BEDA / Salivando

a invernar
debaixo das cobertas salivamos
você cavalga as minhas coxas enervadas de músculos
quase goza em delírio
nossa última refeição uma maçã com nossa saliva
alimenta nosso desejo em parte
mas queremos praticar a nossa arte
de amar nossas bocas ativas unidos
línguas que falam todas as línguas
e exprime grunhidos
de prazer e entrega
nossa busca cega em descobertas
quando nossos sexos se encontram
entradas e saídas em coreografia incessante
cada vez mais acelerada caminhos sem interdição
corpos em constante ação
quem nos julga são aqueles que não aceitam
os nossos pecados porque não são os deles
são vítimas do desamor do horror
de não se amarem uns aos outros
e
infelizmente
não
são
poucos…

Foto por Moussa Idrissi em Pexels.com

15 / 11 / 2025 / Blogvember / As Aparências Desenganam

e desenganados estamos de tudo o que nos define a semelhança
o que parecemos não somos apenas nos engana
a sensibilidade
refletimos a nossa ausência
no momento que pensamos estar presentes
somos sempre passado nunca o instante
caminhamos fazendo poses paramos
fazemos caras e bocas
estabelecemos nosso território de nulidade
como se estivéssemos fazendo publicidade
nos tornamos o que cremos ser mas sem prova de que sejamos nós
em interminável galeria
representados por apenas uma fotografia
ao final de tudo somos apenas pós…

Participação: Lunna Guedes

Foto por Tasha Kamrowski em Pexels.com

#Blogvember / Morte Saborosa

— minha língua sente o teu sabor e a sensação de fome se amplia (Mariana Gouveia)

Foto por mododeolhar em Pexels.com

calor infernal
gotejo de graça
lambuzo de suor a quem toco
sinto sede e minha língua sente o seu sabor
e a sensação de fome se amplia
desejo de bocas e becos
o ventilador do teto
espalha o ar quente pelo quarto
enquanto nossos corpos se incendeiam
como queimadas na amazônia
texturas próximas horas quebradas
entradas fendidas exploradas
líquidos se vaporizam se esvaem
para lençóis e peles
pelos unidos em tranças emaranhadas
línguas se digladiam para encontrar
a vencedora na peleja que terminará
em morte saborosa momentânea
até que o desejo volte avançar
sobre a secura do mundo inundado
de nosso amor…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

Amor Cego

quando a toquei
cego pelo amor
desvelei os véus
da percepção humana
para além do sentido
barato e velado da visão

ultrapassei a pele
alcancei a alma
meu corpo se tornou todo potência
energia sem identidade
dor orgástica-holística prazer 
perfeita desorganização
do sentido do sentir

unidos a roçar
terminações nervosas hipersensibilizadas
drogados pelo cheiro gosto  
escuridão clarividente
paixão eterna profunda
muito mais que amor
perene platitude

consubstanciado em línguas
dedos mamas bundas genitálias
bocas mordeduras arranhões
impressões digitais
impermanentes renovadas
toques estoques vibrações

invasão de novos territórios
para além da vida penetrações
atraídos por buracos negros
onde se consomem
fótons fantasias
glúons gulosos
quarks aquartelados
neutrinos sanguíneos
constelações galáxias inteiras

suor golfo úmido rocio
em pelos vaporizados
resfolegar arpejos
brotar plena consciência
corpo epiderme campo fértil
da breve morte bem-vinda
big crunch em um último beijo
no tempo que não existe mais…

BEDA / Portais

Portais

Na penumbra do quarto,
enxergo o seu corpo com as minhas mãos
e a minha língua…
Deito minha pele a cobrir a sua,
peito com peito,
plexo com plexo,
pernas entrelaçadas,
braços a abraçarem,
bocas a dizerem tanto – sons indefinidos –
recital em alfabetos primitivos,
guturais…
Ao erguer a minha cabeça,
à minha esquerda, o antigo rádio-relógio
mostra quatro números idênticos – 11:11 –
abertura de portais…
Pela passagem,
a penetro,
me entrego,
vou e volto e vejo
passarem figuras que me visitam,
talvez
múltiplos de mim,
gama de energias…
Sou outro, você é outra,
somos todos e ninguém…
Chegamos a um lugar-nenhum-lugar.
Morremos para esta vida por um tempo –
além –
e inauguramos a eternidade…