Uma Mulher

Até o outro dia, eu vivia em minha cidade
Quem caminhava por aquelas calçadas
Tinha oito, dez, doze anos de idade
Sonhava cantar entre bocas caladas

Queria ser ginasta olímpica ou acrobata
Seria bailarina, atriz, cantora e modelo
Corria, saltando por sobre o muro do meu castelo
Princesa que eu era, moleca, brincava de pirata

Corria de carros e de touros, de gansos e de moços
Até que cresci e o perigo começou a me atrair
Descobri o poder que tinha de conquistar sem esforços
Lançava olhares ao redor, possuía e tinha vontade de partir

E parti em busca de sentimentos profundos e do mundo
Vivi amores, senti dores, provoquei desmoronamentos
Alcancei o céu e chafurdei no lodo imundo
Fui considerada excelente e fomentei lamentos

Eternamente apaixonada e quase sempre apaixonante
Capturei vítimas e me vitimei, fui muito amada e muito amei
Na curva da rua a menina que fui não mais ouviu o vento sussurrante
Deixou de subir em árvores e de ouvir respostas que clamou

Envelheci ao encontrar o meu amor definitivo?
Ao sentir que pertenço a alguém, deixei de sonhar?
O meu corpo, compartilhado, se sentirá permanentemente cativo?
Por que, em vez de certezas, agora só tenho o que perguntar?

Corpo Presente / Posições

Corpo presente…

Tirante o pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente…

Posições…

Tudo o que nomeamos, discriminamos, classificamos, justificamos, estabelecemos como tal o que é, seja lá o que for. Passar por cima do que está estipulado como líquido e certo, atravessar o significado das estruturas fixadas pelas palavras não é fácil. O Sol, a Lua, o dia, a tarde, a Terra, a manhã, as horas, os minutos, o Tempo, os segundos, o sexo, o homem, a noite, a mulher… É o Sol que se põe? É a Terra que se move? Quem come quem?…

A Rainha Louca

A loucura não era pouca.
Ele,
tomado de amor,
vibrava em jatos.
Ela,
gemente de paixão,
terminava em prantos…

Dos lençóis revolvidos,
surgiam unidos
em corpo, suor e sangue.
As almas,
abandonando a ambos,
esvaíam-se pelos poros…

Os fluídos,
em escambos,
formavam um rio de odores
doces
e cruas dores…

Quando se despediam,
era como se fosse o último
encontro.
É como se acabasse
o mundo.
Como se fechassem os portais
do tempo.
Como se cessassem a contagem
das idades.
Como se inaugurasse o Templo
da Saudade…

Até o próximo
quarto de Lua.
Até se abrir a porta
do próximo quarto.
Até a entrega
do próximo beijo.
Até a consumação
do imenso desejo.
Até que ele se entregasse
em exaustão à rinha,
até que ela incorporasse
a Louca Rainha…

Outra Dimensão*

O meu amigo desde garoto, Beto, me convidou para o tradicional futebol de domingo de manhã. Eu joguei com ele e outros amigos durante anos seguidos, mas há uns treze que já não frequento os campos de society com a turma. Normalmente, quase na mesma hora que teria que ir jogar, estou a voltar dos eventos nos quais trabalho. Quando mais jovem, até aguentava o tranco, quando não havia outro evento no mesmo dia. Com o aumento da demanda e com o acréscimo dos anos às costas, ficou cada vez mais difícil conciliar trabalho e prazer, ambos cansativos fisicamente. E o que os diferenciava? No trabalho, se deslocar, descarregar, montar, ajustar som e iluminação, fazer a passagem do som e encontrar colegas talentosos no canto, na dança ou narração. O que não deixava de ser prazeroso, porém se revestia, como principal característica, do dever a ser cumprido da melhor forma possível. Naquela época, não conseguia relaxar tanto quanto hoje, em que consigo me divertir até com a função de subir os equipamentos até segundos ou terceiros andares dos salões, muitas vezes sem elevador.

No futebol, o corpo sofria o estresse por correr, se alongar, se contrair, se atirar para executar um movimento mais amplo, saltar mais alto para alcançar a coisa mais desejada da vida naquele momento – a bola. Durante o tempo de jogo, nada acontecia fora das quatro linhas. Não que se esquecesse de todos os problemas do mundo. Simplesmente, não havia mundo fora dali. No futebol, as regras externas se diluíam, não havia diferenciação social ou qualidade física que não fossem superados pelo talento no jogo. O office-boy, o estoquista, o microempresário ou o dono de posto de gasolina, em boa forma física ou acima do peso visavam conseguir, juntos, trocar passes, se movimentar, defender a sua meta e marcas gols no adversário. Todos desejavam, juntos, congregar e chegar à vitória. Caso contrário… Bem, perder também faz parte do pacote. Quantas vezes não se valorizaram mais a derrota bem jogada contra um timaço do que a vitória “mamão-com-açúcar” contra um time “meia-boca”?

A linguagem usada no campo de futebol também se tornava alternativa e restrita. O vocabulário se restringia a dez ou doze palavras e poucas expressões, sempre acompanhadas das indefectíveis (me perdoem) “porra” e “caralho”. Essas palavras tanto podiam ser usadas como substantivo ou adjetivo, além de servirem eventualmente como pronome. Sempre houve muita discussão e entreveros entre nós e os adversários e entre nós mesmos, que se encerravam depois que saíamos do campo e íamos para o bar comer porcarias e beber umas (várias) cervejas. Bem, eu nunca bebi álcool, mas participava do grupo com as minhas opiniões “papo-cabeça” acompanhadas de uma legítima Coca-Cola na garrafa de vidro (a melhor!).

De vez em quando, as mulheres e namoradas acompanhavam alguns jogadores, mas, na maioria das vezes ficavam à margem do grande evento, a tratar de assuntos que não tinham nada a haver com o que acontecia dentro do campo. O sacrifício que deviam fazer em acompanhar os seus parceiros devia ser comparável ao do deles em acompanha-las às compras. Hoje, teríamos um churrasco depois do jogo. Eu não poderia ficar porque tinha coisas a fazer, mas não sei se ocorreu realmente o congraçamento, já que o sujeito que trouxe a carne e os acompanhamentos, brigou com o pessoal por não ter sido colocado no time e parece que foi embora antes do final da partida. Infelizmente, no intercâmbio de dimensões, um mundo acabou por invadir o outro…

*Texto de 2013

Mundano

Hoje, aniversario. Completo 59 anos desde que vim à luz do Sol. Não queria sair do conforto do mundo em que vivia — quente líquido em que me banhava e me alimentava de amor. Estava invertido, brincando de percorrer o meu espaço. Após ao procedimento da fórceps, fiquei em uma incubadora por alguns dias. Bem cedo, o menino que fui preferia ficar a um canto desenhando ou vendo TV. Após me alfabetizar, “perdia” horas lendo qualquer coisa que caía em minhas mãos. O futebol era a única coisa que me salvava de ficar parado-isolado. Por essas e por outras, por anos a fio, o meu pai dizia que eu era tão preguiçoso que até nascera sentado. Homem de natural talento manual, ele não compreendia a minha incapacidade nesse campo, excetuando desenhar e fazer pequenas esculturas em barro. Dizia que prendia as coisas com barbante e colava com cuspe. Se fui assim tão sarcástico com vocês, minhas filhas, me perdoem.

Até os 12 anos, eu era impetuoso e brigão. Na dura vida de menino que não era muito grande, nos entreveros com os outros garotos, batia primeiro e perguntava depois. Quando mudei de escola e de iniciei novos relacionamentos pessoais, decidi mudar a minha atitude de impor respeito pela violência, herança indireta do Sr. Ortega na minha criação. Comecei a tentar empreender o caminho inverso. Se quisesse ganhar o respeito de alguém, não seria pela força. Ao mesmo tempo, iniciei um processo de internalização quase irreversível. Quase que paralelamente, fui ficando cada vez mais míope e a minha personalidade ganhou óculos.

Ainda que tenha sido batizado e feito a Primeira Comunhão, não abracei o catolicismo. Após uma fase ateísta, me tornei franciscano. Sei que São Francisco me permitiria essa rebeldia. Ele mesmo se rebelou contra o que era imposto como regramentos que o impediam de vivenciar o que o seu coração mandava. Homem do mundo, foi transformado pelas experiências do mundo. A violência, a fome, a precariedade da vida, todas essas facetas vividas enquanto servia em uma das guerras de ocasião, o transformaram. O herdeiro de família rica, começou a se conectar consigo mesmo, a se abrir para as coisas tangíveis e intangíveis, a ouvir vozes interiores e exteriores — expressões para quais normalmente fechamos os sentidos d’alma, ainda mais quando estamos embotados pela materialidade. Francisco teve coragem para empreender a viagem mais árdua, àquela que quando se inicia, não há volta — ser pequeno.

Um dia, pensei em seguir o seu caminho. Desejei seguir os mandamentos da Igreja para tal percurso. Fiquei dois anos sob orientação. Cheguei a visitar um seminário franciscano que me influenciou de maneira decisiva. Gostei do ambiente, dos estudantes, dos objetivos propostos, mas… ainda mantinha dúvidas sobre qual sentido seguir. Lá mesmo, em um canto dos muitos corredores do prédio, estava uma maquete que mostrava os vários caminhos para chegar a Deus. Um desses caminhos era a formação de família.

Eu tinha 26 anos e desde os 16 havia enveredado por uma profunda religiosidade, que não respeitava limites doutrinários. Estudei o Cristianismo, o Maometismo, o Hinduísmo, o Budismo, as demais filosofias orientais, as crenças africanas e tudo mais que dissesse respeito à transcendência do corpo e proeminência do espírito. Constituí uma amálgama de crenças que só fazia sentido para mim. O que fizesse o meu coração bater mais forte, a isso eu me identificava. Percebi que a Verdade tem muitas facetas, tal qual um diamante que reflete uma luz diferente a depender da forma que a luz o toca.

Naquela altura da minha vida, eu estava dividido entre a vida monástica e o conhecimento do mundo que havia rejeitado até então — a familiar. Sabia que enfrentaria grandes obstáculos para manter o controle sobre a minha sanidade ao escolher tanto um quanto outro caminho. Hoje, depois de estabelecer uma profissão, conhecer a minha companheira, Tânia; conceber as minhas três filhas — Romy, Ingrid e Lívia — construir uma casa, cuidar de cães, passarinhos e plantas – formei um lar.

É um desafio constante manter o equilíbrio entre tantas demandas pessoais, profissionais e a paixão pela escrita, mas creio que tenho caminhado cada vez mais para dentro de mim na senda do autoconhecimento e para fora do meu próprio corpo, agregando pessoas em meu entorno. É como voltar da guerra todos os dias e me metamorfosear. Sei que sou, fundamentalmente, um franciscano em meu procedimento. Desde que ouvi o chamado de Francisco de Assis, nunca deixei de ser, idealmente, um frade menor sem hábito…