fui até a água do mar
dia frio praia deserta
penetrei nas tramas líquidas
do corpo que me absorve
a sensação quase completa
não se dá porque mesmo eu água
não estou dissolvido como o sal
estranho-me estando apartado
me engulo em lágrimas que parte de mim
também é mar
e me integro à desintegração de ser só
sem o total do céu e de si
o sentimento perdura e se digladia
meu corpo ainda vibra potência
ergo-me da cama sono de quatro horas
a espada erguida denuncia que quero brigar
a luta perdida contra o tempo
tudo é questão de tempo
o dia amanhece invernoso
nesta Primavera quase morta
vigésimo primeiro ano do vigésimo primeiro século
olho-me que não sou eu no espelho
na camiseta que visto there is no finish line
e nisso acredito
não deixo a neve grassar na cabeça
limpo o caminho dos meus pensamentos
mas já é tarde
não ser sendo gosto disso
me sinto confortável
na incongruência de ser-não-ser
estou incompleto
estou perdido
estou perfeito…
Etiqueta: céu
B.E.D.A. / Skypaper*
Alguns perguntarão do que se trata. Respondo: este pequeno objeto ao centro é um papel laminado que encontrei hoje de manhã no chão de casa. Provavelmente, fui eu que o transportei na sola de meu sapato desde o local onde se realizou a festa de casamento na qual sonorizamos e iluminamos a banda que nela se apresentou.
São resquícios do momento em que os noivos adentraram ao salão de festas, recebidos por aplausos, assobios, gritos, ovações, pipocar de flashes e… papéis laminados. Desde a Copa do Mundo de 2002, na qual Cafu levantou o troféu para o alto, acompanhado de papéis laminados regurgitados ao alto por máquinas que apropriadamente adotam o nome de Sky Paper Machine, se tornou quase obrigatório incluir este item nas festas de todos os matizes e motivações.
Isso, para o desespero de quem limpa os salões, que sofrem para removê-las do chão ou onde quer que esse troço grudento se adere. Além da apreensão de operadores técnicos de moving-lights, mesas de som e outros equipamentos eletrônicos — ferramentas trabalho que podem ser danificadas —, “queimadas” quando essas coisinhas penetram em suas placas de circuitos através das frestas de refrigeração. Quanto aos casamentos, a maioria durará bem menos do que esses papéis do céu…
*Texto de 2012
Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli
Cládia Leonardi
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Roseli Pedroso
Lunna Guedes
Pássaro Do Delírio
Ontem, eu vi um gigantesco pássaro pairar sobre um morro e suas casas de alvenaria sem acabamento, tão típicas nesta região da Periferia. Ainda que alguns não o enxergassem como pássaro, eu acreditava distintamente em seu corpo curto de imensas asas abertas de lado a lado. Acreditava que fosse prenúncio de boas novas. Seu bico aberto a emitir um canto de liberdade, mesmo que surdo. Ou não…
Talvez fosse o pássaro do apocalipse tão presente quanto o vento frio e cortante daquela manhã. Bicos abertos para devorar o ar e o azul. Asas descomunais para alcançar cidades, planaltos e planícies, colinas e vales de todo país, em pesadelo de lágrimas e padecimento. Indiscriminadamente, recolheria ávida e mortalmente os corretos e os errados, os infratores e os legais, os generosos e os maldosos, homens, mulheres, transgêneros, crianças e velhos.
Comecei a desejar que aquele pássaro fosse apenas uma nuvem passageira, a se desfazer pela ação do vento, da rotação da Terra, do calor do Sol ou, melhor ainda, que viesse a se unir a outras nuvens e se precipitar sobre a terra seca em forma de chuva. Para lavar corpos e mentes, apaziguar espíritos e seres astrais. Que fosse apenas uma ilusão. De alguém que não concebe como uma nação se liquefaz em loucura sem propósito algum, que não seja o de destruir vidas e banir a fraternidade. Que tenta ver no céu azul puro de outono, nos rostos mascarados de quem se cuida e cuida dos seus — uma mensagem de boas novas.
Mas, por mais que deseje, sei que vivemos e viveremos dias terríveis. Que tudo piorará muito antes de vir a melhorar. De repente, eu sinto me transformar naquele pássaro. Que busca fugir da realidade para alcançar um outro mundo. Outras possibilidades, outras paragens, um lugar aonde não chegarão homens para destruir tudo o que respira. Um lugar em que eu aja conforme a leis naturais. Que ame em vez de odiar. Que beba água da fonte e fortaleça a minha alma. Que eu prefira morrer em vez de matar. Que cante canções de amor em vez de dor. Que me lave da lama em cachoeiras vindas de nascentes límpidas, assim como fez por séculos o povo originário deste solo, antes de ser dizimado.
Porém, há os outros… eles são reais como as pedras. Duros como o ferro enferrujado. Não sonham, apenas executam ordens. São sequazes do Ignominioso que não acreditam na igualdade. São seres corrompidos pelo desejo latente e frio como a ponta de baionetas a perfurarem corações. Zombam da desgraça, se alegram com a morte, porque a têm como aliada. Se deixam morrer pela causa errada. Logo percebi que aquele era o pássaro do delírio. Que o céu é alheio ao nosso sofrimento. Que as nuvens não se importam como as enxergamos. São o que são — partículas diminutas de gelo ou água. Não passareiam, mas passam… como nós…
Pégasos* Ao Entardecer
Em 2015, nesta mesma época, publiquei no Facebook: “O tema tem se tornado repetitivo — o entardecer, o sol se pondo (somos nós que nos vamos à bordo da nave mãe), as estações que se sucedem, as nuvens que brincam de formarem seres mutantes e de se desfazerem em promessas de chuva que não virão. Enquanto isso, poucos param para observá-las, porque não se importam com a mesmice da apresentação, porque não percebem a bela notícia que a rotina do cotidiano traz — o amanhã tem futuro!”.
Nos comentários, há observações, assim como a da Tânia: “Vi vários cavalos alados…”; Alessandra da Mata pôs como resposta uma música de Jorge Mautner, com Moraes Moreira — A Lenda do Pégaso. Ao que respondi: “Maravilhosa lembrança! Dessa canção, que ouvi pouco, eu só me recordava do refrão. Incrível letra do Jorge Mautner que, ao lado de Tom Zé, Jards Macalé, Walter Franco e outros ‘esquisitos’ da MPB, aguçaram a minha imaginação nos anos 70. Você, tanto quanto eu, pega o azul nos céus do Brasil!”.
Enquanto Suzy Pavlov comentou sobre o céu craquelado, Marineide de Oliveira postou versos de uma canção da Banda Pau E Corda, do álbum “Vivência“: “Quem nasceu lá e viveu / Crescendo percebeu / Viu descer o amor / No céu de cada tarde”. E confirmou: “Também vi cavalos alados!”. Stela Maris, concordou: “É verdade, somos nós que vamos a bordo da nave mãe… E sim, o amanhã tem futuro!” e ainda Cleide Sporto afirmou sobre o crepúsculo: “Nunca será repetitivo o suficiente”.
Foram retornos estimulantes a uma simples postagem de um entardecer. De alguma maneira, as pessoas consideravam importante trocar impressões, conversar sobre a tarde que se esvaía em cores, fazer as correlações entre as linguagens. Parece ter sido coisa de outra vida, quando tínhamos “tempo mental” — algo que caracterizo como um espaço não apenas temporal ou mental, mas igualmente de energia fraternal. Não que as pessoas não gostem tanto mais umas das outras.
Creio que o afastamento físico, que não era impeditivo para encontros virtuais, também tenha se tornado concreto pela perda de estímulo de algum entendimento ou desilusão. Talvez seja o formato (Facebook) que não tenha mais o apelo que tinha antes, diante de tantas outras expressões virtuais. Talvez sejamos nós, menos “inocentes”, a nos punirmos com a cegueira dimensional. Pode ser que o desinteresse pela simplicidade vital tenha crescido. Ou os temas tenham ficado repetitivos. Ou o encanto tenha se perdido… Ou a ideia de futuro tenha esquecido seu sentido…
Sabe o que é mais estranho? Ou esqueci que tenha os visto ou definitivamente nunca consegui enxergar, na imagem acima, os tais cavalos alados…
*Pégaso (em grego: Πήγασος; romaniz.: Pégasos), na mitologia grega é um cavalo alado símbolo da imortalidade. Sua figura tem origem no mito de Perseu e Medusa, nascido do sangue da Medusa quando foi decapitada por Perseu. (Wikipédia)
BEDA / Asas
A cada dia que pergunto algo ao céu,
ele responde de forma diferente.
Mas o sentido é o mesmo — a vida
é movimento e transformação…
Adriana Aneli / Alê Helga / Claudia Leonardi / Darlene Regina
/ Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Roseli Pedroso




