frida, abaixo. Donas do sofá.

 

As pessoas humanas formavam um grupo estranho para mim. Eu me identificava com os seus componentes em alguns aspectos, normalmente quando fugiam do padrão normal. Sempre fui amigo dos mais estranhos. Formávamos um grupo seleto. Estudantes tímidos, gostávamos de futebol, xadrez, dominó e música. Eu, particularmente, de História, Geografia e Literatura. E Cinema. Sonhava filmes. Sonhei Amarcord.

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Somos filhos da Pátria!

 

Das criações humanas – casas, edifícios, templos, máquinas, instrumentos de comunicação, veículos de transporte, móveis, apetrechos, utensílios, roupas e tudo mais – sempre me fascinaram os casulos, grandes e pequenos, que perdurarão ainda algum tempo depois que nós nos formos. São monumentos à nossa arrogância diante da Natureza. Em torno delas, as cidades se reproduzem e se espalham em ruas, avenidas, praças, estádios – tudo o que torna habitável a sua vaidade.

 

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Pátio do Colégio, ponto gerador.

 

Inspirado por minha convivência com São Paulo, seus habitantes e (des)caminhos, participo do grande concerto – vida que segue sem rumo aparente. Não sei como sobrevivi. Quando brincava de Índio e Cowboy, eu sempre preferi ser o Índio…

 

 

6 On 6 / O Que Te Inspira?
Projeto com a participação de Lunna GuedesTatiana KielbermanMariana Gouveia, Obdúlio Nunes Ortega Maria Vitória.

 

A Luz

A LUZ


Em determinada época da minha existência, estava convicto em viver apenas de luz. Ela seria o meu alimento e o meio pelo qual caminharia. Seria um asceta. Estava convicto disso. Convicção é uma graça só concedida aos ignorantes, aos profetas, às crianças, aos inocentes ou aos loucos. Eu ainda apresento algumas convicções. Sem elas, sucumbiria ao relativismo imposto pelo Manual da Isenções de Posicionamentos Pessoais. Preciso manter meus preceitos, ainda que à revelia das modas e das opiniões coletivas consagradas como fatos da vida (até a próxima tendência alterá-los). Sem certezas, me perderia na escuridão, apesar de gostar dela para contrapor à claridade solitária. Porque, ao final de tudo, estamos sós.

Por caminhos que o reconhecemos apenas após percorrê-los, ainda que as indicações sejam claras, acabei por trabalhar fisicamente com a luz. Eu e meu irmão somos sócios em uma pequena empresa de prestação de serviços em sonorização e iluminação para eventos. Por alguns anos, ao ser solicitada a minha profissão no preenchimento de algum documento, assinalava sem estar muito convicto: Iluminador.

Consigo viver de luz, portanto. E som. Participo de festejos, de congraçamentos, de diversão. Sou do circo, não do pão. Mas me alimento dos momentos que se revelam luminosos, principalmente após a terceira dose dos participantes. Os meus possíveis personagens se apresentam. O escritor presta homenagens transversas. Faço uso da palavra que me salva. E me condena. Meu vício e alimento.

Pela palavra, me revelo, me identifico, me abismo. A cada queda, uma revelação. A cada texto, glória e decepção. Disso, se diferenciam dos filhos. Apesar de parecer uma gestação. Em 2017, publiquei um livro – REALidade, pelo selo Scenarium Plural – Livros Artesanais. Eu me senti feliz pela oportunidade de trazer a minha expressão para o velho formato. A palavra cristalizada em letras impressas tem um fascínio estranho. Quase como se fosse a construção de um portal (a)temporal baseado em Física Quântica. A sensação parece ser a mesma. Viajo sempre.

Na passagem de 2017 para 2018, trabalhei na minha função. Realizamos um belo evento. Recebemos como retorno a plena satisfação do público. Após todos se retirarem, restou a nós, responsáveis pelos equipamentos que dão suporte à apresentação dos artistas do canto e da dança, desmontar o “Circo”. Ao final, para “descerrar a cortina”, apaguei as luzes do salão. Foi então que percebi alguns dos copos com as velinhas ainda acesas sobre as mesas. Bruxuleantes, as luzinhas invadiram o meu olhar de sonhador. Me sentindo abençoado, parti dali estranhamente iluminado e iniciei um novo calendário.

A Urna

Foto por Obdulio Nuñes Ortega


 

Final de ano. Fiquei a remexer o depósito de bugigangas que se acumularam – caixas com livros, quadros antigos e outras coisas que não sabemos porquê guardamos. Um dos itens: uma urna. Não uma urna qualquer, mas aquela onde, um dia, foram depositadas as cinzas mortuárias de minha mãe em fevereiro de 2010. Eu me lembro da minha contrariedade ao ser deixado de lado por meus irmãos por ocasião da dispersão de suas cinzas junto ao pé de romã que crescia no jardim do quintal da casa onde morávamos. O corpo de Dona Madalena – dedo verde em vida – transformado em pó, não ajudou a plantinha a prosperar. Secou e foi arrancada.

Restou-me a urna. Simples caixa marrom envernizada. Lembro de me surpreender pelo pouco tamanho e preço exagerado do objeto de insólito destino: conter um corpo de consistência mutante, representado essencialmente por salitre e ferro, da mulher que me gerou. O valor simbólico deve ter sido um motivo forte suficiente para encerrá-la no canto de um móvel. Não conseguia distinguir qual fosse. Memorabilia de cunho soturno, deveria dispensá-la. Prefiro lembrá-la de sua energia, viva.

Porém, por não ter uma razão substancial para guardá-la, da mesma forma argumento intimamente que não tenho para jogá-la fora… Ao considerar essa uma desculpa viável, talvez isso denuncie certo apego a algo de simbolismo discutível. A decisão de minha mãe em ser cremada demonstraria o seu desapego ao corpo. Em vida, gostava de acumular coisas, guardar objetos, roupas de seus filhos pequenos, móveis, fotos, joias e bijuterias. Boa parte dessa coleção, para seu íntimo desespero, ficou disperso e se perdeu no período mais grave da enfermidade que a vitimou.

Não me considero materialista, mas sei que minha mãe me acompanha física e mentalmente. Uma assombração genética talvez me conduza, a fazer com que mantenha ao alcance da mão referências físicas de passagens do tempo que o antigo estudante de História poderia considerar objetos de culto, mas que o senhor que me tornei (ou que eu proclamo ser) contesta com veemência, pelo menos oficialmente. No entanto, estou a perceber que estou cada vez menos interessado em explicar as minhas contradições. E mais convencido em vivenciá-las. Arqueólogo de mim mesmo, o quanto conseguirei escavar para chegar ao que sou, só o tempo dirá…