BEDA / Scenarium / Inteiro Ou Partido*

Inteiro Ou Partido
Divagações à sombra de uma mangueira, da qual espero ver os frutos madurados.

O meu amigo Ivan Rocha passou de “noivo” para “solteiro” no Mural do Facebook. À propósito do fato divulgado de maneira tão direta em seu perfil, comentei: “Ivan está só, está ao sol, está inteiro, está solteiro!”. Ao que ele lembrou que uma vez, de forma similar, brinquei com a palavra “amortecedores”, destacada na propaganda de uma oficina mecânica: “É, o amor tece dores”… À parte o encontro de rimas forçadas ou significados ocultos no que dizemos ou vemos escrito por aí, divaguei à respeito da primeira montagem.

Estar só é estar inteiro? Quando estamos com alguém em realidade nos dividimos. E por que sentimos essa necessidade de sermos apresentados em duas partes? Se somos inteiros em nossa unidade, por que queremos encontrar completude em outro? E se queremos nos completar em outro, que força poderá manter unido um casal, além da ilusão do amor? Em se considerar o amor algo ilusório. Sempre haverá alguém  que considere o desejo ou a paixão como sendo amor, se iludindo que queira unir-se a outro ser pela força dessa ilusão. Quando descobrimos ser só isso e a atração se esvai, o que antes era inteiro, nos deixa partidos, até… juntarmos os cacos, nos fazermos inteiro para depois sermos atraídos para nova partilha.

Bem… como eu disse, são divagações…

*Texto de 2011

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

Freud E Madame Lília

Freud

Em abril do ano passado, Lunna Guedes, mentora e editora da Scenarium Plural – Livros Artesanais, incumbiu alguns de seus escritores a criarem “mosaicos”. Consistia em montar (escrever) cinco textos (tesselas) individuais que deveriam montar painéis ou histórias completas que comporiam uma publicação coletiva chamada Mosaicum, que efetivamente acabou por ser lançada em junho de 2019.

O tema proposto deveria girar em torno da seguinte premissa: tenda cigana – leitura das mãos. Lunna a formulou após a leitura de “A Cartomante”, de Machado de Assis. O mosaico criado por mim veio a se chamar “Freud E Madame Lília”, dividido em quadros e títulos como Inconsciente e Desejo, por exemplo. Versava sobre o improvável e tórrido romance entre o criador da psicanálise e uma vidente cigana (de olhos verdes como os da bela Ella Rumpf) na Viena do final do século XIX. Como pareceu a seus pares contemporâneos, quando surgiu com sua teoria, coloquei Freud envolvido com conceitos que beiravam a magia ou bruxaria. As duas personagens, frente a frente, como a completar parte da equação ainda pouca explorada da visão biopsicossocial do ser humano, acabaram por levar suas experiências pessoais à máxima integração, incluindo a energética-química-sexual.

Freud 1

Se alguém acha que o enredo que produzi é muito parecido ao da série lançada no Brasil em 23 de março deste ano – Freud – pela Netflix, saiba que não terá sido o único. Quando citei o fato para minhas filhas, Romy e Lívia, muito ligadas às questões de mídia atual por contingências profissionais, mostrei o texto (que publicarei abaixo neste espaço). Tirante as viagens alucinógenas da série, elas começaram especular sobre um possível plágio. Além das características físicas da vidente, algumas das personagens, por efetivamente terem feito parte da vida de Freud, são replicados, como o Dr. Breuer, seu amigo e Martha, sua esposa. Eu contrapus que cria que as ideias estão no ar. Funcionamos como antenas a captar e emitir vibrações. Dadas as características da escrita machadiana, de viés psicológico por quais enveredava, mesmo nas incursões anteriores aos livros mais conhecidos – como “Quincas Borba” – imaginei colocar o tema do inconsciente em contraponto ao ocultismo.

No entanto, no mundo globalizado em que vivemos, as ideias circulam muito mais rapidamente através de incontáveis meios de divulgação. As treze edições produzidas e publicadas em junho de 2019 podem ter dado volta ao mundo tanto quanto um tweet inconsequente. Ou não. Da qualquer maneira, é muito estranho me sentir plagiador de uma história que publiquei antes da obra plagiada. Ao final de tudo, pelo menos, ganhei pontos com as minhas crias por perceberem que “minhas” ideias têm potencial de serem roteirizadas pela Netflix.

Freud 2

FREUD E MADAME LÍLIA*

(inconsciente)

Sigmund ficou intrigado quando soube por um conhecido que uma cigana havia predito o que ocorreu com um amigo em comum, que faleceu. Interessado em conhecer como se dava esse estado de sonho consciente que revelava fatos futuros e não os passados-enterrados no inconsciente, se dirigiu ao acampamento da comunidade zingara, fora da cidade. Passou por entre crepitantes fogueiras frontais às diversas tendas e foi encaminhado à de Madame Lília.

Encontrou uma fila onde estavam outras dez pessoas bem vestidas… usando echarpes que cobriam os rostos naquele verão vienense especialmente quente. Sentindo-se tão desconfortável quanto um dos pacientes que descobria desejar o pai ou a mãe, esperou por três horas até ser chamado adentrar ao ambiente estranhamente maior do que parecia por fora. No fundo, sentada à mesa, uma mulher de grandes olhos verdes, tão brilhantes quanto a luz abaixo de seu rosto, envolta numa aura nublada-olorosa.

(desejo)

Sigmund, inesperadamente ansioso, apesar de não demonstrar fisionomicamente, não saberia dizer o que mais o impressionou ao passar pela abertura – a atmosfera onírica, a luz que vertia da bola de cristal ou a própria Madame Lília. Intimamente, desejou vê-la de corpo inteiro. Assim que se aproximou, ela se ergueu como se levitasse, emoldurada por longos cabelos negros que desciam abaixo do véu colorido preso por uma tiara prateada. Ainda que estivesse acostumado a lidar com muitas pessoas, se sentiu intimidado.

– Senhor Freud? – Madame Lília estendeu a mão em um movimento ondulado como uma serpente prestes a dar o bote. Após tirar as luvas, Sigmund, ao apanhar a mão de dedos diáfanos e macios da cigana, sentiu um frêmito inesperado. Percebeu que sua experiência fora da sala controlada por referências pessoais do consultório o levaria para mais longe do que supôs…
– Como desejou, Sigmund Freud… Sei que desejava muito me encontrar…

(hipnose)

Sigmund olhou diretamente para a boca de intenso vermelho que o chamou por nome e sobrenome. Hipnotizado-nocauteado pelo sorriso sedutor daquela entidade, ouviu dela:
– Chegue mais perto – convidou, indicando a cadeira em frente à mesa iluminada.
– Alguém me anunciou? Não me lembro de ter dito à senhora o meu nome…
– Por favor, me chame de Lília… Eu o esperava há algum tempo…
Tentando não parecer desconcertado, Sigmund logo a inquiriu sobre o amigo morto:
– Soube que previu o que aconteceria com o meu colega, Ernst von Fleischl-Marxow…
– Qualquer um mais atento saberia o que estava por vir se ele continuasse a abusar daquela substância…
– Com efeito, Ernest ultrapassou os limites…
– São novos caminhos… Acidentes de percurso.
– A Senhora o conhecia?…
– Quando visitei o Futuro, percebi o quanto seria importante no caminho desbravador que você trilhará. Seu trabalho libertará pessoas…
– Enxerga isso na sua bola de cristal?
– Sonhei… Sonho confirmado quando o toquei…

(O Judeu E A Galega)

“Segismundo Schlomo Freud” – dizia baixinho para si, tentando recuperar o controle daquela situação tão desiquilibrada quanto via acontecer nos manicômios que frequentara.
– Meu interesse é buscar cura para meus pacientes, Madame Lília!
– Falo em libertar a mente… – A voz de Madame Lília era profunda como o mar e harmoniosa, como o canto do rouxinol. Seu olhar parecia uma clareira verde no meio da escuridão. Prosseguiu:
– Sei que sabe do que digo. Prossiga com seu trabalho. A palavra é o caminho… O Verbo é o princípio e o fim. Seu povo viveu e morreu pela palavra. Ela nos forma e nos liberta… Meu dito, meu feito…
Sigmund já ouvira de seu pai aquele dito galego…
– Meu amigo Breuer tem conseguido resultados interessantes à base de diálogos. Estou desenvolvendo um método referenciado.
Respirou profundamente e disse:
– Não consigo explicar você, Lília… Quero encontrá-la à luz do dia…

(sonho)

Viena, 1890 – Sigmund e Lília – se encontravam de dia em cafés e restaurantes discretos. As noites terminavam em quartos de hotéis afastados. Nunca antes tal consciência que corpos pudessem vibrar tanto quanto os seus, quando unidos. Além do sexo ultra real, conversavam sobre o sentido das lembranças e a improvável percepção do futuro – benção maldita – segundo Lília. Ela revelou que haveria grandes guerras. Que a evolução material seria incrível, mas que se tornaria uma prisão. As pessoas prefeririam a realidade virtual à real – desejo de sonharem acordadas. Versaram sobre estados mentais, a importância do inconsciente, psiquismo – termos que ela sabia expressar e valorizar. Os dois sabiam que um dia acordariam. Para Sigmund, o despertador foi Martha, dizendo-se abandonada com os dois filhos pequenos. Quando, de coração partido, decidiu terminar tudo e dizer adeus, não encontrou mais o acampamento dos ciganos… Confuso, perguntava-se se Lília não teria sido um sonho…

*Texto pertencente ao projeto coletivo Mosaicum, lançado pela Scenarium Plural – Livros Artesanais, em junho de 2019.

BEDA / Scenarium / O Vírus Do Amor

Vírus

Moravam no mesmo andar do antigo edifício. Velhos conhecidos por olhares, pouco se falavam. Os jovens, filhos do interior, vieram para São Paulo para estudar. A instauração da Quarentena foi apenas mais um capítulo na marcha de acontecimentos. A súbita decisão governamental pelo isolamento social os encontrou hesitantes entre ficarem ou retornarem às suas famílias. A capital apresentava o maior número de casos e, receosos que pudessem eventualmente infectar pais e avós, decidiram ficar. Tudo isso foi tema da primeira conversa mais longa que tiveram, a voz meio difusa pelo uso das máscaras. Iniciada no elevador, continuou no corredor junto às portas de seus apartamentos, com a distância protocolar.

Surgiu uma conexão imediata entre os dois desgarrados. Estabeleceram o hábito de conversarem postados nas respectivas varandas, em entardeceres ultrajantes de tão belos, espraiados em céus outonais-vanilla–sky. Certa noite, madrugada silente, ele a ouviu chorar. Tiago chamou por Ana. Não obteve resposta. Bateu na porta da vizinha. Ao abri-la, se derramou em seus olhos avermelhados e inchados. Indo contra os protocolos, dispensadas as palavras, se abraçaram. As bocas se procuraram. As línguas caladas-eloquentes trocaram saliva e sorveram prazer. Desobedientes civis, mergulharam sem máscaras no desejo um do outro. O amor a iluminar a noite, virulento. Sentiram-se eternos.

Revezavam os leitos, alastrando ambos os apartamentos do fogo da paixão e da alegria da entrega. Camas e lençóis, contaminados de seus joviais fluídos, refletiam as primeiras luzes da manhã em composições cada vez mais inauditas de corpos entrelaçados. Apesar do sofrimento coletivo, os dois quase abençoavam a quarentena que os uniu. Planos para o futuro naturalmente surgiam em meio a longas conversas e beijos amiúde. Ainda assim, omitiram das respectivas famílias o encontro proibido. Esperariam tudo passar para que não ficassem aflitos com os jovens amantes. Por isso, os pais de ambos receberam com surpresa a notícia da internação dos filhos como sendo um casal de namorados com insuficiência respiratória.

Os jovens não apresentavam tosse. A febre confundia-se com o calor que geravam na sofreguidão do amor. O mal estar se instalou quase ao mesmo tempo. Preocupados um com o outro, procuraram os postos de saúde. Lotados. Devido ao fato de serem jovens, foram dispensados. Voltaram para casa, cansados e ofegantes. Quando pioraram, pediram ajuda ao porteiro que chamou a ambulância. Permaneceram intubados por alguns dias e vieram a óbito com um intervalo pequeno entre as partidas. Entre tantas mortes, a história dos estudantes apaixonados passou despercebida, a não ser entre os habitantes das pequenas cidades de onde vieram.

O País, enlutado, ainda teria que passar por outras tragédias – resultantes de uma doença incubada dois anos antes.

BEDA / O Desamado

DESAMADO
Amanhecer fogoso…
O sol assoma no horizonte,
impetuoso…
fulgurante…
No entanto, para o desamado,
os seus raios não apenas queimam,
mas penetram, feito adagas,
a golpearem o seu corpo cheio de chagas…

Aturdido, o desamado
não compreende como pode tanto amar
e se ressentir tanto
de quem ama…
Padece por estar longe…
Quando por perto, é repelido
e sofre por ver seu amor desperdiçado…

A quem ama,
também o amou…
Ou talvez ainda o ame…
Mas viveu outras histórias de paixão
que machucaram o seu corajoso coração,
tão bravo que insiste em se apaixonar de novo…
Precisa se sentir plena e ímpar,
não apenas distinta entre todas,
mas única e soberana,
feito uma leoa na estepe…
Qualquer olhar lateral a faz desconfiar,
a remete às presas fendidas,
às paixões perdidas…

Como defesa,
prefere boicotar o amor,
substituir a sofreguidão pelo corpo do amado
por outro vício –
cigarro, bebida, sexo sem sentido, qualquer droga…
Afastar o desejo por aquele que a fere sem querer –
o triste desamado, que naufraga
em sua santa ignorância
inepta e juvenil…

Transformação

Transformação

A metamorfose se deu, de início
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta –
da flor ao céu –
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente –
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…
As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.

Quebradas as barreiras –
distâncias de centímetros-quilômetros –
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jekyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman –
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…