BEDA / Saudade De Mim Em Você

Sim…
agora eu sei que acabou…
Tentamos,
mas já não dói tão gostosamente…
A ferida cicatrizou…
Quis voltar a ser aquele que a amou
(não que eu não a ame ainda),
apenas sei que aquele amor já não me pertence mais…
Sei que o meu egoísmo pôs tudo a perder….
Sei que ficarei a penar
a eterna saudade de mim em você…

Aquele Eu que a amava daquela maneira,
sentia-se confiante,
sentia-se amoroso,
sentia-se confidente,
sentia-se poderoso,
sentia-se como se o mundo lhe pertencesse…
E o seu (meu) mundo era você…

Eu, aquele, sentia-se expandir para fora dele
até abarcar toda a Vida e a Natureza…
Deus supremo,
ciente de seu poder,
esqueceu-se da fonte
que irradiava tamanha grandeza…
Ele, Eu, aquele,
esqueceu de você em si…

Então, algo se perdeu…
Eu me perdi…
Perdi você…
Quando se afastou, vociferei,
a tratei como uma rés que ferrei,
propriedade minha, que não se compartilha…
Que preferia ver morrer à mingua,
de fome e de sede…

Preferi feri-la com a minha língua…
a mesma língua que antes vivia a esquadrinhar
a sua pele inteira…
A ultrajá-la com a mesma boca que a beijava
e lhe repetia palavras de amor…
E aquele Eu mal entendia que o verdadeiro ato de possuir
é um movimento de doação…
Que eu antepunha a exauri-la com a minha paixão…

Talvez, um dia, eu a reencontre em mim…
Porém sei que você não será mais a mesma,
tanto quanto sei que não serei decerto aquele
que então se sentiu total,
que não se permitia saber que tanto amor,
sem entrega e reciprocidade,
torna-se pura masturbação,
velada veleidade
a causar imenso mal.

Foto por Blue Bird em Pexels.com

Alê Helga / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso
/ Adriana Aneli / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Darlene Regina

Dias Piores Virão… *

Um dia, em 2016…

“Cheguei em casa do trabalho por volta da meia-noite. Esperei pelo noticiário para tentar entender o que estava acontecendo em nosso País. Corrupção pública e privada, crimes contra as pessoas, instituições falidas. Tentava entender porque a Bolsa, que estava em alta, com o dólar em baixa, no dia anterior, hoje (ontem, amanhã) reverteram as expectativas e os sentidos… Manipulação do mercado financeiro? O povo que se dane?

Dois dos meus sentidos deviam estar me enganando!… Mais e mais, senti o meu corpo afundar no sofá com o peso das informações… Não é caso de desvalidar os veículos de comunicação que as veiculam. Não se trata de matar os mensageiros apenas porque nos dão notícias ruins. Mas sim entender porque nós nos colocamos, como povo, nessa situação sem sentido e, aparentemente, sem uma solução ‘honesta’.

Para qualquer lado que formos, que Deus nos ajude!”

*Neste texto de 2016, se já prefigurava o resultado de um jogo perigoso iniciado dois ou três anos antes em que se estabeleceu a premissa de César, general e imperador romano, milhares de anos antes — dividir para dominar — estimulada por agentes políticos interessados em governar sobre os despojos resultantes. Essa cisão acabou em resultar no atual estado de penúria institucional e ética, somada à uma crise sanitária que nos marcará por gerações ou talvez nem tanto, dada a incapacidade do povo brasileiro de se lembrar sequer o que aconteceu no verão anterior. Isso não é sinal de cura, porém de incúria.

Ser Cereja

Que cereja o que Deus quiser!
Que assim cereja!
Quer tenha sido,
quer venha a ser,
quer cereja!
Hoje, acordei assim,
sendo cereja!
De vermelho translúcido,
uma frutinha!
Tão apetitosa, que me comi!

Foto por Bruno Scramgnon em Pexels.com

O Grande Irmão

Quando George Orwell criou, em 1949, a figura do Grande Irmão de “1984”, aquele que pairava como o absoluto observador que a tudo via – percursos, supostas intenções e ações dos que compunham a sociedade – a referência era o viés opressor e totalitário das ideologias políticas da primeira metade do século XX. O “Big Brother”, personagem praticamente onisciente, interferia diretamente na vida humana em todos os seus aspectos, formulava diretrizes e estabelecia regras específicas para o comportamento de cada pessoa da nação. Como que confinados ao Jardim do Éden, era Deus a ditar o certo e o errado para a convivência harmônica de seus cidadãos idealmente despersonalizados. A não-vida era invadida e quem quebrasse algum mandamento, sofria graves sanções.

Quando o programa Big Brother foi criado, nos estertores do século passado, a ideia era que os participantes da bolha competissem por um prêmio através de uma sequência semanal de eliminações — um a um — por meio de jogos. Aproveitando a cada vez maior participação do público, ocorria a escolha de quem deveria sobreviver até o fim, a base da extinção dos oponentes. Transformado em entretenimento, o confinamento de pessoas para serem observadas como os outros animais em zoológicos, parece emular certas condições que se amplificam em grande escala ao serem testemunhadas por milhões de espectadores, que despendem a vida em vigiar um pequeno grupo, a decidirem quem deve sobreviver ou não. Nesse sentido, estabelece-se uma inversão interessante em relação ao Grande Irmão original. Para a “alegria” de quem vê o programa, a direção formula tarefas ou situações que põem os componentes em conflitos constantes experimentos de ratos no labirinto ou gladiadores na arena de gladiadores modernos.

As personalidades dos participantes parece estabelecer um critério razoável para que a simpatia ou a antipatia recaia sobre tal e tal personagem do programa. O clima psicológico pode ir às raias do estresse total até a exaustão. Quem melhor se adapta às circunstâncias cada vez mais inóspita, encontra maneiras de superar as adversidades. Começam a criar grupos, a fazer conchavos, a traçar estratégias gerais e a desenvolver táticas de guerrilhas para buscarem derrotar os seus inimigos que, se der tudo “certo”, poderá ser o seu aliado de hoje.

Uma vez dentro da casa-bolha, pouco a pouco os participantes esquecem que estão sendo vigiados e começam a agir sem travas, principalmente quando estão alcoolizados — outro expediente desequilibrador: produzir festas regadas a bebidas destiladas. Deus, nesse caso, lhe apraz que todos os pecados sejam cometidos. Que haja nudez, luxúria, ódio, vingança, vaidade e outros sentimentos exacerbados pelo isolamento. O amor (ou o sexo) costuma ser bem visto, de tal maneira que, por conveniência, namoros são iniciados por acordo para angariarem simpatizantes.

No Brasil, os produtores parecem ter transformado a “casa mais vigiada” num campo de projeção do comportamento da nação, feito um imenso espelho de nossas mazelas éticas. Em determinado momento, a participação dos vigilantes é avaliada por outros vigilantes. Grupos de defensores e detratores dos participantes se perfilam frente a frente numa insana batalha de mútuo “cancelamento”, para usar uma palavra da moda. O cancelamento é como se fosse a morte na vida virtual, tão definitiva quanto a real. Chego a ver os soldados invadirem as casas dos vencidos, derrubarem as suas paredes e a salgarem o solo do terreno profano para que nada mais nasça no futuro.  

Por vezes, sinto que o planeta Terra seja, igualmente, um local desse tipo de experiência, como se deuses brincalhões passassem a eternidade a formular jogos de guerra para verem os habitantes da casa a se matarem até que reste um único vencedor que, muito provavelmente. será esquecido… porque quem sempre vence é o jogo.

Filhos Da Tempestade

O Cristão e a Filha de Iansã
se encontraram em repartição pública.
Em comum, contas atrasadas,
vidas rasuradas,
documentos sem rubrica…
Na sala de espera,
sentados lado a lado,
confidenciaram reclamações –
“maldito governo”,
“febre terçã”,
“longo inverno”…
Sentiram mútua simpatia,
revelaram planos para o futuro,
fizeram confidências,
trocaram telefones…

Tiveram um segundo,
um terceiro,
um quarto,
vários quartos
em encontros…
Sempre furtivos…
Sempre breves…
Segundos era quanto parecia durar
o tempo que dispunham…
A paixão uniu os dois corpos,
acima das crenças
e das certezas…
Quando se confessaram amantes,
intensificaram a fé
em Jesus e em Olurum.
Ela, em devoção pelo bem querer.
Ele, em penitência pelo amor proibido.
A Filha de Iansã nunca dançou tanto no terreiro.
No templo,
o Cristão nunca cantou tão intensamente os hinos devocionais.
Acostumado aos rompantes da índole tempestuosa,
o marido dela aprovou o seu duradouro bom humor.
Acostumada à temperança sexual,
a mulher dele agradeceu ao Senhor
o fogo redivivo de início de casamento.

Até que, um dia, discutiram pesadamente…
Não foi por causa das entidades da Natureza
ou pelo mandamento contumaz de algum versículo da Bíblia.
Mas ciúme e sensação de incompletude,
por não se pertencerem completamente…
Em troca de mensagens,
ele passou por cima de seu habitual comedimento
e se declarou perdidamente apaixonado..
Ela, ao querer puni-lo,
agiu com a frieza de vento junino.
Disse, simplesmente: “Obrigada!”…
Com o peito dilacerado,
ele respondeu: “Por nada! Adeus!”…
Os corações empedernidos,
talvez por vontade de Deus,
não voltaram a se encontrar…
A Filha de Iansã não voltou ao terreiro…
O Cristão abandonou o templo…

Foto por Johannes Plenio em Pexels.com