BEDA / Dos Perigos De Viver

Cajueiro
Cajueiro

Em canção dos Anos 70, que conheci na voz do imenso Wilson Simonal, ouvia: “Papai, mamãe não quer que eu suba no cajueiro. Ela falou se subir eu caio da galha do cajueiro…” (Galha do Cajueiro). Subir em árvores era um perigo, com certeza, mas nenhum garoto deixava de abraçar troncos e agarrar galhos para se posicionarem mais alto e melhor para pegar uma fruta. Fazia parte da formação do repertório de movimentos que a liberdade daqueles dias permitia. Tempos de caminhos desobstruídos e campos abertos.

Jogar bola na rua ou em campos de várzea era programa obrigatório, não no sentido de obrigação, mas de prazer. Antes ou depois da escola (e no intervalo das aulas), os meninos buscavam o perigo de ralar o joelho, lanhar a canela, bater a cabeça. Nossos impetuosos corações nos pediam que agíssemos como se não houvesse amanhã. No máximo, acalentávamos o sonho de nos tornarmos jogadores de futebol.

Ao crescermos, acrescentamos obrigações nem tão prazerosas. Porém, na mesma canção, há a seguinte passagem: “Me tira, mamãe, me tira, me tira deste castigo. Eu subo naquela galha. Não corro nenhum perigo. Eu quero tirar caju. Eu vendo e ganho dinheiro. Me deixa, mamãe, subir, deixa subir na galha do cajueiro!”. O garoto tem consciência que o dinheiro é a maneira pela qual intermediávamos o desejo pelo objeto e a satisfação do desejo.

Não passava pela cabeça que haveria outro modo em conseguir o que se queria, por maior que fosse a privação pela qual passássemos. Em algum momento, em nosso percurso como País, nos desviamos de nossos propósitos de como obter algum bem. Se pudéssemos adentrar na mente de algum garoto desassistido, certamente a facilidade da vida criminosa será muito mais atraente do que trabalhar pesado para conseguir realizar o sonho imediato de conseguir o tênis da moda ou o celular “da hora”.

Ontem, um rapaz de 20 anos foi morto por estar desatento aos perigos de viver nos dias de hoje. Usava fones de ouvido, escutava as músicas de sua preferência, se divertia após deixar a jornada de trabalho. Era noite, estava no ponto de ônibus. Iria para a casa. Não chegou. Dois rapazes, provavelmente da mesma faixa social, montados em uma moto, o mataram para obter o que conseguiu com seu esforço.

Menino, suba no cajueiro! Viva o perigo de viver livremente! Venda caju! Consiga com o seu trabalho e abnegação os recursos para crescer, namorar, casar, constituir família – viver! Que o presente do País não o impeça de sonhar…

https://m.youtube.com/watch?time_continue=35&v=lJOVBAjRvt4

As Dores Do Mundo*

DORES

Sobre o dia de hoje, 1º de março de 2019 – marcado pela morte por meningite, de Arthur Araújo Lula da Silva, neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que dividiu, acima das ideologias, as pessoas de boa das de má índole, as cordatas das insensatas. Sinto vergonha dos manipuladores de qualquer lado. O texto a seguir é de 2015*.

“Hoje, acordei parecendo sentir todas as dores do mundo –– as veras e as imaginadas, as graves e as leves, as minhas e as alheias. Passei a manhã recolhendo pelo caminho todos os vexames e as humilhações, as penas e as cenas.

Acordei sentindo a dor do homem que sai sem se despedir da mulher que ama porque ela está em outra cama; a dor de ouvir no noticiário matutino criminosos discursando em nome de cidadãos probos; a dor de caminhar até o ponto de ônibus na expectativa de embarcar no cargueiro de carnes no horário exato; a dor de ver o pai do menino especial que deseja ver o seu filho viver a vida escolar normal, enquanto outras crianças não querem acordar para ir à escola ou, muitas vezes, sequer querem acordar… nunca mais…

Hoje, acordei sentindo a dor de me ver dormindo sob a marquise, cercando a minha intimidade sonolenta por velhos guarda-chuvas, momentaneamente improvisados como paredes do meu quarto; a angústia do cão que passa o dia aguardando a volta de meu humano de estimação que saiu para trabalhar; a amargor dos familiares do homem que saiu para trabalhar para não mais voltar; o martírio do garoto tímido que esperava ver a amada passar, atrasando a sua chegada várias vezes no emprego –– que perderá; a aflição da garota que sabe que o garoto a deseja, mas não revela que aprecia o seu desejo; a inadequação do velho no Metrô que ouve pacientemente as asneiras da moça bem mais nova, a desfiar o seu corolário de dores fátuas, apenas para não se sentir só.

Hoje, acordei sentindo a dor da bela moça que tem todos os sonhos do mundo, mas que não consegue levá-los adiante porque o seu fôlego, que se escasseia, a impedirá. A dor da vida que não completa seu ciclo natural –– do avô que perde o neto, da mãe que perde o filho. Hoje, acordei sentindo que poderia abarcar todas as dores do mundo, as veras e as imaginadas de todos nós. Humano que sou, por elas morrerei um dia…”.

Madame

Madame

Don era chefe em uma repartição pública. Sempre simpático, era admirado por seus comandados. Todos apreciavam a sua habilidade em controlar situações adversas. Charmoso, conseguia com sorrisos obter melhores resultados do que a palavra dura usualmente utilizada como traço de comando. Chamava bastante a atenção das mulheres, mas nunca ultrapassou os limites da sociabilidade padrão. Muitas, buscavam atrair o seu olhar. Para Ana, justamente a mais discreta, reservava a sua palavra mais carinhosa. Não foi difícil misturarem as linhas de conexão e se apaixonarem. No entanto, ambos eram casados.

Ainda que não quisessem levar adiante uma aproximação mais íntima, o destino colaborou para um vínculo definitivo ao serem escolhidos para um congresso de gestão pública em Brasília. Longe de casa, o mútuo desejo se fez sentir feito fogo no Cerrado seco. Os dois se surpreenderam por serem absolutamente vorazes no sexo. Casaram seus corpos feito música romântica na voz de Roberto Carlos – o côncavo e o convexo. As jornadas de reuniões e palestras burocráticas eram compensadas por noites de entrega a fantasias sequer imaginadas quando estavam com seus parceiros habituais. Foram quatro dias que se encerraram com lágrimas, antes da viagem de volta.

Combinaram uma agenda de encontros para quando voltassem a São Paulo. Não conseguiriam ficar sem algo que não tinham antes, mas que se tornou absolutamente imprescindível. Descobriram-se maiores, expandidos para além de parâmetros conformes a que sempre obedeceram. O mais interessante é que seus respectivos companheiros também se beneficiaram em suas relações pessoais. A partir daquele momento em diante, os momentos de encontros íntimos ficaram mais prazerosos e aguardados com ardor. Durante os dias de semana, as horas de almoço e finais de expediente estavam reservados aos amantes.

Os bons gestores conseguiram levar adiante suas vidas duplas de maneira discreta, mas com afinco e prazer. Adão, o marido de Ana comemorava intimamente o fogo redivivo de início de matrimônio, sem vincular nenhum outro motivo do que uma fase oportunamente benfazeja. Já, Janaína, esposa de Don, desconfiou de tanta paixão no ato sexual. Gostou bastante da nova versão do homem sempre muito comedido, apesar de carinhoso. Porém, sabia que algo mais estava acontecendo. Nunca foi ciumenta, porém esperou um momento de distração para conseguir acessar o celular do marido e obter as informações que precisava para ter certeza das escapadas de Don.

Mulher bem informada e de opiniões fortes, a palavra “escapadas” formulada antes, seria contestada por ela. Advogada, não considerava a instituição do casamento uma prisão, mas apenas um contrato social, importante para assegurar direitos, apenas. Sabia que quando não houvesse mais condições de continuar um relacionamento sem as mínimas bases de sustentação, o melhor seria dissolver o acordo. Ainda assim, Janaína, carinhosamente chamada de “Madame” por Don, uma brincadeira em contraponto ao nome dele, o amava muito. Percebeu que o encontro dele com a nova parceira o deixara mais aberto e um homem melhor.

Madame deixou aflorar uma fantasia que teve o cuidado antecipar em sua mente antes de a revelar a Don. Não buscou explicação para ela. Somente queria realizá-la. Não sabia como o seu companheiro reagiria, todavia como parecia cada vez mais desenvolto em sua nova faceta, a pediria. Certa noite, Don chegou mais tarde. Exibia o sorriso novo que havia surgido nos últimos tempos, que o deixava ainda mais sedutor. Madame sabia que voltava de um encontro com a outra. Jantaram, e entre goles de vinho tinto, foi direto ao assunto. Disse que sabia que ele tinha um relacionamento com alguém da repartição (jogou verde). Imediatamente, o rosto de Don adquiriu feições que em questão de instantes ora pareciam de surpresa-espanto, ora de pura estupefação sobre a pele de cera.

Casal sem filhos, eram os melhores tios que existiam. O casamento havia chegado naquele ponto em que a estabilidade se confundia com mesmice, marcados por momentos festivos e tristezas pontuais. Madame era uma mulher firme e inteligente. Sua postura não comportava grandes arroubos e ele amava o porto seguro que representava. A chegada de Ana em sua vida, tornou tudo muito mais emocionante. E agora, isso… Sem sequer conseguir balbuciar palavra, olhava para Madame e tentava captar em seu olhar qual seria sua estratégia. Estaria armando uma vingança? Continuou mudo por mais alguns instantes, enquanto ela mantinha o rosto impassível. Don moveu sua mão em direção ao bolso do paletó e retirou o celular. Desbloqueou e o entregou à Madame.

Ela o apanhou e calmamente correu os arquivos de fotos. Percebeu uma pasta em que aparecia uma bela mulher de olhos claros e cabelos negros. “Muito interessante…” – balbuciou. “Nenhuma foto dela, nua?…”. “Para que?”. “Gostaria de saber se tem o corpo melhor que o meu…”. “Você sabe que não ligo para isso”. “Talvez… saberei se a ver nua.”. Don pediu o celular de volta e acessou os arquivos bloqueados. Abertos, entregou o aparelho de volta. Madame observou detidamente cada uma das fotos. Chegou a mordiscar os lábios algumas vezes. Desviou o olhar um instante em direção a Don, sorriu e desferiu: “Ela é linda!… Um dia quero conhecê-la mais de perto…”. Passado mais um minuto, devolveu o celular e completou: “Por enquanto, não. Quero ir com você nos mesmos lugares onde os dois se encontram. Se quiser continuar casado comigo somente lá e então transaremos. Se assim decidir, há outra condição – não diga nada a ela… qual o seu nome, mesmo?…”. “Ana…”. “Além disso, quero que seja vista mais vezes com você”.

Don não argumentou. Jantou calado e passou o resto da noite deitado no sofá, pensando, onde adormeceu. Pela manhã, perguntou a Madame se poderia ir de encontro a ele na hora do almoço. Ela respondeu afirmativamente. Já no escritório, mandou mensagem para Ana, informando que não poderiam estar juntos naquele dia, pois almoçaria com a esposa. Ao meio dia, desceu até o saguão do antigo prédio do centro da cidade, onde encontrou Madame. Saíram de carro e foram até um flat. Cumprimentou os funcionários que estranharam a presença da nova mulher. Já no apartamento, mal adentrou, Madame desceu o zíper da calça do marido e o chupou como nunca fez, muita excitada. Don respondeu com igual paixão e ali, junto à entrada, provavelmente tiveram a melhor foda desde o início do casamento.

A partir daquele dia, Don passou a alternar seus encontros sexuais entre Ana e Madame. Enquanto Madame sabia de Ana, Ana desconhecia que Don trazia sua esposa para o local que considerava só deles. Essa circunstância excitava muito a Madame. Verdadeiramente, se sentia a outra. Quando isso não fosse mais um estímulo, já havia lhe passado pela mente certas variações. Um dia, chegaria o momento de incorporar a presença do terceiro vórtice do triângulo no mesmo espaço. Porém, ainda não… Don ainda estava aprendendo a se libertar de certas amarras e se quisesse que desse tudo certo, conversaria com Ana antes. As mulheres saberiam se entender…

Projeto Scenarium 6 Missivas | Setembro – 18 | Sem Destino

Manuscrita
Pessoal e intransferível

Esta carta não será enviada às mãos a quem é de direito. De antemão, sei que será impossível. Por trama do Destino ou desígnios da Deusa Lua, com a qual flerto com o lado escuro, estas palavras não chegarão a sua destinatária. Portanto, posso fazer confissões protegido dos olhos de quem não as lerá…

Começo por declarar que sim – eu a amo. Sei que também me ama. É um amor impuro – seria de outra maneira se permitíssemos jogarmos-nos em nós, se nos atirássemos do alto de nossos medos, enfrentássemos as nossas resistências. Mas, não. Estamos separados pela fidelidade. Somos fiéis aos nossos companheiros, infiéis aos nossos sentimentos. Estamos a perder a chance de nos sujarmos de prazer. Ganhamos a constância da sensaboria, no entanto, sem a limpidez da consciência.

Quando nos encontramos, envergamos sorrisos tímidos. Ladeados por nossos pares, lutamos contra a força magnética que nos impulsiona um a favor do outro, contra nossas vontades. Beijos protocolares nos rostos, roçar de peles que se pudessem ser visualizadas de perto testemunhariam pelos eriçados a se tocarem invisivelmente ponto a ponto. Por milésimos de segundo, sentimos dissolver nossos corpos um no outro.

Como para nós nosso amor pareça ser tão óbvio, tentamos passar tanta naturalidade quanto se a nossa vida dependesse disso. Sei que, como eu, idealiza fugir de tudo e de todos, da mesma forma que nos arrependemos, imediatamente após, daquele futuro imaginário em que ficaríamos sem nossas famílias, nossas casas e nossos amigos.

Sabemos de conhecidos que são amantes, que se divertem despreocupados com os seus desejos atendidos em momentos fugidios, em hora de almoço ou expedientes estendidos. Mas não seríamos nós, que nos sabemos amadores. Amamos nossos companheiros, nossa vidinha vulgar, nossas rotinas de férias programadas… Somos covardes?… Ou apenas sensatos mentirosos?… Provavelmente, um resumo de tudo isso.

Alguns diriam que isso não é amor. Que é somente vontade da carne, como o desejo de ir a uma temakeria de vez em outra – variar de sabor, sentir o gosto do proibido. Sei que não é simplesmente isso porque, se soubesse que morreria amanhã ou se soubesse que você partiria em hora marcada, seria ao seu lado que desejaria estar. Talvez, até partíssemos juntos, mártires da banalidade moral…

Projeto Scenarium 6 Missivas | Setembro – 18
Adriana Aneli| Maria Vitória | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

Maratona Setembrina | Foda-se!

Fuck

Há expressões que tem o poder de definir situações, registrar momentos, estabelecer conexões, parafrasear a realidade. Uma delas é “foda-se”.  Ou “foda-se!”, para torná-la mais enfática. Considerando que “foder” é um verbo de ampla conotação, que tanto poderá ser utilizado para exaltar uma ação ou acentuar uma ofensa, sua aplicação é quase uma panaceia para resumir determinadas circunstâncias.

Utilizado como recomendação terapêutica em momentos muito estressantes, “ligar o foda-se” ou proclamar um “que se foda” é uma solução conveniente quando não temos o que fazer em alguns casos ou instantes, como deixar o barco correr, até que possamos reconquistar a condução do percurso. Ou largar mão definitivamente de algo que supúnhamos essencial e que venhamos a perceber que não fosse tão intenso assim. É considerada uma atitude zen.

“Foda-se!” é mais comumente usado para xingar alguém e, em muitas circunstâncias, poderá ser substituído por “vá tomar no cu!” ou “que se dane!”. A intenção é que a pessoa se dê muito mal, se estrepe, sofra muito. Não são poucos os que recebem com satisfação essa exclamação. A vítima do xingamento, muitas vezes buscou a reação verbal extremada e se sentirá recompensada por ver explodir na boca do suposto injuriante a mais excelsa das expressões de ódio.

Uma análise mais extensa do “foda-se” também significará que se peça ao alvo do (hipotético) impropério que se auto-satisfaça sexualmente. “Foder” é um verbo que é bastante empregado para designar relações sexuais. É usado intimamente por vários parceiros para ilustrar o que desejam de maneira prazerosa. “Foda-se!”, nesse caso, é encarado como um desejo de bem-estar dirigido ao alvo da expressão.

Sem querer complicar o quadro, posso dizer que há momentos que gostaria de mandar um “foda-se!” teleguiado a alguns sujeitos. Tanto quanto ficaria animado em desejar a mim mesmo diante do espelho, mãos a postos: “foda-se gostosamente!”. Assim como amaria foder com alguém, no melhor dos sentidos. E, se mais nada adiantar, posso sucumbir à tentação de “ligar um foda-se” geral em resposta a tudo o que está acontecendo neste País.

 

maratone-se