Tempo

Tempo

Tempo, tempo, tempo…

Tentamos capturar o tempo nas mãos como se ele existisse…

Em nossa passagem pela Terra, sucessivas civilizações, nos quatro cantos do mundo, desenvolveram maneiras de programar eventos, prever plantios e colheitas ou até tentar adivinhar os seus destinos como pessoas ou nações. Alinhando as datações, estudiosos puderam sincronizar os movimentos naturais do planeta às ações humanas, criando a História.

Agora, após o Carnaval, quando começamos verdadeiramente o ano, como faziam os antigos romanos – uma tradição tão arraigada em nosso comportamento que o reproduzimos intuitivamente – tomamos consciência que a passagem do tempo é permeada por uma sensação aleatória e algo incomensurável de espanto. A sequência de fatos históricos datados nos dá a falsa impressão de marcha avante e, concomitantemente, de que voltamos à barbárie quando seres aparentemente civilizados cometem atrocidades.

Otimista, creio que o que acontece de ruim com as pessoas (produzido por outras pessoas) tem nos causado cada vez mais asco, porque estamos mais sensíveis. Talvez seja mais uma esperança do que uma constatação, mas prefiro acreditar nisso do que aceitar que o homem não tenha aprendido nada em sua permanência de milhões de estações na Terra.

Segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, estações, anos, décadas, séculos, milênios, eras… podemos enumerá-los, mas o importante mesmo seria constatarmos não como estamos e sim o que somos. No entanto, ao nos aceitarmos como seres mutantes, uma avaliação acaba por se sobrepor a outra e talvez jamais obtenhamos uma resposta plausível.

Marcar a passagem do tempo se equipara a reverenciar ao Tempo como Deus. De certa maneira, é uma de suas representações…

https://www.youtube.com/watch?v=HQap2igIhxA

45 Anos Atrasado

45
Em 2013

Em um final de semana de setembro de 2013, fui assistir à peça “Zucco” no Teatro da USP, no edifício da Rua Maria Antônia. A trama era centrada na história real de Roberto Succo, “serial killer” italiano que nos anos 80 matou seus pais, cometeu outros crimes e assassinatos, causou pânico e admiração na Europa e foi considerado inimigo público número um na Itália, França e Suíça. As relações entre o indivíduo e a sociedade, a violência, a solidão e a marginalidade contrastavam com os limites de nossas formas de convívio. Os jovens atores de “Zucco”, talvez não soubessem que a liberdade com que interpretaram seus personagens foi resultado de uma luta de várias gerações.

O prédio que abrigava o teatro foi palco de um acontecimento emblemático de nossa História. Lá, nos Anos 60 sediava o curso de Filosofia, da Universidade de São Paulo, antes de se transferir para o nicho na Cidade Universitária, no prédio que estão estabelecidos os cursos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Foi na rua em frente a esse edifício que se deu uma das mais graves colisões entre a esquerda estudantil, representada por seus alunos e pelos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que fica em frente, à época alinhados com o regime militar. Esse episódio foi mais um dos muitos daquele distante 1968, ano divisor de águas, que veio a influir definitivamente nos rumos que o Brasil trilharia a partir dali.

Mesmo com sete anos de idade, pude sentir de perto os reflexos da luta ideológica travada à vista de muitos e pelos “bastidores” e porões do governo. Meu pai estava alinhado ao lado dos “oprimidos” que tencionavam pegar em armas para combater o “Regime de Exceção”, nome poético para designar um governo que “prendia e arrebentava”. Ele foi várias vezes chamado para “interrogatórios” – eventos que duravam algumas semanas. À época, restava a quem se opusesse, além da revolta armada ou protestos públicos, a outra alternativa que se colocava ao cidadãos do País – “Ame-o Ou Deixe-o”. Desde então, com a Abertura, alcançamos a liberdade de expressão, a volta dos exilados, a reintegração destes à vida política da nação, o que deu ensejo a que muitos fossem eleitos para cargos de comando e…

Atualmente, os caminhos dos “combatentes” de esquerda e os “defensores” da direita se confundem em um jogo de palavras que mais se assemelham a peças de propaganda, sem nenhum embasamento em um saudável embate ideológico que vise a real solução para os problemas nacionais. Antes, transformou-se em uma luta pelo poder que visa quase que unicamente a sustentação de um sistema de compadrio entre os ocupantes dos diversos cargos do executivo, legislativo e judiciário. Nesse ambiente, os extremistas de ambas as vertentes se sentem à vontade para embrenharem-se com prazer na extinção da Democracia, entrave para quem não acredita que ela seja o meio mais justo para chegarmos à solução de nossas diferenças.

Cheguei atrasado ou atrasou-se o País?…

BEDA / Pobres Machos

Pobre Macho
Davi, de Michelângelo

Eu acredito na superioridade das mulheres e em seu domínio cada vez mais abrangente. Se formos descer até a base da existência celular – mitocondrial – não restará dúvidas de que sejam prevalecentes. A nós, homens, quase nos restará apenas ajudar na fertilização. Virá o dia em talvez nem isso será mais necessário. Em uma futura sociedade de Amazonas, teremos que nos conformar com a nossa condição de meros coadjuvantes na história da humanidade.

Quando fiz o curso de História, os documentos a que tive acesso relegava o papel da mulher ao ostracismo. Aquilo me deixava intrigado, visto que ao constituir metade da população, a sua participação surgia proporcionalmente ínfima. Tal qual Einstein, que aferiu que a distorção ao observar o Universo se devia à presença de corpos celestes não detectados, percebi que a projeção feminina estava mal representada. Percebi que ao ser escrita por homens, não haveria como ser diferente. Se pudéssemos recontar todos os acontecimentos do Grande Teatro Humano sob nova ótica, os bastidores viriam à frente do palco e tudo seria mais compreensível.

Quem me conhece, sabe que sou encantado pela mulher. Cedo, intuí que a opressão sofrida por elas em vários rincões do mundo, defendida como sendo a base de crenças e culturas, se deve, mormente, ao medo atávico que os homens têm de sua atuação, o que não existia no início dos grupamentos humanos, em que havia equanimidade no poder.

Sendo assim, ao compreender que a manutenção do Patriarcado é algo prejudicial a todos nós, chamo, a quem interessar possa, que examinem a perigosa posição  do macho humano, patrocinador dessa forma de organização social. Que se instaure a visão do movimento “machista” sob um ângulo positivo. Que ser macho-masculino não seja considerado algo em oposição ao modo fêmea-feminino de ser, conceitos ultrapassados que são, todos eles.

Para que o “Neo-Machismo” tenha fundamento, toda a rancidez advinda da expressão deverá ser reavaliada. Assim como o Feminismo, devido à ação de algumas representantes, não possa ser encarado como um movimento contra o homem, quando pessoalmente considero a favor da humanidade. Ou seja, ser homem não deveria ser adjetivado como “odioso” – uma aversão a mulher.

Há algum tempo, surgiram piadas relativas a melhor escolha entre 15 ou 30 cm do tamanho de sanduíches – mote publicitário de uma rede de alimentação rápida. Cada vez mais ocorrem citações mais ou menos explícitas com componentes sexuais, ao qual já aludi relativamente ao lançamentos de cervejas. Talvez o novo “Movimento Machista” devesse fazer uma moção de boicote a essa empresa. Obviamente é uma insinuação contra o macho menos dotado, em termos penianos. Considero que seja uma questão a ser colocada com cuidado – a da defesa do macho pejorativamente estigmatizado por ser de menor expressão de medida. Assim como a mulher, sem as formas idealizadas por uma visão deturpada, são discriminadas por não corresponderem a um padrão específico.

Aos poucos, a mulher ascenderá ao posto de protagonista. Esse processo é irreversível. Eu espero, sinceramente, que seja ao lado do homem. Que a mulher não haja como ele, mas seja a alternativa viável à nossa representação até hoje. Com a ascensão de mulheres ao poder, não apenas político, a humanidade estará em melhores mãos. Com a experiência que tenho ao observar o quanto consegue realizar uma mãe da Periferia, que trabalha, cuida de casa, dos filhos e ainda assim, se expressa como mulher, sei que seremos pessoas melhores sob o seus cuidados. Até o tempo que ser homem ou mulher ou qualquer outro gênero derivativo do masculino e do feminino não seja essencial para designar o caráter de um ser humano.

Ah, apenas para não pairar dúvidas: estou na média…

Sobre Maria Madalena

Mamãe

A foto acima foi tirada na Praça da República. A estátua que podemos ver atrás de mim e de minha mãe já não existe mais. Bem como o mundo que a rodeava. Dona Maria Madalena, fisicamente, também já passou. No entanto, eu ainda a tenho viva dentro do peito, estranhamente a ocupar cada vez mais espaço em minha mente.

Em um tempo em que nós, homens, somos recriminados por amarmos o lado vaidoso da mulher, como se isso denotasse um sintoma de machismo, me recordo que minha mãe gostava muito de se maquiar, pentear seus belos cabelos, se perfumar, escolher uma boa roupa. Eu a via sentada em sua penteadeira, escolhendo os brincos, as pulseiras ou os colares que iria usar. Aprumada e bonita, gostava de dizer que, moça ainda, quase se tornara garota-propaganda, mas que a família foi contra esse desejo porque a profissão de atriz era muito mal vista naqueles tempos e os seus irmãos, que a criaram na ausência do pai (morto aos seus quatro anos) e da mãe (morta aos seus doze anos), a proibiram firmemente, chegando a quase impedi-la de sair de casa para fazer qualquer coisa.

Durante toda a sua existência, a lembrança de sua mãe, Dona Maria Manuela, se fez presente a tal ponto de verter sempre uma lágrima a cada momento que falava sobre ela, entre a tristeza da descrição da doença que a levou aos poucos e a alegria ao revelar que ela amava cantar, incluindo o Hino Nacional Brasileiro, que aprendeu rapidamente logo que chegou da Espanha, além das canções de Francisco Alves, Vicente Celestino, Carmen Miranda e as irmãs Batista – Linda e Dircinha. Todavia, a recordação de um fato que ocorreu um pouco antes do AVC de Dona Maria Manuela, a deixava arrasada, como se atribuísse a si a culpa pelo que sucedera – uma resposta malcriada de sua parte à uma solicitação da mãe e que teria sido a última coisa que dissera à ela, antes de falecer.

Quando ouvi essa história pela primeira vez, fiquei assustado com a possibilidade que isso viesse a acontecer com ela por causa das minhas próprias malcriações. Não conseguia conceber viver sem a presença de minha mãe e, por algum tempo, essa transferência memorial funcionou para aplacar a minha rebeldia. Porém, na adolescência, com a efervescência hormonal que todos nós sofremos, nem isso evitava que brigasse constantemente com ela. A ausência do meu pai contribuía para que a situação não fosse melhor. Hoje, eu sei que, psicologicamente, queria substituí-lo, incorporando as críticas à minha mãe que ele, injustamente, usava como pretexto para se afastar de casa. De certa forma, parecia que eu a achasse responsável por ele ter ido embora.

Apenas relativamente bem perto de sua passagem é que compreendi o quanto estava obliterado a minha visão do que acontecera, mas não entrarei em maiores detalhes sobre isso, agora. O que eu quero, neste Dia das Mães de 2019, é agradecer publicamente por a senhora ter me amado, minha mãe! Por acreditar mais em mim do que eu mesmo – algo que não compreendia. Fico a imaginar o que enxergava naquele rapaz o que eu nem suspeitava. Ou talvez fosse somente crença de quem ama, como a mãe que visita o filho na cadeia e espera o tempo de remição da pena, o acompanhando, apesar de todos os erros que cometeu. Sei que a senhora está em paz porque assim me falou quando a encontrei “em sonho”. Vou encerrar declarando o que pouco consegui anunciar quando estava nesta dimensão: “Eu a amo!”…

BEDA / Auto

 

Auto

Vivemos frequentemente situações que condições externas nos impõe restrições de movimentação e de visão. Em uma longa viagem de ônibus ou metrô, temos rostos de estranhos postados tão próximos quanto o de amantes. Paisagens repetidas tornam-se, com o passar do tempo, visões de quadros de artistas sem talento. A solução mais ao alcance de nossas mãos, olhos e ouvidos, tem sido nos distrairmos com a leitura de um livro ou, mais assiduamente, utilização de aparelhos de nexos – ou dispersão.

Vez ou outra, podemos até realizar outras ações nas raras vezes que conseguimos sentar. Lembro-me que um dos meus melhores trabalhos na Faculdade de História foi feito, literalmente, nas coxas, na hora e meia que me levou de casa à USP. No entanto, era outra época, no final dos 80, e os trabalhos podiam ser realizados à mão e as distrações  talvez fossem menores.

Estamos cada vez mais vinculados à Rede,  onde quer que estejamos. Se a Nossa Senhora  das Conexões nos permitir, através dos instrumentos eletrônicos de mediação, como celulares e computadores, podemos jogar contra adversários virtuais de países amigos, recebermos mensagens do além Rio Tietê, nos inteirarmos de novidades que temos urgência em sabermos antes que se tornem antigas na próxima hora, ouvirmos canções de amores perdidos-encontrados e conversarmos com pessoas do outro lado mundo, enquanto o próximo ao seu lado está sendo sonoramente ignorado.

Há alguns anos, ao estar ouvindo o noticiário matutino pelo celular, com os fones de ouvido enterrado nos ouvidos, fui facilmente furtado da minha carteira e de outro celular por um heterogêneo bando de mulheres dentro do ônibus. Foi um perfeito trabalho de equipe – enquanto uma das moças impedia que eu avançasse (uma baixinha que mal alcançava a barra de cima) outras duas se assenhoravam do conteúdo da bolsa de couro que usava para ir à faculdade.

Logo que fizeram o serviço, desceram rapidamente, deixando uma bem vinda clareira na área em meu entorno e na minha bolsa. Com certeza, teria percebido a movimentação estranha se estivesse com meus sentidos em alerta. Enquanto recebia notícias dos tumultos na França, a ação perniciosa de algumas pessoas tumultuava a minha vida.

Outro dia, mais recentemente, ao tentar descer no meu ponto, solicitei ao rapaz à minha frente, em voz alta, que me desse passagem. Como ele não se movimentava, toquei em seu braço como se a minha vida dependesse daquela oportunidade e ele me olhou com a expressão de quem estivesse sendo agredido por um monstro. Percebi, de imediato que ele estava com fones de ouvido. Os dois ou três segundos que se passaram nessa “conversa” de sensações, foram o suficiente para que o ônibus fechasse as portas e, célere, saísse em seguida para aproveitar o semáforo sinalizado em verde. Desci apenas no ponto seguinte.

Fiquei plenamente desconcertado com a situação. Na época, havia deixado de usar dos fones de ouvido, desde o furto que sofrera. Ajudou-me a decidir admoestações da minha mulher, que se sentia ofendida com a minha “ausência”, mesmo quando estava em casa. Por um tempo, abri mão daquele instrumento. Voltei a usá-los mais assiduamente nos últimos anos, desde que deixei de atender clientes no tempo devido em algumas ocasiões. Para meu desgosto.

Ao empregarmos o tempo ocioso dessa forma, nos distanciamos do mundo real… ou do que chamamos de mundo real, que eu traduziria livremente como a arena em que jogamos as nossas individualidades. Como contraponto, podemos começar a exercitar a conversa “ao vivo” com quem esteja presente, ali, do lado. Porém, quem se permitiria ser invadido dessa forma por um desconhecido?