Almodóvar No 9501

Pedro Almodóvar, El Caballero

Neste mês de Março de 2022, completa cinco anos do lançamento de REALidade, meu primeiro livro pela Scenarium Plural — Livros Artesanais. Nele, está reunido várias crônicas que escrevi em anos anteriores a 2017. Quando as releio, encontro aqui e ali coisas que mudaria na formulação de alguns, mas não há como alterar o contexto porque foram totalmente baseadas em experiências pessoais. Algumas, estranhas, como a que exponho abaixo.

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A caminho da Faculdade, pela manhã… encontrei o cineasta Pedro Almodóvar na condução.

Ele vestia uma camisa bege clara, com gravata-borboleta de mesmo tom. Portava óculos escuros e um fone de ouvido. A barba bem escanhoada e o cabelo embranquecido, bem aparado, completavam o visual do diretor de “Mujeres al borde de un ataque de nervios“.

Encostado junto a uma das pilastras do ônibus articulado, bem ao centro — onde as curvas mais suaves davam a impressão de ser tão radicais quanto se estivéssemos em um carro de corrida — pude vê-lo ainda a segurar firme a barra superior com a mão esquerda… e a carregar uma pasta preta na mão direita.

Como olhava insistentemente para ele, cheguei a perceber que esboçou um sorriso, provavelmente, crente que eu o paquerava.

Ele deve ter notado a comoção interna que provocava em mim, por estar a dividir o ambiente comum com um dos meus ídolos. O estranho é que só eu parecia ter a noção de que estava ali, diante de mim, um dos maiores nomes da cultura mundial!

Certamente, para aquele povo espremido em tão pequeno espaço, teria um efeito espantoso o fato de ver Michel Teló a se deslocar para o Centrão de “busão”, às sete e meia da manhã! No entanto, Almodóvar não era atentado por olhares tão intensos quanto os meus.         

O que traria o Señor Caballero para São Paulo? Um festival de cinema que eu desconhecesse… o lançamento de um documentário sobre a sua vida… ou estaria buscando inspiração para um novo filme, longe dos temas da Espanha reinventada por ele, ou mais próximo da minha antiga, atávica e maldita origem?

Disfarçado de um improvável promotor de vendas ou um atarefado dono de lojas de eletrônicos, o criador de “Hable con ella” desceu um pouco antes do ponto final, no Largo do Paissandu.

Fiquei a penar se voltaria a vê-lo… acompanhando seus passos enquanto pude. Concluí que ele volverá para a pele que habita, como aquele que dirige com má educação os caminhos do nosso prazer estético e emocional. Talvez, um dia, um personagem parecido comigo, — um senhor vestido com roupas de estudante de Educação Física —, apareça em algum novo filme lançado por ele… e, então, terei certeza de que não foi apenas mais um sonho meu…      

Puxada De Costas*

Foto de 2015, realizada na Academia Peck & Deck

Em novembro de 2015, fazia dois anos que eu havia completado o bacharelado em Educação Física, curso iniciado tarde na idade (aos 48 anos) em termos comparativos, para aqueles que estipulam períodos certos para começarmos certos processos na vida. Fui bastante incentivado por minha companheira, que dizia que eu estava sofrendo de “síndrome de ninho vazio”, já que as meninas estavam crescidas e cuidando de suas próprias questões. Outra razão é de eventualmente vir a exercer uma profissão alternativa à prestação de serviços na área de eventos, bastante oscilante. O advento da Pandemia veio a corroborar o quanto isso é real.

À época, eu havia recém-iniciado o meu trajeto na Scenarium — Livros Artesanais, finalmente me assumindo como escritor (outra atividade “maldita”), mas mantinha minhas postagens na divulgação da atividade física pela importância e pelos benefícios que me proporcionou. Uma das outras razões para iniciar um curso sobre educação corporal foi o desenvolvimento da Diabetes, uma doença sistêmica que se não for acompanhada de perto, causa graves prejuízos à saúde humana. O estímulo muscular e consequente gastos calóricos auxiliam no equilíbrio da glicemia do diabético.

“Ainda sobre hoje na academia, há coisas que não mudam. Uma delas, é a puxada para as costas. Pode ser em aparelho novo ou velho, o importante é a correta execução, com o peso adequado para o seu estágio. Nada de acelerar o processo. Nada de ultrapassar a carga além da conta, como se fora competir com os fortões da academia. Isso desanima quem está começando e contunde quem está retomando a trajetória. Se o instrutor acha que você tem que sofrer uma paralisia muscular para alcançar algum progresso, desconfie.

A musculação, bem feita e bem dirigida, é uma das melhores atividades físicas para todas as idades, a partir dos 16 anos. Sim, começar antes disso, requer acompanhamento rigoroso, pois o corpo ainda está em desenvolvimento. Obviamente, esse assunto é polêmico, mas sugiro para aqueles que apenas querem ter um corpo saudável, sem que seja atleta de competição, que procure diversificar as várias opções esportivas. Esse procedimento amplia o repertório corporal. Busque a boa saúde, não apenas para buscar uma aparência bonita, mas para que previna o desenvolvimento de doenças físicas e psicológicas.”

*Texto, entre aspas, de 2015.

Bob Esponja E O Amor

Bob Esponja e o seu famoso hambúrguer de Siri

Em julho de 2011, em férias da Faculdade de Educação Física, treinava quase todos os dias, mesmo que fosse em pleno inverno. Como a pia estava cheia de louça por lavar, o meu TOC fez com que me eu atrasasse para minha ida à academia.

Mãos à obra, enquanto isso assisti a um sensacional episódio de Bob Esponja, no qual ele se apaixonava pelo famoso hambúrguer de Siri que fez, a ponto de querer namorá-lo como a um ser vivo. Ao idealizar a relação, ele não percebeu que o outro nesse relacionamento era perecível, carne com prazo de validade muito curto. O objeto de sua atenção acabou por se deteriorar rapidamente, começando a exalar um mal odor ao qual todos percebiam, menos ele.  

Quando se deu conta do insofismável sinal de que havia se estragado, acabou por devorá-lo.   No final, é dito: “hambúrguer é para ser amado e devorado”. Tentando extrair algum tipo de mensagem, dessa forma um tanto egoísta de amar, poderíamos dizer que acabamos por consumir o nosso amor, como um palito de fósforo que, ao queimar, perderia a utilidade? Ou que ainda que não percebamos que a relação tenha acabado, queiramos continuá-la, apesar do fedor que desprende?

Filosofando, enquanto lustrava objetos exteriores, tentava fazer luzir espaços interiores, mas apenas afundava em ceticismo. Naquela época, eu me via melhor do que era ou parecia ser. Buscava alcançar a atenção de quem considerasse interessante e fazia comentários ácidos-inteligentes. Porém, suburbano até a última raiz do cabelo que se esgarçava, não era tão niilista quanto hoje sou.

Ainda assim, não acredito que devamos levar a um termo definitivo um relacionamento curto ou que perdure por “anos e nãos” de uma maneira tão brusca. Superar a aparente mesmice e a dor hedonista é uma prova de força de vontade acima do que se possa chamar de caráter resistente. É possível até que seja detectada uma espécie de dependência advinda da culpa por se viver razoavelmente bem, apesar da nulidade como homem voluntarioso. De forma contrária, terminar talvez seja prova de coragem por buscar sair da imobilidade mortífera que um amor malcheiroso exale pela perda de validade.

Eu, por mim, não desvalido quaisquer experiências de vida. Acredito que sejam como etapas que devamos transpor para continuar na viagem. Aonde se chegará? Em nenhum “lugar”, especificamente. O aprendizado é infinito. Creio em Pessoa quando diz (continua dizendo dentro de mim): “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. Superar a si mesmo, a grande batalha.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Atos / Abraços

Este texto e imagens também são uma homenagem à minha mãe.

É a respeito dum ato prosaico, do dia a dia, feito tantas vezes inconscientemente, poucas vezes repetido por mim ao longo de muitos anos abraçar. Quando novo, eu vivia uma relação tumultuada com os meus pais, no meio da guerra constante entre eles. Isso a tal ponto me influenciou que havia decidido me abster de não seguir a trama do enredo da maioria das pessoas me casar, ter filhos ampliar a família para além da que já tinha, tão cheia de conflitos. Levado a um beco sem aparente saída no meu caminho de me afastar do contato humano mais íntimo, mudei de ideia e consegui vencer essa barreira através de minha companheira e filhas. Voltei a exercer um ato que só empreendia na infância, com a minha mãe. Expressão de amor, também voltei a abraçá-la e abraçar às outras pessoas, aceitando-as. Ainda é difícil aceitar a mim mesmo, mas acho que até o último dos meus dias, eu chegarei lá…

Nascida a 6 de julho de 1932, Dona Madalena faria hoje 89 anos.

Pelas expressões que carrego nos registros de pequeno e pela lembrança que eu tenho até ter feito uma das minhas “viradas” de personalidade/comportamento, fui uma criança feliz. Naturalmente, eu não sabia disso. É comum, apenas depois do contraste revelado por experiências pessoais, que descubramos que o ouro sempre esteve à flor do chão. Quase 50 anos separam as imagens desses abraços. A mais recente ocorreu perto do passamento de minha mãe, em 2010.

Nesta imagem de 2016, em um domingo em que eu aniversariava, o meu presente foi ter presente a minha família reunida junto a mim, algo cada vez mais raro, já naquela época, em que as “minhas” meninas começavam a ter vidas autônomas da familiar. Pois não criamos as “nossas” crianças para que assim sejam, delas mesmas?

Em 2015, comecei a ser publicado pela Scenarium Plural Livros Artesanais. Um dos lançamentos foi o projeto dos 7 (Pecados Capitais), com irmãos de letras. Então, começava a abraçar não apenas pessoas, mas a escrita como caminho irreversível a ser trilhado. E novas pessoas para abraçar vieram junto com o prazer (e a dor) de escrever. O bom filho a escrita volta…

Em 2010, no último dia de aula prática de Ginástica Artística, há este registro de congraçamento entre os estudantes. Eu, um deles, que voltei a ser depois de velho, me sentia bastante à vontade entre os (bem) mais jovens, renovado por contatos que mantenho até hoje, mesmo que alguns ocorra apenas por redes sociais.

Luiz Coutinho, à esquerda e Marineide, ao centro da imagem

Falando em redes sociais, ela acabou por gerar contatos virtuais que geraram abraços presenciais. Tive o prazer de encontrar amigos especiais que enriqueceram a minha vida de várias maneiras, como o Luiz Coutinho. No caso da amiga Marineide, cremos firmemente que foi, na verdade, um reencontro de outras vidas, depois de termos sido deixados na Terra pela Nave Mãe.

Registro de um dos últimos eventos realizado antes do advento da Pandemia de Covid-19, no final de fevereiro de 2020

Outra família que formei ao longo dos anos foi no trabalho. Várias das pessoas nesta imagem foram e são importantes na formação de minha personalidade mais abrangente em termos de desenvolvimento emocional e profissional. É apenas representativa de um círculo bem maior de relacionamentos que, acredito, nunca são por acaso, como tudo na vida, aliás. Com a Pandemia, o meu métier foi um dos que mais sofreram porque lida justamente com o congraçamento, a alegria, a festa, o abraço um ato que muitos deixaram de exercer por ser estranhamente quase mortal. Muito mais estranho são os tempos que vivemos, intencionalmente ampliado por vontade e (maus) atos de alguns.

Também participam:

Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Darlene Regina

BEDA / Cinza

O acinzentado, em 2014, com as queridas Frida (direita), Domitila (centro) e Penélope (comigo)

Estou recebendo muito bem as tonalidades do cinza em meu corpo. Corpo que, um dia, em cinzas se converterá. Que tenha força e saúde para acolher plenamente os dias brancos! Em meu TCC do curso de Educação Física, que iniciei já acinzentado e terminei no ano passado, depois de passar por uma fase de saúde acidentada, utilizo os dados do levantamento do IBGE, que estipula que a expectativa média de vida do brasileiro gira em torno dos 75 anos.

Intitulei o trabalho de “Atividade física na terceira idade”. Nele, coloco de forma arbitrária que, ao dividir o total de 75 por 3, teríamos cada uma das chamadas “idades” com 25 anos. A primeira iria até esse limite, a segunda até os 50 anos e, partir daí, chega-se à terceira idade. Eu estaria, portanto, com os meus atuais 52 anos, nessa última faixa.

Brinco sempre que coloco esse número no espelho e me vejo com 25. Alguns estudos, no entanto, elevam o limite do início da terceira idade para os 60 anos, visto que as referências quanto à saúde física e mental, incluindo os diversos aspectos envolvidos, tem evoluído para a constatação para o fato de que, antigamente, as condições que nos colocariam de pijama, sentados “no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”, mudaram bastante neste século, a ponto de confundir os limites estáticos para a determinação de quem é (está) jovem e quem é (está) velho.

Lembro-me que, quando garoto, tentava imaginar como eu estaria já um velho, na passagem do século XX para o XXI, com 38 anos de idade. Ao chegar aos 38 anos, tanto quanto hoje em dia, vivo em contínua perplexidade por me considerar imaturo para as coisas da vida. Sinto-me em estado de constante aprendizagem. Continuo curioso e procuro viver um dia de cada vida, sabendo que “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”.

Senti na carne a sensação de morte se avizinhando diversas vezes, mas tomei para mim a resolução de me ocupar realmente com a vida, sem me “pré-ocupar” com a morte, que considero apenas uma inexorável passagem para o novo. Em meu trabalho de TCC, tomei a liberdade de colocar o subtítulo de “Renascer antes de morrer”, já que procuro defender que, ao tomar consciência do nosso corpo, pondo-o em movimento, podemos evoluir para uma velhice plena de nós mesmos. Esforço-me em utilizar em mim os pressupostos que defendo, mas não digo que seja tão fácil. Tanto quanto chegar à Utopia, o País perfeito, que em grego significa “o lugar que não existe”, posso somente prometer que vou morrer tentando alcançar o objetivo que preconizei.

*Texto de 2014 que participa do livro de crônicas REALidade, lançado pela Scenarium Plural – Livros Artesanais em 2016.

Lunna Guedes / Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Alê Helga / Adriana Aneli