19 / 01 / 2025 / Recomeços*

Da esquerda para a direita: meus pais, Sr. Odulio e D. Madalena; eu e Tânia; Sr. Manoel e D. Floripes.

Estará para completar, em 2014, 25 anos! Foi em 13 de maio de 1989 que celebramos a nossa união oficial, Tânia e eu. Já tínhamos um laço indissolúvel a nos unir, pois a Romy já estava sendo gestada há cinco meses em seu ventre. Para mim, assim era. Não fazia questão de cumprir as convenções formais de declarar um fato que já estava sacramentado. Mas as respectivas famílias faziam questão e como não ligava para formalidades, igualmente não objetava em cumpri-las, se dessa forma satisfazia às pessoas ao meu redor.

Foi a decisão mais acertada que tomei em minha vida! Nunca usei anéis, mas me emocionei em colocar um em minha companheira dali por diante e de ter recebido outro em meus dedos. É bem verdade que não o usei por muito tempo, já que devido ao trabalho, acabei por torná-lo em um objeto octogonal. Tive que guardá-lo, mas uma aliança material não suplanta uma mental e espiritual. Tudo o que passamos desde então, entre altos e baixos, nos provou que estamos vivos e funcionais, qual um gráfico de eletrocardiograma nos indica. Nunca registramos um traço e, por isso, aprendemos encontrar momentos de plenitude e estabilidade em meio às variações de todas as ordens – físicas, mentais, espirituais e econômica-materiais.

Conforme propago sempre que posso e que alguém já deve ter exemplificado em algum ensaio por aí, no tempo e no espaço, prometer qualquer coisa diante do altar é sempre temerário. Quem promete naquele instante não é mesma pessoa tantos anos depois para afirmar que um relacionamento seja eterno. Apesar de o ser, para mim, ainda que o compromisso possa ser desfeito um dia. Afinal, o que vivemos nos influenciará pelo resto de nossas vidas. As pessoas se modificam no decorrer de sua existência. Um casal modifica um ao outro e a identidade do casal como tal também sofre mutações diante dos acontecimentos cotidianos. A boa surpresa é que, mesmo com todas as modificações e desequilíbrios pelos quais passamos, é possível nos apaixonarmos por aquela nova pessoa, como se uma nova pessoa fora, se bem que, naquela altura da vida, os corpos apenas se pareçam com os antigos corpos que carregam o mesmo RG.

Além disso, normalmente temos os filhos! Ora, os filhos! Com a chegada deles, aprendemos a dedicar o nosso tempo para outras pessoas que não nós mesmos. Eles são fontes de alegrias e preocupações e, quando crescem, saudavelmente fazem questão de contestar a nossa autoridade e refutar os nossos ensinamentos, cometendo os mesmos erros que nós quando tínhamos as suas idades.

Para encerrar, me sinto compelido a dizer que o meu relacionamento com a Tânia já passa dos 25 anos oficiais que o ano de 2014 contemplará. Ele começou quando a vi pela primeira vez, magérrima e petulante, dois anos antes. Nós nos estranhamos desde o início. Recomeçou quando encetamos a conversar como gente civilizada, alguns meses depois. Recomeçou quando nos beijamos pela primeira vez, meses à frente. Recomeçou quando recebi a notícia da chegada da Romy. Recomeçou, mais uma vez, quando nos casamos. Recomeçou todas as vezes que veio à luz cada uma das nossas outras crias – a Ingrid e a Lívia. E a partir do momento que decidi viver um dia de cada vez, recomeça todos os dias.

*Texto de 2014

BEDA / Hellen

Hellen era daquelas mulheres que não passava despercebida por onde andasse. Algo no seu passo confiante, seu porte de espinha ereta de bailarina que foi, rosto expressivo de quem conhecia a si mesma a distinguia. Professora universitária, parecia ter a resposta certa para qualquer assunto. Sorriso aberto, bom copo, da mesma maneira que atraía, assustava homens e mulheres. Solteira por convicção, escolhia com quem sair como quem tivesse a disposição uma lista previamente estabelecida. O que não correspondia à realidade. Diferente do que pudessem presumir, Hellen usava bastante a intuição para consumar os seus encontros. Quase sempre entrava e saía incólume desses embates sexuais em que a paixão tinha hora de início e fim.

O seu admirável autocontrole sofreu um abalo quando conheceu um casal na casa dos 30 anos que, bastante ousado, a abordou em seu bar preferido. Após duas horas de uma divertida conversa, a chamaram para uma noitada íntima em sua casa. Apesar de passar dos 60, essa modalidade de diversão nunca havia experimentado. Cria que pudesse controlar melhor as relações com parceiros masculinos ou femininos unitários. Antes tivesse evitado aquela noite na qual nunca havia sentido tanto prazer e paixão. Derreteu-se com a coreografia inventiva da moça que feito Isadora Duncan, performava movimentos inéditos e criativos, além do uso da língua com uma desenvoltura soberba. E pela fluidez do rapaz que sabia o que fazer com o seu pau, no tamanho ideal para a satisfazer com delicadeza e potência.

Assisti-los também era um deleite. Hellen gostava de filmes pornôs bem feitos, que saíam do lugar comum e que a estimulassem enquanto usava os seus brinquedinhos quando estava só. Vê-los atuando presencialmente superava em muito qualquer dos que assistira nos últimos anos. Essa aflorada pulsão sexual carregou durante séculos de sua vida e que reprimiu durante seu tempo de titular da cadeira de Filosofia. Ela frequentemente ficava atraída em série por colegas e alunos, mas no último ano de faculdade deixou emergir como lava de um vulcão adormecido. Decidira se aposentar e fechar o ano letivo com chave de ouro. Não se importava em distribuir notas para os alunos mais dotados em tamanho e menos aquinhoados de talento para a Filosofia. Melhor assim. Eram mais ativos, confiantes e menos verborrágicos.

Agora, esse casal lindo e sensual a derrubando de seu pedestal de senhora do destino. Estava apaixonada. Para ela, terminaria essa troca desenfreada de parceiros. Após o terceiro encontro, perguntou a eles se não gostariam que se unissem como um Trisal. De maneira educada, o que a feriu mais ainda, os dois disseram que queriam se manter apenas como um casal. Que a achavam maravilhosa, linda e tesuda, mas que uma terceira pessoa poderia instabilizar o que tinham — uma conexão e integração maravilhosas. Eles aceitavam a entrada eventual de uma mulher ou de um homem, mas sempre tendo os dois como ponto de equilíbrio. Hellen, sorriu como se fosse mais para si e se despediu dos dois amantes. Ferida, lamberia as feridas por um tempo, amargando a saudade que tentaria mitigar enfileirando casos elegidos em aplicativos, que passou a utilizar. Encontros nos quais muitas vezes os parceiros nem se apresentavam ou sequer emitiam qualquer palavra durante a hora de sexo desesperado.

Foto por Pascal Bronsert em Pexels.com

Participação: Lunna Guedes Mariana Gouveia / Claudia Leonardi Roseli Pedroso / Bob F.

BEDA / Certo & Errado*

Somos o casal errado,

a viver um amor ilegal…

Porém, no momento certo,

porque para amar

é sempre o tempo ideal…

Vivemos a paixão exata

para esta era incerta –

turbulenta,

absurda,

contumaz…

Porque estar apaixonado

é viver sem um traço de paz…

Sentimo-nos rejuvenescidos

pelo fogo que nos forja…

Queimamo-nos em nossa fuga

pontual – data marcada –

instante fugaz,

ainda que eternizado…

Entre o certo e o errado,

batemos como o pêndulo

de um relógio orgânico,

de um lado para o outro,

ao ritmo de nossos corações,

à espera da hora que expiremos

o nosso último fôlego…

*Poema de 2016

Participante do BEDA: Blog Every Day August

Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Bob F / Suzana Martins / Roseli Pedroso / Claudia Leonardi / Denise Gals

Manhãs E Tardes Permanentes

Nesta mesma data, em 2014, nós, da Ortega Luz & Som, saímos cedo para trabalhar. Quando os primeiros raios solares iluminavam o dia, lá estava esse casal de cães ora sentados, ora brincando juntos durante o tempo que estivemos abastecendo os carros para seguirmos viagem. Formavam um lindo casal. Essa cena se espraiou pelo resto do meu dia. E hoje, ao relembrá-la, melhorou a minha manhã. Apenas os bons romances resistem à luz do dia…

Rio de lavas
passeiam pela tarde
lavada de chuva,
sob o oceânico céu
do verão
deste final de ano…
Cores e fogo espraiados
em intensidade líquida
de nebulosas ondulantes que serpenteiam
no horizonte do sem fim
no fundo de meus olhos…
Que sejam prenúncio de alvíssaras,
ainda que saibamos que serão tempos
tempestuosos…

Coleção “As Idades” / Aos 52 / Recomeços*

Da esquerda para a direita: Sr. Ortega, Dona Madalena, eu, Tânia, Sr. Manoel e Dona Floripes, em 1989.

Segunda-feira, a Tânia e eu fomos retirar no Cartório de Santana, uma cópia renovada de nossa certidão de casamento, a propósito de dar encaminhamento a um trâmite burocrático. Em maio, completaremos 33 anos de celebração da união oficial, mas como coloquei no texto de 2014*, que reproduzo abaixo, essas efemérides documentam linhas retas de uma história plana, sem os intermédios da vida dores, sobressaltos, alegrias, tristezas, festas, doenças, altos e baixos, passamentos e nascimentos fins e recomeços.

“Estará para completar, em 2014, 25 anos. Foi em 13 de maio de 1989 que celebramos a nossa união oficial, Tânia e eu. Já tínhamos um laço indissolúvel a nos unir, pois a Romy já estava sendo gestada há cinco meses em seu ventre. Para mim, assim era. Não fazia questão de cumprir as convenções formais de declarar um fato que já estava sacramentado. Mas as respectivas famílias faziam questão e como não ligava para formalidades, igualmente não objetava em cumpri-las. Dessa forma, satisfazia às pessoas ao meu redor. Foi a decisão mais acertada que tomei em minha vida. Nunca usei anéis, mas me emocionei em colocar um em minha companheira dali por diante e de ter recebido outro em meus dedos.

É bem verdade que não o usei por muito tempo, já que devido ao trabalho, acabei por torná-lo em um objeto octogonal. Tive que guardá-lo, mas uma aliança material não suplanta uma mental e espiritual. Tudo o que passamos desde então, entre altos e baixos, nos provou que estamos vivos e funcionais, qual um gráfico de eletrocardiograma nos indica. Nunca registramos um traço e, por isso, aprendemos encontrar momentos de plenitude e estabilidade em meio às variações de todas as ordens físicas, mentais, espirituais e econômica-materiais.

Conforme propago sempre que posso e que alguém já deve ter exemplificado em algum ensaio por aí, no tempo e no espaço, prometer qualquer coisa diante do altar é sempre temerário. Quem promete naquele instante não é mesma pessoa tantos anos depois para afirmar que um relacionamento seja eterno. Apesar de o ser, para mim, ainda que o compromisso seja desfeito um dia. Afinal, o que vivemos nos influenciará pelo resto de nossas vidas. As pessoas se modificam no decorrer da existência. Um casal modifica um ao outro e a identidade do casal como tal também sofre mutações diante dos acontecimentos cotidianos. A boa surpresa é que, mesmo com todas as modificações e desequilíbrios pelos quais passamos, é possível nos apaixonarmos por aquela nova pessoa, como se uma nova pessoa fora, se bem que, naquela altura da vida, os corpos apenas se parecem com os antigos corpos que carregam o mesmo RG.

Além disso, chegam os filhos. Ora, os filhos! Com a chegada deles, aprendemos a dedicar o nosso tempo para outras pessoas que não nós mesmos. Eles são fontes de alegrias e preocupações e, quando crescem, saudavelmente fazem questão de contestar a nossa autoridade e refutar os nossos ensinamentos, Ainda que advertidos, cometem os mesmos erros que nós quando tínhamos as suas idades.

Para encerrar, me sinto compelido a dizer que o meu relacionamento com a Tânia já passa dos 25 anos oficiais que o ano de 2014 contemplará. Ele começou quando a vi pela primeira vez, magérrima e petulante, dois anos antes. Nós nos estranhamos desde o início. Recomeçou quando encetamos a conversar como gente civilizada, alguns meses depois. Recomeçou quando nos beijamos pela primeira vez, meses à frente. Recomeçou quando recebi a notícia da vinda da Romy. Recomeçou, mais uma vez, quando nos casamos. Recomeçou todas as vezes que veio à luz cada uma das nossas outras crias a Ingrid e a Lívia. E a partir do momento que decidi viver um dia de cada vez, recomeça todos os dias”.