#Blogvember / O Vício

Sem palavras, sem verbos, sem elos (Suzana Martins)

Foto por Marcelo Jaboo em Pexels.com

enxerguei a bituca sem filtro
grudada na soleira
eu a agarrei e a acendi
a fumaça ainda que tênue
meu pulmão recebeu
como a uma querida amiga antiga
nunca esquecida
morto de sede
absorvi as últimas gotas do copo abandonado
na mesa do bar
me senti embalado pelo odor remanescente do álcool
todos os anos de abstinência que me impus
se desvaneceram sob o império do vício
nunca debelado
ainda que não trocasse palavras
invocasse verbos
que estivesse sem elos aparentes
compartilhei da agulha do adicto solidário
inoculei para dentro das veias a dor
bela e mortal de perder-se
a invasão do mal me alegrou
eu aquele que está à beira da morte
me senti o ser mais vivaz
o gosto de sangue
vampiro retirado e arrependido
arremeteu em minha boca –
voltei a beber
voltei a matar…
bastou reencontrá-la
bastou beijá-la…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso Lunna Guedes / Suzana Martins

O Pensador

sentado num dos degraus da escada
com a cabeça pensa
apoio o meu queixo no punho fechado
cotovelo encostado no joelho
posição famosa de quem pensa –
o pensador –
que pensa a vida pensa o amor pensa a falta
pensa o vazio o amor
de tanto pensar me pesa
o nada a expectativa o encontro desencontrado
o desencanto percorre o descaminho
tão invertebrado quanto a minha espinha
cravada de espinhos que a sustentam
pensar me ensina que nada sei
cada dado a conhecer
busca encontrar seu corresponde saber
enquanto sou açoitado pelo querer
porque quem vive
vive a desejar
matemática e imprecisamente  
o que precisa desejar
e não desejar
quando me sinto bem quero me magoar
quando sofro necessito encontrar
satisfação e regozijo na dor
como se fosse a consequência inevitável e querida
para dar o fim perfeito ao prazer ocasional
ao pensamento sazonal
ao sentimento casual  
a nova tendência da estação
aquela que nunca sai de moda –
buscar ser feliz –
enquanto penso a dor…

Imagem: O Pensador, original, Na Porta do Inferno (Wikipédia)

Vingança

Aqui, não vou tentar demonstrar quem tem razão no conflito em Israel. Ninguém tem ou todos têm a sua razão. Apenas tento imaginar (e não consigo) como deve ser doce o gosto de revanche para causar tanto sofrimento – quanto maior, melhor. Para quem o pratica, para quem se extasia ao ver o terror perpetrado em Gaza, na Comunidade da Maré, no Afeganistão, Ucrânia ou em Benin. Aqui perto, todos os dias, na América, África, Europa, Oriente Médio, Ásia

As vítimas, já sabemos, serão sempre os cidadãos comuns, aqueles que tentam viver uma vida em que possam respirar, trabalhar, amar. Mas para alguns como amar deve ter regras. Os fundamentalistas assim apregoam. No conflito provocado pelos fundamentalistas do Hamas, tanto os palestinos quanto os israelenses, além de pessoas de vários lugares do mundo que estão no local e, com o passar do tempo, em vários pontos do planeta, sofrem e sofrerão devido às consequências da decisão do grupo terrorista em ultrapassar as fronteiras pela além de Gaza.

Para os seus dirigentes, foi um movimento que, sabiam, teriam duas consequências imediatas. A primeira, o assassinato à sangue frio de moradores da região atacada – revanche por todos os ataques sofridos no período anterior. A segunda, a reação do Estado de Israel e aliados que revidariam com poder de fogo bem maior, atingindo aos palestinos que supostamente dizem defender, o que poderia levar ao eventual alinhamento de outros grupos radicais e/ou países simpáticos à causa palestina, causando uma guerra total.

Para quem é minimamente bem-informado, esse conflito tem origem bíblica, mas ganhou dimensão quando parte da Palestina foi fatiada para a criação do Estado de Israel, logo após à Segunda Guerra Mundial. O fenômeno do Holocausto havia causado tamanha comoção planetária que justificou a decisão de implantá-lo. À época, a hegemonia dos países “vencedores”, como os Estados Unidos, URRS e Inglaterra era tamanha, que não houve como não ser aceita pelos países em torno da área designada, não sem protestos.

Como consequência, vários outros conflitos foram gerados desde então e o sentimento de revanchismo foi crescente. Compreensível, até que o lado reptiliano viesse a entrar em operação em várias ocasiões, levando a movimentos irracionais, ainda que premeditados. Decapitar cabeças de bebês responde ao mal já feito anteriormente? Terrorismo de Estado por um lado, contra ações pessoais em que um “ser humano” se encaminha a um berçário, observa seres indefesos à disposição e inicia, através de utensílios cortantes, o movimento de arrancar a parte acima dos seus ombrinhos. Essa é uma resposta viável?

Aqueles que se refestelam contra as ações de pequenos contra os poderosos absolvem essa ação? Até que ponto o nosso desejo de justiça encara esse evento como reparador? Qual o sentido de perdermos o senso e defender o mal sob qualquer ponto de vista? Que posicionamentos ideológicos justificam todos as consequências de uma guerra total? Como é fácil apoiar atitudes espúrias para que se confirme um ponto de vista distorcido pelo ódio e gozar a cada ação terrorista como correta, longe da área de conflito. Quem vence? Qual será o vencedor? Quem vencerá a dor?

Foto por Kristina Paukshtite em Pexels.com

Temporizador*

Com o temporizador.
Como contemporizar o tempo com o corpo e a mente?
Como, quando muitas vezes a mente voa para além e o seu corpo começa a sentir o peso dos anos, retardando o seu passo?
Como temporizar a dor, para que saibamos o seu tempo e lugar?
Como continuar, quando em tantas oportunidades, devemos priorizar o compromisso marcado no tempo para depois apostarmos no dia em que teremos tempo para estarmos juntos de quem amamos?
Ao final de tudo, creio que haja um temporizador universal que adia o tempo fatal para o nosso corpo, enquanto eterniza o nosso espírito ele se chama amor…

*Texto e imagem de 2014

Instante Dos Namorados*

Naquele momento,
olhos nos olhos,
nós nos surpreendemos amantes…
Flor de lótus…

Corpos isolados que se fundem,
tão unidos, que se confundem…
Busca do âmago do outro em si,
espraiando-se em fluídos…

Em um átimo,
o mundo todo se aparta…
nos devoramos e nos regurgitamos
em um parto,
com dor e prazer…

Para cada dia dos namorados inventado,
existe aquele tempo verdadeiro
em que tudo acontece em um instante…
Que se faz presente para todo o sempre,
amém!

Imagem: Foto por Edward Eyer em Pexels.com

*Poema de 2016