Algo de muito perturbador existe em mim Que prefere um céu nublado a azulado As nuvens me trazem a ilusão de festim Enquanto limpo, parece de tempo fechado…
Lateralmente, escanteia-se a luz Canto o entardecer que me seduz Enquanto canto, o azul se desmancha Alcançando a mim a negra mancha…
Enquanto o sol outonal deita o seu brilho Sobre a ampla cama nebulosa da tarde O dia, calmo, percorre o mesmo trilho Daqueles que foram embora, sem alarde…
Certa vez, ainda garoto, escrevi: “Ao longe As estrelas brilham Por perto As pessoas queimam”… Hoje, eu beijo as estrelas… Eu as possuo, em colchões de nuvens!
Na boca da noite, o tardio óvulo solar Aquece e faz multiplicar a vida celular Reativa as nossas cíclicas energias vitais E fecunda o útero plúmbeo dos mortais…
Sonho em dia claro morrer Sob a luz do Sol esvanecer Uma noite depois de namorar A Lua, as Estrelas e o Mar…
Ontem, a chuva faltou ao nosso encontro diário. Ela era nossa assídua companheira desde que começou 2013 e, para arrematar a tarde seca, o Sol nos deixou com a promessa de que voltaria no dia seguinte, com toda a pompa e circunstância.
Anúncio que, de fato, se cumpriu. Gosto de ver a luz solar refletir-se nas fimbrias do horizonte e a iluminar as construções e a produzir desconstruções de linhas e perfis no relevo. Já postei várias fotos desses momentos do entardecer em que vejo o Sol comemorar o seu poder transformador.
De início, a luz amarela ajudava a dourar as casas de alvenaria e tijolos aparentes, no morro adjacente à minha casa. Passado algum tempo, no entanto, me chamou a atenção, quando o astro já estava quase totalmente recolhido, o azul que substituía a paleta terrosa.
Conjecturei que o ângulo de inclinação de sua luz, ao refletir no céu, azulava tudo em seu entorno, feito Van Gogh em sua fase azul. Logo, o arrebatamento tomou conta dos meus olhos e, o anil, de toda a paisagem.
*Texto e imagens (sem o fulgor do momento) de 2013.
Dias desses, eu me lembrei de você, em mim… Mentira, eu lembro de você, de mim, de nós, todos os dias. E sabe o que é mais estranho?… Tenho saudade de nossos sonhos não realizados. Viveríamos à beira do mar, teríamos uma vida simples, criaríamos os nossos filhos, fossem eles adotados ou não. Formaríamos um vínculo eterno no tempo terrestre e além. Quando estava com você, sentia vontade de cantar. Músicas de Alceu Valença nos representavam. Lembra quando a conheci, numa tarde junto ao mar? Você olhava para o horizonte e quando cruzei com você, vi o azul do céu e do mar em seus olhos. Sem querer, falei baixinho ou apenas pensei, não sei: “la belle de jour…”. Você parece ter ouvido, sorriu e respondeu: “adoro essa música!”… Fiquei enrubescido… Você sorriu mais ainda: “você ficou vermelho! Que gracinha!”… E começamos a conversar. Percebi que seus olhos eram, na verdade, castanhos esverdeados, às vezes mais claros, às vezes menos, e que tinha a capacidade de resplandecer o sol, fundir o azul do céu e do mar, o verde da vegetação, avermelhar-se com os últimos raios do entardecer, como descobri ao ficarmos sentados em uma pedra, conversando, até anoitecer… Quando voltamos a nos encontrar, lhe cantei “Anunciação” porque a letra fazia todo o sentido. Na mesa do restaurante, eu me voltei assim que entrou pela porta. Brinquei: “eu escutei os seus sinais…” / “Sou tão barulhenta assim?” / “Não! O meu coração bateu tão forte que cheguei a ouvi-lo…”. Seus olhos furta-cores se expandiram e você me beijou. Ficamos juntos por maravilhosos dois anos, fazendo planos para o futuro, cantando músicas do Alceu, assistindo aos seus shows, saindo pela noite cantando “mar e sol… gira, gira, gira, gira, girassol…”, flores que teríamos no jardim de nossa casa à beira-mar, com as nossas roupas quarando no varal. Até que… algo aconteceu. Você parece ter despertado do nosso sonho. E disse que ele havia acabado. Simples assim… Não quis explicar, talvez não quisesse me magoar por dizer que não gostava mais de mim. Ou que se apaixonara por outro. Eu devia ter escutado as mensagens enviadas por seus olhares, ainda que a boca não se pronunciasse. Eles começaram a ficar nublados como a estação chuvosa. Mas do que valeria? A dor seria a mesma. Sei que tudo passou. Prefiro que seja assim. Será um sonho eterno, realizado somente em minha mente. Guardarei o seu olhar-sorriso-ladrão-de-corações em minha lembrança. Aquele sorriso que foi só para mim, aquelas cores que foram só minhas… Adeus, meu sonho!
fui até a água do mar dia frio praia deserta penetrei nas tramas líquidas do corpo que me absorve a sensação quase completa não se dá porque mesmo eu água não estou dissolvido como o sal estranho-me estando apartado me engulo em lágrimas que parte de mim também é mar e me integro à desintegração de ser só sem o total do céu e de si o sentimento perdura e se digladia meu corpo ainda vibra potência ergo-me da cama sono de quatro horas a espada erguida denuncia que quero brigar a luta perdida contra o tempo tudo é questão de tempo o dia amanhece invernoso nesta Primavera quase morta vigésimo primeiro ano do vigésimo primeiro século olho-me que não sou eu no espelho na camiseta que visto there is no finish line e nisso acredito não deixo a neve grassar na cabeça limpo o caminho dos meus pensamentos mas já é tarde não ser sendo gosto disso me sinto confortável na incongruência de ser-não-ser estou incompleto estou perdido estou perfeito…
Alguns perguntarão do que se trata. Respondo: este pequeno objeto ao centro é um papel laminado que encontrei hoje de manhã no chão de casa. Provavelmente, fui eu que o transportei na sola de meu sapato desde o local onde se realizou a festa de casamento na qual sonorizamos e iluminamos a banda que nela se apresentou.
São resquícios do momento em que os noivos adentraram ao salão de festas, recebidos por aplausos, assobios, gritos, ovações, pipocar de flashes e… papéis laminados. Desde a Copa do Mundo de 2002, na qual Cafu levantou o troféu para o alto, acompanhado de papéis laminados regurgitados ao alto por máquinas que apropriadamente adotam o nome de Sky Paper Machine, se tornou quase obrigatório incluir este item nas festas de todos os matizes e motivações.
Isso, para o desespero de quem limpa os salões, que sofrem para removê-las do chão ou onde quer que esse troço grudento se adere. Além da apreensão de operadores técnicos de moving-lights, mesas de som e outros equipamentos eletrônicos — ferramentas trabalho que podem ser danificadas —, “queimadas” quando essas coisinhas penetram em suas placas de circuitos através das frestas de refrigeração. Quanto aos casamentos, a maioria durará bem menos do que esses papéis do céu…
*Texto de 2012
Participam do B.E.D.A.: Adriana Aneli Cládia Leonardi Darlene Regina Mariana Gouveia Roseli Pedroso Lunna Guedes