B.E.D.A. / Projeto 52 Missivas / Não Sei Se Irá Chover Ou Não

Minha cara,

nestes tempos, nunca estive tão ciente de uma afirmação que assumisse a plena ignorância sobre algo. A moça do tempo “marcou” para esta sexta-feira a chegada da água vinda dos céus, feito promessa, dessas que fazemos sem saber que se cumprirá. Como estou escrevendo esta missiva na noite de quarta, não cometeria a fraude intelectual de editar o texto para caber em algum argumento. O que estou percebendo é que cada vez menos as previsões sobre o tempo têm sido acertadas e o erro é, basicamente, humano. Ou porque a metodologia não tem sido a correta ou porque o que servia antes para nos alertar sobre os movimentos do clima está sofrendo alterações pela intervenção humana no bioma.

Eu amo a chuva! Principalmente aquela que eu costumo chamar de criadeira. Essa palavra, que no Português não tem no masculino, é perfeita em si. Esse tipo de chuva é aquela que cai forte e precisa no tempo-quantidade adequado, como se fosse um grande regador que ajuda a fecundar a terra, faz brotar as sementes e nesta cidade imensa lava o piso do quintal, banha os edifícios do Centrão, limpa as calçadas da Paulista, umedece o asfalto das Marginais, não inunda as várzeas e não faz desmoronar as encostas das ocupações precárias e irregulares da Periferia. Quem da janela a vê cair percebe sua cadência, admira a sua energia aquosa e seu tamborilar ritmado sobre os telhados. Deixa um beijo nas folhas das árvores conferindo um brilho especial a esses seres fascinantes.

Quando eu era menino, jogador dos times do bairro nos campos de várzea, quase sempre sem gramado, adorava jogar quando chovia. Chegava em casa sujo de lama e de alma lavada. Nada nos impedia de continuar a partida. Sempre mais importante que nossas vidas por eventuais raios que pipocassem. Sabíamos que os trovões anunciavam que o raio já havia caído. Fim de perigo.

O tempo seco não prospera apenas no meio ambiente. Vejo as pessoas passo a passo a transportarem essa secura para dentro de si. Seus interiores ressequidos sofrem com a escassez da chuva criadeira. Temos vistos plagas desertificadas nas quais caminham seres desumidificados. Sequiosos pelo poder emitem palavras secas, conflagram falas estéreis, reproduzem histórias áridas. Temo que se o chão vier a abrigar algum líquido será o do sangue que jorrará dos habitantes nas veias abertas das urbes e dos campos. Sinceramente, espero que essa previsão de homem inconformado do tempo não se cumpra.

Participam do B.E.D.A.:
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Darlene Regina
Roseli Pedroso
Lunna Guedes
Adriana Aneli

#projeto52
Anna Clara de Vitto – Mariana Gouveia – Lunna Guedes
Roseli Pedroso – Suzana Martins

Acordo No Céu

Céu

A Natureza vive de nos envolver em brincadeiras
Das calmarias às ventanias de arrancar bandeiras
Nos transporta da estabilidade ao chão fendido
Do acolhimento da sombra ao tronco retorcido

Da temperança do ar à sobrevinda do cataclisma
Da sucessão das estações ao desarranjo do clima
Do calor seco do Saara ao frio da gélida Antártida
É raro a temperatura se apresentar sempre tépida

É como se fora as desventuras do amor e da paixão
Um, o ambiente é a Terra; outro, o lugar é o coração
Hoje, a raridade se fez regra – houve um acordo no céu
Uma trégua no calor, no furor, a fazer duvidar o incréu

Descia suave cortina de chuva enquanto reluzia o sol
Era o entardecer a me oferecer mais um tema de escol
Pássaros cantavam, abelhas bebiam doce vida da flor
Um final de luz natural que carregarei para onde for…

Sentires

Sentires

Em determinado momento, ela diz que está com ciúmes de mim. Contraponho, um tanto sarcasticamente, que a palavra correta é “ciúme”. É um sentimento. Que não sentimos ódios de uma pessoa, apenas ódio. Ela refuta que, a depender de quem se trata, sente ódios, mesmo.

A sua última resposta me faz refletir sobre o que até então propunha como certo – a unicidade dos sentimentos. Logo, me vem à cabeça “ O Quereres”, de Caetano, cuja letra coloco como divisa de identidade, para desespero de quem gostaria que eu fosse assertivo como um machão e convicto como um louco. Quando, na verdade, sou apenas um macho convicto de minha loucura terçã…

Há pouco, ouvi de alguém: “ando com saudades…”. Foi algo tão doce que não refutei, mesmo porque já havia percebido que, contrariamente ao que pensava antes, é possível sentir ódios, felicidades, amores, alegrias, saudades, desprezos, ciúmes, esperanças…

De alguma maneira, cada um dos sentimentos apresenta gradações e dimensões. Sentimos maiores e menores felicidades, mais rasas e mais profundas alegrias, mais rasgados e mais brandos desprezos, muitas esperanças, ódios mais intensos e odiozinhos apenas pontuais, assim como existem amores e amores…

Seria interessante perguntar que tipo de ciúmes ela estava a sentir por mim: aquele pontiagudo, que fere o peito sem consolo, por sentir o objeto amoroso longe de seu raio de influência ou aquele protocolar, que surge ao ver a quem ama não pensar o tempo todo nela ou nele, manifestado quase como uma obrigação? Pode-se conjecturar que quaisquer ciúmes, o maior e o menor, dizem respeito a possessividade. Quem ama e é amado quer pertencer e ser pertencido a quem ama, em sua versão passional.

Saudades, então, sentimos tantas… maiores ou menores, longas – a caminhar conosco por toda nossa vida – ou breves, como lufadas de vento matinal que nos deixam melancólicos até o primeiro gole de café… Costumo dizer que saudade é como se fosse presença na ausência. Está lá no horizonte como paisagem a nos lembrar dos outros em nós a cada raiar do sol, a cada chuva no quintal de terra seca, a cada beijo da lua em nossa face cada vez mais envelhecida. Em muitos, a saudade é um sentimento tão pleno que cada hora a menos de vida é uma hora mais próxima de reencontrar quem ficou pelo caminho…

Nesse caso, há muito amor envolvido. Amor que ultrapassa tempos e vidas. Diferente de amores que sentimos eventualmente por seres que atravessam nossos olhos, a refletirem, na verdade, o amor que desejamos dar. Acabam por se tornarem tristezas, porque foram alegrias que se consumaram em cinzas – amores que sentimos um dia, mas que custamos a acreditar como amamos tanto…

Esperança… Como escapar de esperar que tudo seja melhor? Uma só esperança não basta. A maioria dos seres humanos só respira porque é feita de esperanças. Porque a cada momento que passa por uma frustração, renasce mais uma esperança. A esse mal, eu busco renunciar. Resolvi não ter mais esperança – simples assim. Não quero me desesperar – nem esperar. No entanto…

O mais triste – oh, tristezas! – é que esperamos ter certeza completa sobre os sentimentos dos outros por nós. Ou talvez isso faça parte de uma de nossas alegrias. Mesmo porque a dinâmica de nossos sentimentos é cambiante como foi o clima de outubro em São Paulo – além do natural, o mental, por causa das eleições. Ademais, a depender de como avaliamos nossos sentimentos, é comum nos enganarmos quanto a complexidade dos mesmos. Como quando dizemos que odiamos alguém – é quase como declarar que a amamos, de uma forma diferente – as homenageamos, no mínimo.

Dentro de nós misturam-se complexas gamas de sentimentos. A sinceridade em saber identificá-los é um caminho libertador. Nos tornamos melhores, admirações à parte. Ainda que eventualmente nos sintamos piores ao reconhecermos invejas, rancores, orgulhos, avarezas, possessividades a guiarem nosso comportamento. Aceitarmos nossos mais baixos sentires, ainda que a princípio os refutemos – é uma questão de fidelidade (sem plural) a nós mesmos.