Quem ama de paixão, sabe — antes de morrermos mil vezes — nos despedaçamos dez vezes mil… Quem permanece intacto em uma relação — sem perceber a falta de algum pedaço — não está a amar…
Cabeça, tronco e membros — nada escapa à desconstrução de nosso ser… Quando amamos, quem nos vê caminhar pelos lugares, apenas se ilude que ali se move alguém integral — a respiração foge dos pulmões ou falta o coração — que bate em outro peito…
Tocados pelo outro, enquanto o sangue circula fora do corpo, os olhos se perdem em cada nuvem que passa e as pernas seguem por ruas pelas quais passeiam o ser amado…
No auge da paixão é doloroso amar, porque não estamos onde estamos… Desconcentrados de nós, variamos de senso, contrariamos o consenso, o equilíbrio é penso, o desejo é imenso de estar no outro, com o outro, pelo outro, pelo com pelo peles unidas…
Quando nos perdemos em nós, destroçados e trocados de corpos e mentes, ganhamos todo o Universo — o Inferno e o Céu — destino incerto, a terminarmos como solitárias moléculas dementes ou a renascermos amorosas sementes…
Até o outro dia, eu vivia em minha cidade Quem caminhava por aquelas calçadas Tinha oito, dez, doze anos de idade Sonhava cantar entre bocas caladas
Queria ser ginasta olímpica ou acrobata Seria bailarina, atriz, cantora e modelo Corria, saltando por sobre o muro do meu castelo Princesa que eu era, moleca, brincava de pirata
Corria de carros e de touros, de gansos e de moços Até que cresci e o perigo começou a me atrair Descobri o poder que tinha de conquistar sem esforços Lançava olhares ao redor, possuía e tinha vontade de partir
E parti em busca de sentimentos profundos e do mundo Vivi amores, senti dores, provoquei desmoronamentos Alcancei o céu e chafurdei no lodo imundo Fui considerada excelente e fomentei lamentos
Eternamente apaixonada e quase sempre apaixonante Capturei vítimas e me vitimei, fui muito amada e muito amei Na curva da rua a menina que fui não mais ouviu o vento sussurrante Deixou de subir em árvores e de ouvir respostas que clamou
Envelheci ao encontrar o meu amor definitivo? Ao sentir que pertenço a alguém, deixei de sonhar? O meu corpo, compartilhado, se sentirá permanentemente cativo? Por que, em vez de certezas, agora só tenho o que perguntar?
Fim de tarde, o rabo do sol se escondia por entre as árvores, criando sombras e formas inusitadas. Passávamos o final de semana no sul de Minas, região em que as linhas retas não compareciam no cenário, a não ser pelas linhas do chalé e por furtivos fachos de luz por entre os montes, feito show de rock. Eu e um grupo de amigos, decidimos ficar nesse recanto afastado para um contato mais íntimo com a Natureza. Acendemos o fogo da lareira e quatro lampiões e saímos para caminhar um pouco até uma pedra mais elevada para ver o entardecer, 250 metros acima.
Passados uns 20 minutos, a escuridão baixou quase que instantaneamente. Ficamos cegos, a não ser pela luzinha vinda do cabana, como se fosse uma estrela fora do céu. Por iniciativa aprovada por todos, havíamos deixado os celulares na cabana. Percebemos que não havia sido uma boa decisão. Quisemos ser naturalistas sem saber que a Natureza tem regras que fogem ao conhecimento de gente da cidade.
Fora tudo tão repentino que de início não nos demos conta de que estávamos num mato sem cachorro. Brincamos com negrume do ambiente e sobre a possibilidade de começarmos a sentir o toque de bichos estranhos a envolverem nossos corpos. Para não passar a sensação de que estivéssemos perdidos, decidimos nos sentar no vazio até encontrarmos o chão. Agora estáveis, começamos a especular sobre o que faríamos.
Éramos como crianças sem pai nem mãe. O frio começou a aumentar de uma hora para outra e a ansiedade pouco a pouco surgiu, evidenciado pelo tom de voz cada vez mais alterado. Seis adultos ̶ três casais ̶ perdidos no nada, indecisos se deviam ou não empreender a jornada de volta, curta mas perigosa pela irregularidade do caminho. Até vermos uma luz bruxuleante saindo do chalé e vindo em nossa direção.
̶ Aqui, aqui, aqui! ̶ gritamos todos.
Era Ricardo, o filho de sete anos do Arnaldo, que ficara na cabana, brincando. Ao escurecer, o menino deve ter percebido que demorávamos e quis nos encontrar com a bravura que toda criança tem e falta a muitos adultos. Empunhava um dos lampiões e caminhava resoluto. Arnaldo e Tatá, com a aproximação do filho, foram abraçá-lo. O resto de nós, pulamos feito seus companheiros de escolinha. Nós nos achegamos uns aos outros o suficiente para que o lampião erguido por Arnaldo nos cobrisse de luz amarela. Nesse instante, pude perceber o quanto estava apaixonado por Clara, com as linhas do rosto fracamente esmaecidas sob o caminho de estrelas.
*Texto produzido por ocasião do Curso de Narrativas Na Primeira Pessoa, por Lunna Guedes.
É muito comum que eu olhe para o alto. As nuvens, as busco como se fosse um mago a prefigurar em suas formas agouros de desgraças ou presságios de boas novas. Mas não infiro nada. Apenas sou apaixonado pelas transições dos vapores d’água de elefantes para personagens históricos, baleias para dragões. Quando as nuvens escurecem – eventual prenúncio de tempestade – raios podem vir a riscar o firmamento-campo-de-batalha da Natureza. No entanto, a abóboda sob a qual caminhamos, também poderá surgir em monocromático azul celeste, de indecente nudez, como esta tela que registrei em um março ainda incrédulo da borrasca pela qual passaríamos adiante.
Azul celeste
Além do céu, busco o chão. Caminhante da metrópole, o cinza impera nas vias ou leitos carroçáveis (termo advindo dos tempos das carroças) pelos quais passo. Sou pedestre e onde moro costumamos caminhar a pé pelas rotas dos automóveis. É uma tradição que conheço desde que surgiu o primeiro asfalto no bairro. O rio cinzento só não é totalmente monocromático porque buracos surgem recorrentemente. Poucos metros se afiguram tão perfeitos como o que mostro aqui.
Cinza asfalto
Para quebrar um pouco a monotonia das portas metálicas, uma loja da Praia Grande, cidade onde fiquei isolado uma parte da Quarentena, decidiu chamar a atenção com um lilás chamativo que apenas foi vislumbrado tão fulgurante porque estava fechada. Era o início da restrição no funcionamento de pontos comerciais e empresas. Normalmente, o belo campo de lavandas metálico ficaria menos expressivo se estivesse recolhido à luz do dia.
Lilás lavanda
No bairro de Cidade Ocian, a prefeitura da Praia Grande pavimentou as ruas centrais com tijolinhos vermelhos. Ao som de “GoodbyeYellow Brick Road” na cabeça, viajei na possibilidade de ver Dorothy, com Totó ao seu lado a caminhar junto ao Leão, o Homem de Lata e o Espantalho. Ela caminhava entoando “Over The Rainbow” a caminho do mar, em direção ao Netuno e seu tridente. Uma faixa de luz do sol, por um breve instante, atendeu à imaginação do garoto que retornou ao lugar em que foi mais feliz.
Vermelho tijolinho
Ouvi várias vezes o termo “verde de raiva”. Para mim, se há verde, há esperança. Desejo firmemente que o verde um dia se espalhe por nossos solos a perder de vista. Quando a vingança do verde prevalecer, talvez tenhamos alguma chance de sobrevivermos a nós mesmos.
Verde esperança
A ausência de cor, também é uma cor. Ao contrário do branco – síntese de todas as cores – sem o campo escuro que se estende sobre nós, à noite, não poderíamos distinguir as luzes das estrelas, a Lua ou outros planetas. A escuridão parece esconder segredos e nos impulsiona a criar seres fantásticos onde somente imperam nossos fantasmas. O preto é paz…