Mudanças

Foto da sala que se tornaria escritório e biblioteca, em 2012

Em 2011, quando comecei a postar no Facebook, cria que o canal de mídia social pudesse ser, mais completo que o Orkut, um depositário de textos, fotos, cacos da vida, observações filosóficas, instantes simplórios em que a existência mostrasse algo a mais por trás da cortina do comum dos dias. O estranho é que, pouco a pouco, as minhas postagens ganharam seguidores que começaram a gostar dessas apresentações. Com o tempo, vi crescer a vontade de elaborar textos mais sofisticados, uma espécie de preparação para atender a um desejo maior me tornar um melhor escritor.

Aos poucos, a camada de ferrugem, causada por muitos anos de paralisia após o casamento e intensificação da minha atividade profissional, foi sendo removida e recebi boas apreciações. Cinco ou seis anos depois do advento das redes sociais, em 2015 a Scenarium Plural — Livros Artesanais surgiu em meu percurso. Ganhei a aceitação e o cinzelamento de Lunna Guedes, editora do selo e a segunda sagitariana mais importante da minha vida. O período de hiato criativo materializado havia causado uma fratura estilística da qual me ressentia e ela, com o seu olhar treinado, me conduziu a curá-la.

Fui chamado a participar de edições da Revista Plural com crônicas, poemas e contos em lançamentos coletivos. Em 2017, encetei publicar obras individuais REALidade”, “RUA 2” e “Confissões” — que hoje fazem parte do catálogo da editora. Continuo me pressionando para refinar a minha escrita. Há momentos de altos e baixos, ao sabor dos acontecimentos, justamente por estar mais aberto, algo que busquei conscientemente. Eu acabei por me tornar objeto de uma experiência pessoal, com as devidas consequências, nem sempre ou quase nunca controláveis.

E pensar que postagens como a que colocarei a seguir, de 2012 simples, leve, descompromissada —, que fez com que a esposa ralhasse comigo por expor nossa intimidade, fazia parte do esforço pessoal para me exteriorizar. Atualmente tenho por hábito me inviscerar quase que cotidianamente.   

“Uma das razões da minha falta de tempo consubstancia-se, em parte, nesta foto. São caixas e caixas com diversos objetos: fitas de vídeo (nem tenho mais videocassete), CDs, cadernos de estudo, apostilas, bugigangas pequenas antigos celulares grandes e pesados, computador velho e luminária revistas, livros e “otras cositas más”. Como é penoso carregá-las de lá para cá, em constante mudança de ambientes, buscando lugares onde possam descansar seu fardo e seu cheiro de passado, enquanto a reforma da casa não fica pronta!”. 

Escritores Homens

Homens que escrevem são diferentes de homens que não escrevem? Por terem a sensibilidade de manipular palavras na construção de mundos particulares que tentam explicar o mundo comum ou em comum com os outros seres viventes, serão mais abertos aos sentimentos mais nobres a ponto de serem especiais? Ou quando adentram nas zonas sombrias da mente humana, também são tão sombrios quanto criminosos comuns?

Um desses homens, Ernest Miller Hemingway, nasceu em Oak Park (Illinois), a 21 de Julho de 1899, foi um escritor  que trabalhou como correspondente de guerra em Madri durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Esta experiência inspirou uma de suas maiores obras, “Por Quem Os Sinos Dobram“. Ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi viver em Cuba. Em 1953, ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção por “O Velho E O Mar” e, em 1954, ganhou o prêmio Nobel de Literatura. Em 02 de Julho de 1961, se suicidou com uma espingarda, em Ketchum (Idaho), um pouco antes de completar 62 anos de idade e três meses antes de eu nascer.

Escritor genial e genioso, o filme baseado em seu romance homônimo — Por Quem Os Sinos Dobram — passado na televisão quando eu era adolescente, me apresentou Ingrid Bergman, por quem me apaixonei. Tanto que uma das minhas filhas ganhou o nome dela em homenagem. No filme, seus olhos faiscantes e cabelos curtos me deixaram atordoado. Fazia, aos 32 anos, o papel da jovem militante espanhola que luta ao lado da República, Maria, pela qual Robert Jordan, um americano que vai até a Espanha para lutar contra a ditadura, se apaixona. Sua missão é explodir uma ponte. Mas ao se apaixonar, começa a questionar sua perigosa tarefa e seu lugar em uma guerra estrangeira.

No romance, Hemingway usa como referência sua experiência pessoal como participante voluntário da Guerra Civil Espanhola ao lado dos republicanos e faz uma análise ácida, com críticas à atuação extremamente violenta das tropas de ambos os lados: os Nacionalistas, auxiliados pelo governo italiano e nazista alemão e os Republicanos, pelas brigadas internacionais e União Soviética Critica também a burocratização e o panorama de privilégios rapidamente instaurado no lado da República.

Mas, acima de tudo, o livro trata da condição humana. O título é referência a um poema do pastor e escritor John Donne, que se encontra na obra “Poems on Several Occasions” que em português intitulou-se “Meditações“. Invoca o absurdo da guerra, mormente a guerra civil, travada entre irmãos. “Quando morre um homem, morremos todos, pois somos parte da humanidade”. Em várias passagens do texto, os personagens se desconhecem ao desempenhar papéis bizarros que se veem forçados a assumir durante a guerra e fraquejam, ao ver nos inimigos seres humanos que poderiam estar de qualquer um dos lados da guerra.

Ao longo da vida do escritor, o tema do suicídio aparece com frequência em escritos, cartas e conversas. Seu pai se suicidou em 1929 por problemas de saúde e financeiros. Sua mãe, Grace, dona de casa e professora de canto, o atormentava com a sua personalidade dominadora. Ela enviou-lhe, pelo correio, a pistola com a qual o seu pai havia se matado. O escritor, atônito, não sabia se ela queria que ele repetisse o ato do pai ou que guardasse a arma como lembrança. Aos 61 anos, enfrentando problemas de hipertensão, diabetes, depressão e perda de memória, Hemingway decidiu-se pela primeira alternativa.

Todas as personagens deste escritor se defrontaram com o problema da “evidência trágica” do fim. Eu, pessoalmente, sou adepto pela opção do suicídio como direito, se a pessoa tiver plena consciência de seus atos. Como no caso da eutanásia, por doença sem remissão. Porém, creio que se deva buscar todas as alternativas possíveis até que alguém “são” escolha a morte como solução. Porém, não sou juiz a ponto de culpar quem o faça por considerá-lo covarde. Para muitos, na verdade suicídio é um ato de coragem. No caso de Hemingway estimo que tenha sido por pura vaidade… apenas não sei avaliar se é um motivo tão bom quanto qualquer outro.

Maratona da Interative-se de Maio, com

Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Alê Helga / Isabelle Brum

BEDA / O Leitor De L.I.V.R.O.

O exercício da leitura sempre me fascinou, mas como me deixei levar demais por seus “descaminhos”, vivia mais literariamente do que literalmente. Não que a obsessão pela leitura costume causar esse tipo de efeito, mas em mim causou. Adolescente, comecei a perceber que não me enquadrava no ambiente que vivia. Era um garoto da Periferia que era mal compreendido por falar um português mais rebuscado e que não estudava muito para não ficar adiante demais em relação à sua turma, pois como todo adolescente, desejava me enquadrar de alguma forma. Gostar de futebol, fez com que ficasse menos isolado e o fato de ser esforçado e tecnicamente razoável, garantiu que estivesse em contato constante com os garotos da escola. As meninas, as deixava compulsoriamente destacadas como objetos de paixões platônicas.

Em determinada época, substituí a leitura compulsiva por escritura compulsiva, antes mesmo de conhecer vários clássicos que me impediriam que eu buscasse reinventar a roda a todo o momento. Acabei ficando com uma base de segunda mão. E depois, quando percebi que nada disso me garantiria que eu tivesse uma vida “normal”, algo que eu pudesse construir que tivesse substância, como família e filhos, deixei de escrever. Por quase vinte anos, não me senti impelido a buscar caneta e papel para me expressar. São reviravoltas que talvez não fossem necessárias, porém para mim significava estabelecer marcos que indicassem claramente a minha escolha e a estrada a percorrer.

O advento da Internet e das redes sociais, acabou por ser um impulso forte o bastante que recomeçasse a me aventurar pelo uso da palavra escrita. Porém, ainda sou maravilhosamente “desencaminhado” pela leitura, do qual sou dependente, ao menos para trazer para perto de mim adictos como eu para formar uma turma na qual eu não me sinta tão deslocado como antes. Assim como encontrei um nicho onde pudesse colocar a minha escrita publicamente no formato eterno de um livro a Scenarium.

Passo adiante um texto primoroso do primoroso Millôr Fernandes que resume exemplarmente tudo o que se pode dizer sobre um livro:

“L.I.V.R.O.

Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação. Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas L.I.V.R.O.
 
L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo! 

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma sequência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em sequência correta. Com recurso do TPO Tecnologia do Papel Opaco os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade! 

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez. 

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário. Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta ‘ERRO FATAL DE SENHA’, nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio. 

O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (software) instalado. 

Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O. 

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S. Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma. 

E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!”

(Millôr Fernandes) 

Adriana Aneli / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso
/ Alê Helga /  Lunna Guedes / Claudia Leonardi / Darlene Regina  

Dez Vezes Escritor

Imagem parcial da biblioteca com títulos da Scenarium Plural — Livros Artesanais

Tudo começou com latas de manteiga que meu pai usava para guardar pregos, parafusos e itens similares. Comecei a desenhar as letras, uma por uma, em meu caderno de brochura da pré-escola. Ao terminar a página, passava para a outra sem o “vale” existente entre as duas me impedisse.

Nos primeiros anos escolares, lia os livros de todas as matérias até a metade do ano, por pura curiosidade e sede de conhecimento, não importando o tema. Excetuando as matérias exatas. No primeiro ano primário, como mudei de escola, li os dois de alfabetização, diferentes entre si.

Eu buscava o “Excelente!” das professoras como se fosse um prêmio para o meu artesanato na escrita. Ganhei alguns e percebi que gostava de agradar às minhas “primeiras leitoras”.

Quando ajudava o meu pai como “catador de papel”, entre os 12 e os 14 anos, recolhi vários livros jogados fora como lixo, o que me proporcionou formar a minha biblioteca particular. Alguns deles, guardo até hoje.

Quando garoto, apresentava algumas habilidades artísticas inatas: lia e escrevia com facilidade, desenhava razoavelmente bem e sabia modelar com massa e cheguei a usar barro para fazer algo parecido com “esculturas”, além de arte em relevo em madeira. Para completar arranhava bem o violão. Mas escrever começou a ganhar cada vez maior espaço. O meu mundo interior ganhava clareza no uso das palavras, as quais comecei a cultivar com carinho crescente. Namorava termos e sentenças. Buscava os efeitos inusitados e passei a amar livros e escritores que me estimulavam mais fortemente.

Porque escrevia bem, segundo avaliaram, fui escalado como candidato a um concurso de leitura. Eu e outro colega “duelamos” para representar a nossa escola. Fiquei tão incomodado com aquilo que não me esforcei para vencer. Depois da decisão, feita pelo professor, me perguntaram a razão de estar sorrindo. Não sabia responder. Ao ler em público, percebi que além da timidez, tinha uma maneira não linear de ler. Era como se eu tentasse “escrever” o texto ao mesmo tempo que lia. Achava estranho quando a ideia era desenvolvida diferentemente do que eu estava imaginando. Tive que me disciplinar para que pudesse ler “realmente” o que propunham os escritores, ainda que saiba que ler também é reescrever uma história.

Como adorava cinema, pensei em me tornar um cineasta. Mas sabia que a “sétima arte” no Brasil era precária. Depois, me imaginei um publicitário. Isso, antes de não querer mais “participar do sistema” de forma alguma, a partir dos 17 anos. O máximo que cheguei perto “fazer um filme” foi participar como figurante de “Feliz Ano Velho”, em 1987, quando fui aluno de História, na USP e lá recrutaram quem quisesse fazer parte da filmagem. Mas desde o início meu foco recaía na criação e desenvolvimento literário por trás da expressão cinematográfica.

Em certa época, encetei a possibilidade de me tornar Frei Franciscano. Não cheguei a frei, mas franciscano sou até hoje. Enquanto lia obras sacras relacionadas aos temas para a preparação seminarística, continuava a ler os livros seculares ou mundanos. Os de Machado de Assis, por exemplo, eram sagrados para mim.

Ao me casar, diminuí bastante a atividade da escrita, até praticamente deixar de escrever. Depois de vinte anos “parado”, voltei a exercitar a palavra escrita com o surgimento das redes sociais. Alguns anos depois, Edward Hopper e Maria Cininha me juntou a Lunna Guedes. Sob sua orientação, percebi que tinha que reaprender a escrever.

Aos 55 anos, lancei o meu primeiro Livro — “REALidade”. Mais dois — “Rua 2” e “Confissões” — se sucederam, pela Scenarium Plural – Livros Artesanais. É bem possível que um quarto venha à luz ainda este ano — 2121 — também conhecido como segunda edição de 2020.

Isabelle Brum – Darlene Regina – Lunna Guedes

Meu Scenarium — Varanda Para Abrigar O Tempo / Equação Infinda

Bijoux e as obras da Scenarium…

Estou passando uma temporada em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Sem atividade no meu setor de trabalho por conta da Pandemia de Covid-19, decidi sair um pouco da rotina de tarefas caseiras a que estava atrelado, como se fosse um trecho de música repetido vezes sem fim em que a agulha do toca-discos fica presa numa faixa do Long Play arranhado — imagem propositalmente anacrônica — saudade.
Aqui, tenho contato com o mar, a paisagem exuberante, os cursos d’água inesperados, cachoeiras a serem visitadas, a força líquida que me preenche e me carrega.

Trouxe para cá livros diversos, incluindo os da Scenarium recém-lançados. Todos, escritos por mulheres. Nos dois últimos dias, li dois de enfiada. Aleatoriamente, ontem escolhi primeiro o de Roseli Pedroso — EQUAÇÃO INFINDA. A história de três mulheres — Carminha, Lígia e Verônica — vividas em épocas sequenciais, em que se estabelece uma linha de conexão tênue, mas fundamental. Contadas por cada uma das personagens em primeira pessoa, em estilo de diário, seus dramas atravessam estações climáticas de anos alternados conduzido com maestria por Roseli. Ela consegue criar o vínculo que nos leva para dentro de suas almas. Essas mulheres, que surgem aparentemente frágeis, não sucumbem ao abandono, ao amor roubado ou à intempérie libertária.

Viver é sempre perigoso, ainda que estejamos abrigados em uma casa confortável ou soltos na vida, sem eira nem beira, por desejo ou fatalidade. Ou ainda que estejamos perdidos dentro de quartos bem decorados, sem controle de sua própria vida, presos a convenções. Capazes de emular sentimentos em palavras que ganham a eternidade de um voo:

“Capturei a atenção
De uma mosca
Troquei olhares e
— perguntei
por onde andará
— aquele
Que não ouso expressar?”

Hoje, li VARANDA PARA ABRIGAR O TEMPO, de Aden Leonardo. Através de meses subsequentes, a partir de Abril, em que os dias tanto podem ser numerados quanto intitulados como “dia que esqueci”, “dia que perdi” ou “dia dormido: Domingo é gato emboladinho”, ela passeia sua imensidão de nada. Como masoquista, a cada página virada, fui me viciando nas agulhadas na pele feito uma sessão de acupuntura inversa que em vez de curar provocava dores que nem eu sabia que poderia sentir e esperavam apenas serem despertadas.

“Acho que viver é por aí. Olhar os farelos e não espanar. Porque dói. Depois, tudo se ajeita e a gente varre. De tarde… ou vem passarinho. A TV falava outras notícias ruins. E finalmente não era eu!” — Essa sentença era eu, hoje, agora! — em 5 de Fevereiro de 2021.

Cansado de estar só, me vi abrigado em uma varanda de Julho: “Um dia de recolhimento de quando tudo acaba. Deitar de conchinha sozinha no lado direito… encolhida no que restou. Beiras.” — Será que a Aden me espiona?

Já disse que me viciei na dor que esse livro me provocou? Certamente terei que voltar a lê-lo pelos cinco meses que percorridos, de Abril a Agosto, este último, o único que merece ter seus dias marcados diariamente, sendo que o dia 5 é deferido com dois “temas”, sendo um deles “Dia Triste”. Mas na primeira legenda, ao seu final, encontrei outra frase que me posicionou ou seria “reposicionou”? — “Ando perdendo significados. Ando ressignificando.”

Ainda lerei Mariana Gouveia e Lunna Guedes que, junto a Roseli e Aden e Kátia Castañeda, são criadoras de belas obras do selo Scenarium Plural Livros Artesanais. Que eu faça parte desse grupo de autora(e)s já me enaltece. No intervalo entre um banho de mar e outro, deixei as areias da Praia Grande de Ubatuba e mergulhei em vidas maravilhosamente bem construídas-descontruídas como se misturassem à passagem da brisa marinha. Nem usei as fitas de marcação de páginas, úteis apenas para as brincadeiras do Bijoux. Fiquei com a certeza de que, na outra encarnação, quero nascer mulher-escritora-da-Scenarium.