Dia De Todos Os Pecadores

Dragão na tarde do dia de todos os santos…

Hoje é Dia De Todos Os Santos. A brincar, poderíamos dizer que é, portanto, Dia do Homem, como já ouvi por aí… Mas essa brincadeira não deixa de ter um fundo de verdade ou meia verdade. Afinal, o que seria de todos os santos se não fossemos nós, pecadores, homens e mulheres? Fique, quem quiser, à vontade para excluir-se desse grupo. Falo mais por mim, que me sinto o menos são dos homens.

Um dia, eu quis ser santo, mas com o tempo percebi que sem rastejar os pés ao rés do chão, não há como almejar subir a montanha. Como também percebi que um santo nunca se considera verdadeiramente um, caso contrário, adviria a vaidade, um dos grandes pecados ao qual somos expostos como seres humanos. De minha parte, oro e vigio, mas vivo a cometer os meus pecados e me penitenciar por cometê-los. E sei que pago por eles, no ato! Ao errar, coloco em jogo um processo de causa e efeito que normalmente resultará em uma situação que me trará algum dano. No entanto, a pior situação se dá quando o meu erro não faz sofrer somente a mim, mas também a quem me acompanha em minha (nossa) jornada.

A consciência de que não estamos sozinhos quando pecamos, nos faz pensar duas vezes ou mais antes de realizarmos algumas proezas, passos fora do caminho… Mas eis que alguns dos passos fora do (bom) caminho serão aqueles que, estranhamente, podem nos levar à Iluminação… Ou essa pode ser, simplesmente, uma desculpa para voltar a errar… Talvez, uma prova transversa de humildade diante de nossas fraquezas para tentar sobrepujá-las.

Antes que venha a fazer um compêndio de Santidade versus Humanidade, que não iluminará as zonas escuras de nossa alma e nem resolverá as dúvidas universais sobre como devemos nos santificar diante de tantas solicitações do cotidiano mundano, declaro que precisamos tanto dos santos a nos dar exemplos de inteireza quanto os santos precisam de nós para serem assim declarados, por simples contraste de comportamentos.

Portanto, hoje, além de Dia De Todos Os Santos, é Dia De Todos Os Pecadores, aos quais, humildemente me incluo, a esperar que chegue amanhã, o Dia Dos Mortos, a saber que a Morte nivela tanto uns quantos outros…

O P. Da Questão

Sobre a divulgação de um vídeo em que supostamente aparece um candidato ao governo do Estado de São Paulo, tenho algo a dizer. Eu o recebi, como muitos de nós, repassado como rastilho de pólvora. Nada diferente do fenômeno que caracterizou as atuais eleições e que fez sua estréia em 2014, de maneira não tão ampla, mas decisiva. Conseguir eleger-se como base em “fake news” pode até ser fácil. Porém, após chegar ao poder, quem as utilizou de forma mais esperta conseguirá governar com “fake news”? Já vimos que não.
Quanto ao vídeo, especificamente, o que vi foi um homem, descontraído, cercado por trabalhadoras em seu ofício, em evento particular, filmado por um outro participante. Se a filmagem foi feita de modo consensual ou clandestina, a sua difusão passa pela intenção de quem o faz: – Quer desacreditar a personagem principal do vídeo (no caso)? Ou às moças? O posicionamento hipócrita quanto à instituição familiar? O p. do político? Quem quer atirar a primeira pedra? E se vier a atirar, ganha o que com isso?
Os arranjos de relacionamentos pessoais e familiares são tantos e tão diversos do que se coloca como tradicional ou “correto”, que quem diz não ter conhecimento ou é ingênuo ou se faz de inocente. Ou, para não parecer tão crédulo quanto à hipocrisia reinante, o meio em que vive é absolutamente separado da vida real, como se fora participante de uma tribo isolada no meio da Amazônia.
As configurações e as questões internas do núcleo familiar – o casal – , sendo de cunho eminentemente privativas, só interessam aos envolvidos. Mas somos um povo fofoqueiro, que as redes sociais apenas possibilitou amplificarem os efeitos de modo exponencial. Antes, mesas de bar, salas das casas ou praças eram os locais nos quais se propagavam a fofoquinha aparentemente inocente. Hoje, mesmo uma pessoa solitária, participa da comunidade.
Finalmente, o p. da questão, poderá a vir ser tão importante que o fará perder a eleição? Ou receberá a solidariedade daqueles que viveram ou gostariam de viver a condição em que ele se apresenta? Deixaremos de discutir o discurso político ou a postura ideológica do próprio político para discutir o p. do político? A circunstância em que se apresenta deixará escancarada a sua vulnerabilidade ou sua impostura? Em resposta, o político, ao lado da esposa, refutou o vídeo como falso ou montagem. Quem realmente sabe se isso é verdade são os participantes ou a própria esposa, conhecedora do p. da questão.
Se ele, candidato líder nas pesquisas, tiver revertida essa tendência, será pelo motivo errado. Posso contestar suas propostas ou seu posicionamento a favor de um dos candidatos a presidência, não porque supostamente goste de interagir com algumas eleitoras de forma íntima.
Abaixo, vídeo de Mal Necessário, composição de Mauro Kwitko e interpretação do grande, grandioso e grandiloquente Ney Matogrosso.

Franciscano

FRANCISCANO
Povo sem luz à vista…

Bem moço, em nosso televisor PB de 14″, em uma dessas sessões noturnas de cinema, assisti a “Irmão Sol, Irmão Lua”, de Zeffirelli, filme de 1972. Recém adquirida a nossa TV 20″, em 76, após a introdução das transmissões em cores no Brasil, o revisitei, com as suas tonalidades fortes do movimento Flower Power, na Sessão da Tarde. Quando passou no cinema, em sessões especiais, voltei a sentir a brisa, o frio, o sol, a angústia, a Natureza, o amor, a busca, o desencontro de propósitos terrenos e espirituais, o encontro de almas de Francisco e Clara.

Em meu romantismo pueril, torcia para que o casal tivesse se unido ordinariamente – homem e mulher – como seria natural entre dois belos jovens, de famílias abastadas, estabilidade de finanças e poder sobre as pessoas. Eu era ateu ou, minimamente, um agnóstico. Repentinamente, algo despertou em mim. Leituras e mensagens foram surgindo em meio a tantas outras solicitações. Adentrei pela senda do imponderável. Essa foi a fase em que me tornei mais francamente religioso, não no sentido de frequentar missas e pregar mandamentos. Na verdade, percebia a Verdade em manifestações vindas de todos os quadrantes, de todas as crenças. Tornei-me um livre pensador cristão-franciscano-budista-hinduísta. A minha igreja era onde estava.

Eu quis radicalizar a minha opção, meio que perdido, desconfiado das instituições, estudante de História e, portanto, ciente de todas as atrocidades cometidas em nome da Fé. Ainda assim, acreditei que a Igreja Católica pudesse me auxiliar no processo de amadurecimento da Busca. Comecei a estudar para me tornar Frei – irmão menor – na tentativa de atuar mais fortemente no caminho de chegar ao cumprimento do máximo mandamento: amar ao outro como a si mesmo. Eis que me deparei com a máxima incongruência: eu não me amava… Eu me conhecia demais. Diante do espelho, encontrava todos os dias, o meu maior antagonista…

Depois de muitas dúvidas e quase nenhuma certeza, fiz a opção pelo caminho contrário, que relatei em história já contada em uma crônica que está em meu livro REALidade, pela Scenarium Plural – Livros Artesanais. Constituí família. Na dificuldade dos relacionamentos interpessoais, creio ter feito a escolha correta para conseguir me amar um tantinho mais. Muito menos do que aos outros, que prefiro não julgar. Por outro lado, não poupo a mim. É a maneira que encontrei de me conduzir à Luz. Ainda estou a tentar me livrar da “culpa” de me sentir bem em um mundo tão desigual.

Um dia, caso tenha oportunidade, irei a Assis. Quero caminhar pelos mesmos campos, mirar os mesmos poentes, acordar com as mesmas auroras que o meu irmão do Seculo XIII. Quero, como Francisco, me despir de mim, abrir os braços para o mundo ao meu redor e me sentir um com o Todo…

BEDA | A Leoa

Fênix
A Fênix de olhar leonino…

Eu me lembro de agosto antes de você. Era o mês indeciso – por vezes úmido, outras vezes, seco; meio quente, meio frio; a luz inclinada a festejar as cores mais absurdas no entardecer. Mesmo os tons de cinza eram mutantes e se percebia o sol a brincar de esconde-esconde com quem quisesse vê-lo. Agosto forçava o reinício dos ciclos escolares e abertura do segundo semestre. Desde pequeno, demarcava a volta para o ambiente onde encontrava os meus desiguais. A minha vida de rapaz só tinha futuro, lá adiante, igualmente agostiniano – indefinível…

Anos passados por mim, noivei em agosto e, um ano após, aconteceu você. Era Dia dos Pais, então. Pré-anunciada meses antes, nomeada antes de vir à luz, Romy – a primeira dos Oliveira Ortega. Veio como tinha que vir, inesperada-esperada, carreando tanta energia que mudou tudo ao seu redor. Este mês, de remediado, se transformou em intenso. Passou a ser o primeiro do resto da minha existência terrena, aquele que me fez homem e pai.

Como é incrível perceber o quanto você cresceu, além de qualquer expectativa. Como é inimaginável saber que você sente, além dos nossos pobres sentidos, toda a dor do mundo. Como é extraordinário vê-la renascer, mergulho após mergulho na profundidade do organismo, no ser que é. Como é insólito conhecer um ente mitológico em plena modernidade – uma Fênix leonina. Como é um privilégio poder amá-la e testemunhar o amor a reverberar para além da linha do horizonte, sem obstáculo a lhe impedir. Como é bom ser o seu pai, ainda hoje, 28 anos depois…

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

Clichê

CORAMÃO
Coramão

Moça de personalidade forte e plena de certezas cambiantes, Marinês carregava cheiro de aventura e independência de vento. A libriana provocava redemoinhos por onde passava. Inesquecível, seu nome era repetido em rodas das quais sequer participava. Gostava de se expressar fisicamente e sua linguagem corporal atraía homens e mulheres. Apesar disso, sua primeira experiência sexual se deu relativamente tarde, aos 18 anos. Quis esperar para se envolver com quem realmente se identificasse, se bem que idealmente não gostaria de se apaixonar por ninguém

Na faculdade, aconteceu de conhecer Antônio, que a atraiu francamente desde que o viu entrar na sala de aula. Veio a descobrir que aquele era um jovem de pedra. O virginiano tinha consciência cristalina de seus propósitos, planos calculados para o futuro. Havia decidido passar o curso inteiro voltado completamente ao estudo. No entanto, sentiu vir da janela, o que imaginou ser brisa, o sopro inebriante de Marinês. Suas convicções se desvaneceram e em duas semanas, já estavam totalmente envolvidos.

O primeiro semestre foi dividido por Marinês e Antônio entre estudos truncados e dias trocados por noites de amor e paixão. Tiveram notas apenas medianas, suficientes para acessarem as próximas matérias. Os dois conversaram sobre como deveriam levar mais seriamente os seus projetos e que resultaria em menos tempo juntos. Durante as férias, passariam unidos o quanto pudessem, mas depois, vida nova.

Enquanto para Antônio aquela era uma contingência necessária, que não implicaria em separação definitiva de Marinês, para ela fazia parte de um projeto pessoal. Quando decidiu começar a sua vida sexual, a ideia inicial era que não ficasse com apenas uma pessoa. Antônio foi um acidente de percurso. Apaixonar-se como aconteceu não era desejável. Achava um baita clichê ficar com o primeiro que fodesse. Namorar, noivar, casar, ter filhos… Toda aquela baboseira, como dizia sempre, nunca foi o seu desejo. Queria conhecer muitos homens e mulheres, novos e velhos. Absorver o máximo de cada relação para se conhecer e conhecer a vida.

Terminado o período de férias, Antônio esperava reencontrar Marinês após a semana que estiveram separados. Concordaram que não se comunicariam nesse período para que pudessem resolver questões particulares, cada um em sua respectiva cidade. No retorno, estranhou que não conseguisse voltar a entrar em contato com ela. Não a encontrou na faculdade e não obteve nenhuma informação pelos colegas mais próximos. Alguns dias depois, uma amiga mais íntima de Aline disse que ela viajou para o Canadá. Sem avisá-lo. Passado um mês, percebeu que ela o havia deixado. Completamente arrasado, chegava a imaginar que ela não tivesse existido. A brisa refrescante transformou-se em furação. Sentia-se terra arrasada.

Marinês conseguiu, a muito custo emocional, deixar o Brasil de Antônio. Respirando novos ares, implementou seu objetivo de livrar-se das amarras sociais que condenam as pessoas a um jogo de cartas marcadas, em que todos perdem. As pessoas pelas quais passou a sentiam quase amorosa, quase alegre, quase inspiradora, quase real. Quase a amariam, se não fosse a desconfiança que nunca teriam acesso a seu coração…