Desde que houve a decisão de que iria saltar, certa calma se apossou de mim. Talvez, antes, ficasse um tanto inquieto com a possibilidade, mas, depois, a decisão de descer do céu me pareceu tão natural quanto andar.
Voava muito quando criança, em sonhos recorrentes que eu tinha o poder de prolongar a meu bel prazer. Poder esse, pus a perder com o passar do tempo… deixei de dar rasantes rentes aos telhados das casas do bairro. Muitas outras coisas deixei para trás ao me tornar adulto. Passei a valorizar crescer, na ansiedade de alcançar algo que nos dizem ser o ideal como homem ou mulher.
Crescido, namorei, casei, constituí família, me fiz criança com as minhas crianças, sem muita chance de me aprofundar naquela ilusão, já que ganhar o sustento da casa era prioritário na escala das importâncias que devia atender.
Até que se chega a um momento na vida que os ciclos se completam e resgatar a capacidade de sonhar equivale a buscar o melhor de nós para continuar a viver. Quando menos se espera, o sonho torna-se possível de ser realizado e acabei por perceber que não era tão complicado executá-lo. Bastava dizer “sim” a mim mesmo!… Vamos?… Vamos!
E lá fui voltar a ser eu mesmo, menino, passarinho. Não mais com o poder de voar sem asas — planar, subir e mergulhar em movimentos de pássaro indômito. Agora, máquinas forjadas pelo poder inventivo do ser humano me auxiliariam alcançar a sensação de colocar os pés a quase quatro quilômetros do chão e voltar a colocá-los plantados no solo.
Foi feito um filme do salto. Nele, se mostra como foi o desenrolar dessa aventura. Fica evidente o seu entusiasmo. Bem mal, se pode ouvir o menino a declamar, em pleno ar, o poema mais antigo que se lembra de ter feito, ainda garoto:
“Ao longe As estrelas brilham Por perto As pessoas queimam”…
Acrescentando:
“Hoje, eu beijo as estrelas! Eu as possuo, em colchões de nuvens!”
E é desse matiz o voo que ele vem tentando realizar agora, apenas que mais perigoso — escrever é como saltar no escuro, porém sem paraquedas.
*Texto produzido em 13 de Abril de 2016, por ocasião do salto.
A Tânia recebeu de uma prima, via Whatsapp, a reprodução de uma foto sua aos cinco anos de idade. Logo, divulgou para o resto da família. Viu semelhanças entre a menina que foi e a Ingrid, nossa filha do meio. Há quem discorde, mas olhos de mãe não se enganam. Eu percebi que ela ficou emocionada em se ver eternizada em linhas esmaecidas. Perguntei se chegava a se lembrar do vestidinho, que presumi ser branco, com bolinhas negras. Ela se lembrou que era de um tecido macio, leve, quase certo que de algodão, composto de quadradinhos de cores variadas. O passado dessa idade, normalmente é visto em preto e branco, talvez até em sonhos.
Eu tenho a sorte de ter em meu acervo várias fotos desde bebê. Minha mãe era zelosa quanto a isso, ainda que fôssemos pobres. Porém, a família da Tânia era mais simples em recursos do que a minha, além de mais numerosa. Eu, um garoto da cidade, ela, uma garotinha do interior. Quem vive hoje, tendo acesso a imagens instantâneas que descarta, caso não goste, não imagina o quanto era caro e difícil fotografar. Encontrar fotos desse período é como descobrir um tesouro.
Imagino se a Tânia conseguiu identificar no olhar da menina que foi, a resolução da jovem que emigrou da vila da cidade pequena para cidades sempre maiores e novos horizontes mais amplos, se bem que obstruídos por altos edifícios. Se observou nos traços arredondados, a força em superar tantos percalços. Se vislumbrou no cabelo penteado a ordem que quis imprimir ao mundo, com as consequentes decepções que todos nós sofremos.
Temos necessidade em buscar as raízes fincadas em nosso chão original. As visões que nos movem desde o início, iluminadas pelo passado. O desejo de vida em imagens paralisadas pelo tempo. Talvez, para nos confirmarmos seres que tem origem, mas sem fim — vida eterna. E compreender nosso caminho torto, mas certo, porque é nosso. E de perceber o valor dos encontros que temos em nossa existência — essa viagem incrível.
Dizem que chumbo trocado não dói e os amantes sabiam que isso não era verdade. Porém, se fiavam nessa máxima para se sentirem mais confortáveis com relação ao caso que mantinham há praticamente dois anos. Eles se conheceram através dos respectivos cônjuges, Bernardo e Bianca, que eram colegas de trabalho e que se tornaram amantes durante o período em que estiveram juntos no mesmo departamento da empresa. Os mesmos dois anos em que o dela e Cassiano prospera desde então.
Bernardo apaixonou-se por Bianca, a ponto de querer terminar o casamento de vinte anos com Laura. Ela soube disso quando ambos tiveram uma conversa definitiva acerca do que ocorria entre a colega de trabalho e ele. Naquela ocasião, Bernardo se mostrou realmente arrependido e jurou que nunca mais a veria. Pediu e lhe foi concedida transferência de unidade como parte do acordo que foi estabelecido entre o casal – afastamento em definitivo da amante.
Em uma festa de fim de ano da firma, chegou aos ouvidos de Laura, em conversas captadas ao acaso, o caso entre Bianca e o seu marido. Em vez de confrontá-lo imediatamente sobre o fato, decidiu entrar em contato com Cassiano de maneira sigilosa. Ligou para ele, se apresentando como esposa de um colega de trabalho de Bianca. Disse que precisava tirar a limpo certos rumores sobre os quais tivera conhecimento e que envolviam os dois. Marcaram de se encontrarem em um local discreto e durante algumas horas conversaram sobre como encarariam aquela situação constrangedora.
Com a longa conversação, vieram a perceber que tinham mais pontos em comum do que com quem conviviam por tanto tempo – Laura e Bernardo, por 22 anos e Cassiano e Bianca, por 15. Os dois decidiram confrontá-los separadamente, sem dizer como souberam dos fatos. Perceberam que não seria interessante saberem de que se conheciam. Após o momento doloroso da confrontação circunstâncias que envolviam as relações extraconjugais, ambos os casais decidiram continuar juntos. Filhos, casas, cachorros, familiares e amigos comuns pesaram nas decisões tomadas.
Laura se pega rindo sozinha ao lembrar-se de como tudo começou. Cassiano ligou e a convidou para almoçarem. A desculpa dada seria o de conversarem sobre a convivência com os respectivos esposos. O seu coração bateu forte com a chamada recebida. Falou alto consigo mesma: “Finalmente!”. Durante o almoço, pareciam velhos amigos que se reencontravam depois de muito tempo. Citaram apenas de passagem os companheiros e se permitiram se referirem apenas a eles mesmos durante o tempo todo. Quase que naturalmente, se abraçaram e se beijaram ao saírem do restaurante. Rumaram a um motel próximo. Não confessavam para eles mesmos que estivessem se vingando de Bernardo e Bianca, mas o cheiro de desforra parecia aumentar o apelo sexual da situação.
Daí por diante repetiam os encontros a cada dez dias ou menos. Os novos amantes se permitiram ousar em desempenho como nunca fizeram na união oficial de cada um. Não cogitavam se separar de seus respectivos consortes. Concordavam que os amavam, pelo menos, de outra forma. Sentiam, em seus corações, que os perdoavam pelo antigo relacionamento, principalmente porque dera ensejo que tivessem se encontrado. Pressentiam que aquela fora a condição “sine qua non” para que vivessem aquele misto de felicidade pecaminosa e aceitação das próprias contradições amorosas que faziam tão bem a eles.
Hoje, aniversario. Completo 59 anos desde que vim à luz do Sol. Não queria sair do conforto do mundo em que vivia — quente líquido em que me banhava e me alimentava de amor. Estava invertido, brincando de percorrer o meu espaço. Após ao procedimento da fórceps, fiquei em uma incubadora por alguns dias. Bem cedo, o menino que fui preferia ficar a um canto desenhando ou vendo TV. Após me alfabetizar, “perdia” horas lendo qualquer coisa que caía em minhas mãos. O futebol era a única coisa que me salvava de ficar parado-isolado. Por essas e por outras, por anos a fio, o meu pai dizia que eu era tão preguiçoso que até nascera sentado. Homem de natural talento manual, ele não compreendia a minha incapacidade nesse campo, excetuando desenhar e fazer pequenas esculturas em barro. Dizia que prendia as coisas com barbante e colava com cuspe. Se fui assim tão sarcástico com vocês, minhas filhas, me perdoem.
Até os 12 anos, eu era impetuoso e brigão. Na dura vida de menino que não era muito grande, nos entreveros com os outros garotos, batia primeiro e perguntava depois. Quando mudei de escola e de iniciei novos relacionamentos pessoais, decidi mudar a minha atitude de impor respeito pela violência, herança indireta do Sr. Ortega na minha criação. Comecei a tentar empreender o caminho inverso. Se quisesse ganhar o respeito de alguém, não seria pela força. Ao mesmo tempo, iniciei um processo de internalização quase irreversível. Quase que paralelamente, fui ficando cada vez mais míope e a minha personalidade ganhou óculos.
Ainda que tenha sido batizado e feito a Primeira Comunhão, não abracei o catolicismo. Após uma fase ateísta, me tornei franciscano. Sei que São Francisco me permitiria essa rebeldia. Ele mesmo se rebelou contra o que era imposto como regramentos que o impediam de vivenciar o que o seu coração mandava. Homem do mundo, foi transformado pelas experiências do mundo. A violência, a fome, a precariedade da vida, todas essas facetas vividas enquanto servia em uma das guerras de ocasião, o transformaram. O herdeiro de família rica, começou a se conectar consigo mesmo, a se abrir para as coisas tangíveis e intangíveis, a ouvir vozes interiores e exteriores — expressões para quais normalmente fechamos os sentidos d’alma, ainda mais quando estamos embotados pela materialidade. Francisco teve coragem para empreender a viagem mais árdua, àquela que quando se inicia, não há volta — ser pequeno.
Um dia, pensei em seguir o seu caminho. Desejei seguir os mandamentos da Igreja para tal percurso. Fiquei dois anos sob orientação. Cheguei a visitar um seminário franciscano que me influenciou de maneira decisiva. Gostei do ambiente, dos estudantes, dos objetivos propostos, mas… ainda mantinha dúvidas sobre qual sentido seguir. Lá mesmo, em um canto dos muitos corredores do prédio, estava uma maquete que mostrava os vários caminhos para chegar a Deus. Um desses caminhos era a formação de família.
Eu tinha 26 anos e desde os 16 havia enveredado por uma profunda religiosidade, que não respeitava limites doutrinários. Estudei o Cristianismo, o Maometismo, o Hinduísmo, o Budismo, as demais filosofias orientais, as crenças africanas e tudo mais que dissesse respeito à transcendência do corpo e proeminência do espírito. Constituí uma amálgama de crenças que só fazia sentido para mim. O que fizesse o meu coração bater mais forte, a isso eu me identificava. Percebi que a Verdade tem muitas facetas, tal qual um diamante que reflete uma luz diferente a depender da forma que a luz o toca.
Naquela altura da minha vida, eu estava dividido entre a vida monástica e o conhecimento do mundo que havia rejeitado até então — a familiar. Sabia que enfrentaria grandes obstáculos para manter o controle sobre a minha sanidade ao escolher tanto um quanto outro caminho. Hoje, depois de estabelecer uma profissão, conhecer a minha companheira, Tânia; conceber as minhas três filhas — Romy, Ingrid e Lívia — construir uma casa, cuidar de cães, passarinhos e plantas – formei um lar.
É um desafio constante manter o equilíbrio entre tantas demandas pessoais, profissionais e a paixão pela escrita, mas creio que tenho caminhado cada vez mais para dentro de mim na senda do autoconhecimento e para fora do meu próprio corpo, agregando pessoas em meu entorno. É como voltar da guerra todos os dias e me metamorfosear. Sei que sou, fundamentalmente, um franciscano em meu procedimento. Desde que ouvi o chamado de Francisco de Assis, nunca deixei de ser, idealmente, um frade menor sem hábito…
Eu não pertenço apenas a um canto. Ainda que minha casa seja um recanto onde gosto de estar. Com certeza, é o meu favorito. De cá, viajo para tantos lugares, sem sair do lugar. Dessa maneira, o meu canto é o mundo todo e além… para dentro e para fora. O meu canto é circular.
Dorô
Dorô já passou, mas nunca passará, enquanto quem conviveu com ela viver. Reservo sempre um canto do meu pensamento para esse ser que surgiu misteriosamente em nossas vidas, filha de outra querida, a Lua, sua única gestação. Um mistério, já que nunca a vimos ultrapassar o portão de nossa casa. Eu trouxe a Dorô de volta de seu canto eterno para representar todas as outras criaturas de quatro patas que fazem do meu canto um lugar melhor para se viver.
Nosso jardim…
Continuando na mesma toada, trago apenas um dos exemplares dos vários tipos de plantas que temos em nosso canto — a babosa ou aloe vera. Estas estão envasadas, como muitas. Outras, se espalham no chão, por outros cantos. Cuidar do jardim foi um prazer redescoberto de quando era mais moço. Franciscano e com mais espaço, eu deixava que as plantas expressassem livremente a seus gostos ou dos pássaros, que são responsáveis por parte do processo reprodutor desses seres especiais.
Edifício itália
O meu canto fica ao centro, também. A região central de Sampa é um lugar que não me canso de visitar. Sempre que posso, observo as construções e juro que consigo ver a História circulando por cada via. Pareço “relembrar” épocas que não vivi. Tento conhecer os contos de cada canto da vida da cidade feita por mulheres e homens de todas as origens. Outras histórias, eu recrio. O meu coração fica no Centrão.
Banda Almanak
Depois de vários meses, voltei a fazer um evento. Respeito o poder da Pandemia. Não a nego. Mas depois de vários adiamentos, os noivos decidiram fazer o encontro onde festejariam seu enlace. Fomos pagos antes do surgimento da Covid-19 e apenas estávamos cumprindo o compromisso profissional acertado. Tanto o local quanto nós mesmos, equipe técnica e banda, seguimos todos os protocolos de segurança (possíveis). O meu canto também é onde estiver fazendo o que eu amo — meu trabalho. Com cantos.
São Bento do Sapucaí– SP
Na década dos vinte anos, eu flertei com a possibilidade de entrar para Igreja Católica, apesar de não ser católico, ainda que meu pensamento fosse e ainda é intensamente influenciado pelo cristianismo. Haja vista as notícias que pululam por aí, muitos membros da Igreja também não são sequer cristãos. Ao me deparar com essa pequena igreja, me lembrei que o meu objetivo era, como frei, trabalhar para a comunidade e talvez não fosse de todo mal que me fixasse no interior do País, onde já pensei em fazer o meu canto, se não fosse terrivelmente paulistano. Percebam que neste curto parágrafo amealhei diversas contradições. Como no canto do Caetano: sou o avesso do avesso do avesso.
Vila Nova Cachoeirinha
Entre as várias possibilidades de se estar, uma é permanente — a Periferia onde vivo. Completou cinquenta anos em 2019, viver aqui, na Vila Nova Cachoeirinha — ZN. Nasci no Centro, migramos, a família e eu, para a Zona Leste (Penha) e viemos para cá viver em uma casa bem simples, sem muitas das condições básicas, como esgoto, por exemplo. Para a minha mãe, foi um sofrimento, mas para mim, ainda que tenha passado por situações difíceis, sinto que fui feliz. Um dos meus cantos favoritos da casa é a varanda, ponto acima de todos, onde ainda posso vislumbrar o pôr do Sol, ao qual dedico vários dos meus cantos em homenagem ao seu calor e brilho.