Projeto Scenarium 6 Missivas | Outubro – 18 | Sobrevida

Escapamos dessa, Obdulio! Posso (podemos) dizer que, desde aquele quase fatídico 27 de Outubro do ano passado, sobrevivemos. Estamos com 30 quilos a menos, ainda não me reconheço no espelho e confesso (eu, hoje, 10 anos antes) que gostava mais das minhas feições arrendondadas.

Todos os dias, é aquela surpresa – demoro alguns segundos para me reaver e saber que sou eu ali, diante de mim – que para você, fomos. Comemoramos, no começo deste Outubro que se encerrará amanhã, 47 anos de vida, consciente de que somos frágeis e que desafiamos a sorte ao enveredarmos por aquele estilo de vida que nos matava aos poucos.

Mais do que desafio, muitas vezes tenho a certeza que não nos importaríamos de morrer… ou, mais surpreendentemente ainda, que desejássemos mudar de plano. O meu desamor por mim (ainda é assim?), quase ódio, chegou a um ponto em que se deixar ir era a solução mais fácil. Covardia.

Ter consciência desse fato é como se brincasse um brinquedo novo: quebra-cabeças da nossa cabeça. Tenho curiosidade ou quero entender porque ele-eu-nós quisemos que isso acontecesse. Porque fizemos isso conosco… você já sabe? Como gostaria de receber uma mensagem sua do futuro, informando se conseguimos sobreviver mais 10 anos e como ultrapassamos os revezes desta viagem. Se nós estivermos lendo isso, queria ver nossa cara.

Sabemos que decidimos continuar por causa das pessoas que amamos e demonstraram nos amar. Mas sei, hoje, que devemos tentar amarmos a nós mesmos muito mais. Não somos má pessoa. Não desejamos mal a ninguém… a quase ninguém. Mas pretendo melhorar isso paulatinamente. Espero que eu tenha feito um bom trabalho, deixando para nós um Obdulio saudável, amável.

Será que o projeto de nos tornarmos escritor foi a frente? Ou deixamos pelo caminho, como tantos outros anteriores? Se sim, como conseguiu escrever diante de tantas solicitações que a vida nos impõe? E o Brasil, como será que caminha? Há 5 anos, você deve se lembrar, nos desentendemos com o governo do PT. Agora que a primeira mulher a governar o Brasil foi eleita, ainda deposito esperança que possamos construir um País melhor. Com sorte, elegeremos o primeiro presidente negro, como poderá acontecer com os Estados Unidos, através do Obama, agora em novembro.

Enfim, creio que Brasil deixará de ser o eterno País do Futuro para ingressar em uma era de prosperidade e redenção. Os direitos dos cidadãos prevalecerão definitivamente. A educação de qualidade será igualitária. Vamos crescer… não?

Obdulio, espero que receba esta missiva em mãos. Mãos que continuem a trabalhar. Depois do piripaque, tomei como resolução gostar mais do que fazemos. Que isso torne mais leve nossos afazeres. Evoluímos?

Um abraço desde o passado, que nunca passa!

Projeto Scenarium 6 missivas | Outubro-18
Participam, também: Lunna Guedes | Maria Vitória | Adriana Aneli | Mariana Gouveia

Lívia

Lìvia I
Lívia

Um Dia antes do dia mais importante dos últimos anos na vida brasileira, hoje é um dos dias mais importantes para mim. Há 23 anos, nascia Liv – nome que pretendia dar à minha caçula. A Tânia quis aportuguesar a grafia e, assim, estreou Lívia em nossas vidas. Romy e Ingrid a receberam com todo o amor e, desde então, entre brigas, choros e reconciliações, as três meninas construíram um relacionamento amorosamente rico, em que as rusgas apenas amplificam os momentos de carinho e solidariedade.

Em 1995 – ano de seu nascimento – o Brasil descobria o poder da Internet. Amanhã, será o dia que será coroado o poder indiscutível das redes sociais na vida das pessoas. Um candidato – absolutamente medíocre – que em qualquer Democracia mais madura dificilmente seria eleito vereador – poderá chegar ao cargo máximo do governo brasileiro nestas eleições de 2018.

No início de 1995, Fernando Henrique Cardoso tomava posse em seu primeiro mandato. Por mais que tenhamos passado por alguns escândalos ao longo de seu governo, como SIVAM e Pasta Rosa, o presidente eleito conseguiu domar a inflação, terminou o primeiro quadriênio do Real de maneira exitosa, dando esperança que finalmente decolássemos rumo ao destino manifesto de “País do Futuro”…

Atualmente, vivemos o processo circular-repetitivo de esquecermos nossos esforços em busca de uma nação igualitária, para apostarmos em projetos obsoletos ou irresponsáveis. Peço desculpa pelo discurso político em voto de felicidade para a minha filha em seu aniversário, mas sei que ela sabe que não podemos desvincular nossa vida pessoal da coletiva-social. O meu perfil de escritor e cidadão não permitiria que deixasse de colocar meu posicionamento.

O amor que sinto pela Lívia, Romy e Ingrid me força a optar no sentido de um passo lateral, apenas para não cairmos no abismo e no obscurantismo que um dos presidenciáveis representa. Se a maioria dos eleitores escolherem essa vertente, espero que possamos ultrapassar mais essa cena, plena de dúvidas e algumas certezas. Uma delas – a supremacia da visão mitológica, mais uma vez – no País que aceita como verdade a mentira bem contada. Sei que a Lívia gostará de ver vinculado o meu desejo de um futuro que respeita a expressão do homem e todas as suas vozes ao seu aniversário. Que não lhe faltem sonhos, saúde, coragem e afetos verdadeiros. Por isso, acrescento: #EleNão

O P. Da Questão

Sobre a divulgação de um vídeo em que supostamente aparece um candidato ao governo do Estado de São Paulo, tenho algo a dizer. Eu o recebi, como muitos de nós, repassado como rastilho de pólvora. Nada diferente do fenômeno que caracterizou as atuais eleições e que fez sua estréia em 2014, de maneira não tão ampla, mas decisiva. Conseguir eleger-se como base em “fake news” pode até ser fácil. Porém, após chegar ao poder, quem as utilizou de forma mais esperta conseguirá governar com “fake news”? Já vimos que não.
Quanto ao vídeo, especificamente, o que vi foi um homem, descontraído, cercado por trabalhadoras em seu ofício, em evento particular, filmado por um outro participante. Se a filmagem foi feita de modo consensual ou clandestina, a sua difusão passa pela intenção de quem o faz: – Quer desacreditar a personagem principal do vídeo (no caso)? Ou às moças? O posicionamento hipócrita quanto à instituição familiar? O p. do político? Quem quer atirar a primeira pedra? E se vier a atirar, ganha o que com isso?
Os arranjos de relacionamentos pessoais e familiares são tantos e tão diversos do que se coloca como tradicional ou “correto”, que quem diz não ter conhecimento ou é ingênuo ou se faz de inocente. Ou, para não parecer tão crédulo quanto à hipocrisia reinante, o meio em que vive é absolutamente separado da vida real, como se fora participante de uma tribo isolada no meio da Amazônia.
As configurações e as questões internas do núcleo familiar – o casal – , sendo de cunho eminentemente privativas, só interessam aos envolvidos. Mas somos um povo fofoqueiro, que as redes sociais apenas possibilitou amplificarem os efeitos de modo exponencial. Antes, mesas de bar, salas das casas ou praças eram os locais nos quais se propagavam a fofoquinha aparentemente inocente. Hoje, mesmo uma pessoa solitária, participa da comunidade.
Finalmente, o p. da questão, poderá a vir ser tão importante que o fará perder a eleição? Ou receberá a solidariedade daqueles que viveram ou gostariam de viver a condição em que ele se apresenta? Deixaremos de discutir o discurso político ou a postura ideológica do próprio político para discutir o p. do político? A circunstância em que se apresenta deixará escancarada a sua vulnerabilidade ou sua impostura? Em resposta, o político, ao lado da esposa, refutou o vídeo como falso ou montagem. Quem realmente sabe se isso é verdade são os participantes ou a própria esposa, conhecedora do p. da questão.
Se ele, candidato líder nas pesquisas, tiver revertida essa tendência, será pelo motivo errado. Posso contestar suas propostas ou seu posicionamento a favor de um dos candidatos a presidência, não porque supostamente goste de interagir com algumas eleitoras de forma íntima.
Abaixo, vídeo de Mal Necessário, composição de Mauro Kwitko e interpretação do grande, grandioso e grandiloquente Ney Matogrosso.

Maratona De Outubro / Quando Os Desenhos Se Transformaram Em Palavras

Manteigas
Modelos de escrita

Eu gostava de desenhar desde pequeno. Tinha habilidade razoável em passar para o papel imagens que via em gravuras, livros e gibis. Estes últimos me atraíam bastante. Adorava ver as revistas do meu primo aos quatro ou cinco anos e criava histórias de acordo com a sequência dos quadrinhos. Os desenhos da TV me ajudavam a verbalizar a fala de cada personagem.

Em determinado momento, entre cinco e seis anos, comecei a desenhar letras, fascinado por aqueles símbolos estranhos que representavam saberes interditados para mim. Fui estimulado pelas tarefas da escolinha infantil da esquina da rua onde morava, na Penha. Como modelos de meus desenhos, utilizei latas de manteiga que meu pai usava como repositórios de pregos, parafusos, arruelas, tachinhas e outras peças, com as quais fazia seus reparos.

Para agradar à minha professorinha, transcrevi-desenhei as palavras para o caderno de brochura onde ensaiava as primeiras letras de forma. Como não tinha noção de separação ou parada, as palavras seguiram como num trem cargueiro, umas grudadas nas outras, do início de uma página até virem “descarrilhar” no final da seguinte. Eu me lembro de ter feito umas duas ou três “trilhas”. Quando mostrei à mestra da “Rainha da Paz”, arranquei lágrimas inesperadas e ganhei um beijo no rosto. Melhor recompensa não haveria.

Como meu aniversário é em outubro e a lei estipulava que apenas com sete anos poderia entrar no curso regular, a minha vontade de começar a escrever e a ler efetivamente foi adiada, o que não impediu que começasse a interpretar as palavras, ainda que precariamente. No início dos seis anos, no entanto, passamos uma temporada no norte da Argentina, acompanhando o meu pai que permaneceu na casa da minha avó por quase um ano. Provavelmente, fugindo da perseguição política em época de AI-5, imposto pelo Regime Militar. Tive que aprender a falar outra língua, apesar de parente do português. Vivíamos em condições precárias e estímulos parcos. Não me lembro sequer de um livro ou revista que tenha visto naquele período.

Quando voltei ao Brasil, aos sete, fui matriculado no Primário e tive contato com o Caminho Suave das palavras. Apesar de falar mais espanhol que português, em pouco tempo li todas as histórias do meu primeiro livro e comecei a querer mais. Minha mãe, percebendo esse pendor, começou a comprar gibis, então os artigos “literários” mais baratos disponíveis. Porém, também gostava de histórias mais complexas, sem figuras. Minha imaginação era sempre mais fantástica que qualquer coisa que visse. Na segunda série, fiz o curso em duas escolas diferentes, com livros diversos. Em um mês, devorei o do segundo semestre e, na prova de leitura, ganhei visto de “Excelente” em linda letra cursiva da professora. Desejei escrever daquela maneira.

Na Canuto do Val, havia uma biblioteca. Conheci Monteiro Lobato, Júlio Verne e outros, além de livros sobre fatos extraordinários da História. Esses e os de Ciências passaram a ser do meu mais íntimo interesse. Foi uma época de intensa leitura e aprendizado acelerado – lançamento definitivo na minha aventura como leitor.

Um pouco mais adiante no tempo, comecei a escrever pequenos contos e a fazer versinhos para namoradas imaginárias. “Hey, Jude” ganhou uma versão adocicada que não mostrava para ninguém. As minhas historinhas tinham o meu irmão menor como ouvinte cativo e pude perceber desde cedo o quanto a Palavra é encantadora. Desde então, sou encantado pelo poder do Verbo…

Participam também desta Maratona:

Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

O Piedoso

O Piedoso
Pintura em ajulejo, realizada em 1913, por José Francisco de Oliveira, diplomado na Escola Comercial e Industrial de Brotero – Coimbra – Portugal (Centro Cultural Português, Santos/SP)

O honrado homem chegou ao lugar em que tudo precisava de sua intervenção piedosa. De início, como era um mundo novo, seu espírito desbravador encontrou o espaço ideal para sua atuação. Fundou vilas e porto, construiu igrejas, forte e hospital. Introduziu a agricultura e desenvolveu a economia. Tornou-se um fidalgo rico, por conta de seu espírito empreendedor e destemido. Respeitado por seu povo, era um dos homens favoritos do Rei, que lhe delegou todas as possíveis honrarias.

O honrado e piedoso homem, para realizar todas as obras que o distinguiu como um dos principais de seu tempo, não hesitou em invadir e ocupar terras que não eram suas de origem, matar seus donos primordiais, derrubar a vegetação natural, esteio do povo antigo, dizimar animais e seu habitat, explorar as riquezas que para os autôctones não tinham nenhuma valia. Para completar seu projeto de poder, pretendeu escravizá-los. Enfrentou uma revolta – a Confederação dos Tamoios. Seu nome: Braz Cubas.

Para os colonizadores portugueses, era mais do que natural que assim fosse. Matar os contrários às suas vontades, por sede de riqueza e imposição de uma fé excêntrica, assumir comando sobre espaços – terra, mar e céu mapeado – era uma ação valorosa, que engrandecia o nome da Pátria a milhares de quilômetros de distância. A suprema vilania, que serve como marca definitiva de posse se dá quando limitou fronteiras e as nomeou com sons e signos alienígenas. Assim como capturar as mulheres nativas e usá-las como reprodutoras de mão de obra filial e fiel aos novos donos das sesmarias, tornando-a cooperadora involuntária da destruição de seus ascendentes genéticos.

Dessa maneira, a antiga faixa de terra ocupada pelos habitantes originais, os Tamoios – Tupinambás, Goitacás, Guaianás e Aimorés – transformou-se, muitas luas depois, em grupamentos humanos com costumes estranhos e pendor para a belicosidade. O termo “Tamoio” vem de “ta’mõi“, que em língua tupi significa “avós”, indicando que eles formavam o grupo tupi que há mais tempo se havia instalado no litoral brasileiro. Nunca supuseram que povos mais antigos ainda viessem de lonjuras inalcançáveis para trazerem a morte por armas que queimavam e doenças que seus pajés não conseguiam curar.

Quem afinal se põe em posição de piedoso está em condições de determinar quem vive e quem morre. O prestigioso Braz Cubas, era apenas mais um exemplar daquele povo que dominou o país que se formou com a chegada de mais e mais gente. Muitos mais de seus iguais reproduziram a mesma jornada de dominação e morte dos nativos, finalmente domados.

Seus pares erigiram monumentos para o grande súdito português. Com o tempo, instituições ganharam seu nome, incluindo algumas de ensino, aqui mesmo na antiga terra tupiniquim, a do povo dizimado. Somos filhos desse sistema de colonização. Não há como escapar de nossa História. Devemos enfrentar nossa origem espúria e suas contradições. Conjurar nossa sanha conquistadora-destruidora. Creio que somente dessa forma poderemos superá-la. Vivemos como se não tivéssemos passado e nem presente. Apenas um futuro enganoso e enganado.

Sempre haverá aqueles que virão com projetos de grandeza sem avaliarem as consequências, por piores que sejam. Como quando se constroem pontes para travessia de uns tantos sobre os cadáveres de tantos mais. O objetivo termina por sair mais caro, tanto do ponto de vista material como moral, no melhor sentido, baseado em valores básicos de convivência, como respeito à diversidade, com tolerância, solidariedade, compreensão e comunhão de objetivos éticos.

Enquanto não nos conscientizarmos de nossa História, tenderemos a reproduzir ad eternum os mesmos erros de percurso. Estamos insatisfeitos com o nosso presente, mas buscamos soluções fundadas na força destruidora que formou nossa sociedade. A fama de povo gentil não passa de uma formulação sem validade, como se não fôssemos agressivos. Somos um dos países com mais mortes por número de habitantes, percentualmente.

Vivemos uma guerra civil. Se não mudarmos sua direção, jamais alcançaremos a maturidade civilizatória, ainda que a ideia em torno de civilização tenha uma “má fama”. No entanto, se não partimos daqui para uma concepção mais aprimorada de convivência, a tendência de perdermos a noção de brasilidade que “conquistamos” a ferro e fogo até aqui, ainda que precária, se imporá definitivamente, para a nosso desgosto e prejuízo permanente para as próximas gerações…