Qual O Preço Do Amor?*

Nesta época do ano, em que se fala muito do amor universal, talvez seja o momento em que o desejo de estar junto a alguém nos assalta em todos os sentidos, incluindo os sentidos físicos. Carentes por um carinho, o procuramos de diversas maneiras. Esta parede fazia parte de um conjunto de pequenos prédios com cortiços, casas de prostituição e pequenos comércios que foram demolidos para dar lugar a um projeto cultural, na região da Avenida Duque de Caxias, perto da Sala São Paulo. Mais tarde descartado, atualmente a área é ocupada por um conjunto habitacional — uma ilha cercada por adictos da Cracolândia por todos os lados.

Fico a imaginar o ambiente da qual essa construção fazia parte, imerso à meia-luz, em que homens buscavam o amor oferecido de forma tão direta. Apesar de tosca (ou por isso mesmo), gosto muito da pintura. O braço da moça, de fisionomia tristonha, de cabelos longos encaracolados e peito pequeno, indica o caminho para a satisfação dos desejos mundanos de quem necessitasse de um simulacro de amor, ainda que pago…

*Texto de 2014, atualizado em 2021, à respeito de uma foto de 2011.

O Terceiro Filho

Humberto, primeiro, à esquerda, em raro momento de toda a família unida na mesma imagem.

Outro dia, no supermercado, esperava na fila do caixa enquanto, à minha frente, se encontrava uma mulher razoavelmente jovem com uma criança pequena no colo e mais duas grudadas à sua saia. Deviam ter cerca de um ano de idade de diferença entre uma e outra. O meu primeiro pensamento foi o de lamentar pelo futuro incerto dessa família tão típica de nossa Periferia. Era bem possível que o pai das crianças estivesse trabalhando. É muito provável que não participasse das vidas deles. Algo tão comum de nossa Periferia, que é o mundo todo. De agora e de todos os tempos. Quase imediatamente deixei o primeiro pensamento de lado e viajei para antes na minha própria história.

Olhei para as crianças novamente. Eu seria aquela curiosa, que olha tudo ao redor com os olhos de novidade. Observa a mãe conversando com a caixa, acarinha os pés do irmãozinho no colo dela, sorri um sorriso tímido quando vê passar o único pacote de bolacha além das outras poucas compras. Apesar de pequeno, será ele a carregar com dificuldade, orgulho e coragem de homem da casa as sacolas até a sua casa, com a mãe, a irmãzinha do lado querendo ajudar e o terceiro-filho-segundo-irmão no colo, três anos mais novo.

Festejando com Dona Madalena o momento que ela mais gostava – o Natal.

Com as ausências constantes de meu pai, minha mãe decidiu não ter mais filhos, normalmente fertilizados nos retornos eventuais do marido à casa. O que era a sua família diante da importância da admirável luta pela redenção do povo pela revolução (que nunca houve)? Diriam que seria um motivo muito melhor do que simplesmente sair pela porta e nunca mais voltar como era uma quase regra do abandono parental, além de outros menos incisivos. Volta e meia, choro por meus irmãos que nunca vieram à luz, enquanto me solidarizo com a mulher sem saída melhor do que recorrer ao desparto sequencial.

Nos primeiros anos da Ortega Luz & Som, com o Sr. Edison, nosso transportador e amigo.

O terceiro filho de nossa família, meu irmão Humberto, hoje completa mais um ano de vida. O último dos três filhos vivos de Dona Maria Madalena e Sr. Odulio Ortega. Somos sócios na Ortega Luz & Som há uns 30 anos e entres brigas e concordâncias percorremos unidos a caminhos paralelos. Temos personalidades e gostos diferentes e mútua admiração pelo que nos tornamos — pais imperfeitos, mas presentes; irmãos discordantes, mas solidários; homens comuns, mas que tentam avançar na compreensão do mundo; filhos reverentes à mãe Natureza e que dão valor à vida. Eu sou mais intelectualizado (uma forma de desvio do racionalismo), enquanto ele é mais prático. Enquanto eu dou voltas em torno da Terra, ele vai direto de um ponto ao outro. Enquanto me encanto com versos de Pessoa, ele lê e destrincha um diagrama eletrônico como se fosse uma simples sequência de números naturais. Enquanto eu faço as relações públicas e contatos da Ortega, ele é o que faz as coisas acontecerem. Enquanto ele cultua um drama, eu os roteirizo e transformo em contos dramáticos. Foi o meu primeiro leitor e passei a escrever mais assiduamente para vê-lo encantado pelo que eu criava.

No trabalho, na Festa da Associação de São Vito, há oito anos.

Enfim, estamos juntos quase há quase 60 anos e apesar das provectas idades, somos chamados de “meninos do som” por muitos. Talvez reconheçam a juventude em nossos corações ou porque só conseguem entender que apenas jovens possam carregar, montar e operar a quantidade de equipamentos de som e iluminação levados ao segundo andar de buffets, salões de clubes e outros espaços horas antes. Para depois ficarmos acordados até de manhã para voltarmos à lida algumas horas após. Além da necessidade de trabalhar, gostamos do que fazemos. Porque vivemos enquanto trabalhamos. E sobrevivemos. Passamos pela Pandemia até agora e esperamos retomar o nosso caminho nos cuidando, por nós e por quem amamos.

Em 2021…

Pelo tempo que nos for permitido pela boa sorte, pelos homens e por Deus, estaremos juntos, Humberto! Parabéns por seu dia!

B.E.D.A. / O Reizinho E A Rosinha

O Reizinho imperava sobre tudo ao seu redor. Mesmo não sendo dono de tudo — na verdade quase nada lhe pertencia — dispensava a todos aquele olhar de que o espaço que dividia com as outras pessoas era de sua posse. Isso era irrefutável para qualquer um que o conhecesse. Os homens, o admiravam, as mulheres, o amavam. O que insinuasse desejar, lhe era oferecido. O que se inclinasse a pedir lhe era dado. No entanto, em verdade, o Reizinho vivia a deriva de si mesmo. Não se sentia senhor de seu corpo e muito menos de seu destino. O estranho é que o olhar que intimidava provinha de seu sentido de deslocamento. O Reizinho era um estrangeiro dentro de sua casa, quando normalmente saia em viagem em busca de seu coração, em longas sessões de circunspecção sobre o nada. Fora dela, caminhava como um posseiro de mentes, seduzindo inconsequentemente a qualquer um que se aproximasse demais de sua forte presença.

Em determinada época, o Reizinho começou a gostar de jardinagem, talvez a ocupação mais próxima de uma sensação de completude que já experimentara algum dia. Dera de passar grande parte do dia a remexer na terra, a podar galhos, a plantar sementes de flores diversas e plantas próprias para a infusão — hortelã, erva cidreira, erva doce, melissa, camomila… flores

Em uma parte afastada do canteiro, viu surgir uma haste portando um botão roseado, o que achou extraordinário, visto que não lembrava de que tivesse plantado uma roseira. Ela apareceu assim, do nada, impondo a sua força leonina de dona do jardim. O Reizinho, de dominador, passou a dominado pela Rosinha. Percebera, então, que encontrara um propósito para a sua vida. Dali por diante, sua função seria a de protegê-la e adorá-la. De vê-la banhar-se à chuva que a vestia com gotículas de diamantes com a qual dançava ao som do vento vespertino e à luz do sol matutino. Dali por diante, o Reizinho e a Rosinha permaneceriam unidos — o seu primeiro olhar pertenceria a ela; o perfume que evolasse se dirigiria apenas a ele, infinitamente… Mesmo que ambos soubessem que tudo era finito.

Participam do B.E.D.A.:
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Adriana Aneli
Cláudia Leonardi

B.E.D.A. / De Lua A Lua*

Saio à rua para buscar alimento no mercadinho próximo. Como o meu cérebro vive em constante tempestade temporal, viajo para muito antes e imagino a dificuldade que os primeiros homens enfrentavam para conseguirem se alimentar. O perigo à espreita do caçador que eventualmente fazia as vezes de caça. Em muitas situações, nada mudou depois de centenas de milhares de anos…. Viver era (é) conseguir fugir dos dentes da besta fera por trás de cada tronco de árvore da floresta ou nas esquinas das cidades.

Alheios a isso, os meninos da Periferia empinam pipas neste final de Julho. Logo mais, Agosto trará a volta às aulas. Eles desejam espremer até a última gota a vontade de alcançar a Lua no firmamento. Tentam dominar a mecânica do voo. Fazem rasantes, sobem velozmente, exercem o desejo permanente de voltarem à essência da qual somos feitos — sonhos.

Ao caminhar pela tarde-quase-noite, quando a luz ainda se espraia pelo céu e a Lua quarto-crescente surge plena de promessas, presencio outros meninos e uma menina, a melhor de todos, jogando na quadra esportiva. Vestem camisas de times de fora. O dito “País do Futebol” transformou-se um entreposto vendedor de mitos. Jogar pelo prazer do jogo não é suficiente.

A vontade de se tornar estrangeiro é o maior objetivo. A Pátria, apenas uma referência distante… Tão distante, que vestir um dia a camisa do País em que nasceu é apenas mais um troféu na carreira de quem nem se iniciou. Por causa de alguns ídolos, milhões vendem as suas almas de criança, enquanto a Lua participa como simples testemunha semicircular, a pairar solene e indiferente.

No dia seguinte, estou no Centrão, a andar por ruas em que hotéis baratos são usados por amantes refugiados e prostitutas usam como posto de trabalho. Observo um senhor que caminha com dificuldade, a apoiar os seus passos curtos com uma bengala. Através de uma alça pendurada no pescoço, carrega uma tela vazia recém-comprada, a fazer contrapeso. Especulo que seja pintor. Concebo que aquele plano vazio será transformado por seu talento em realidade sonhada e o identifico como um igual a mim…

Logo mais, me descolo por baixo da terra, serpente em meu ninho, e chego à Paulista. Através das torres de vidro, as luzes camuflam a presença da Lua. São reflexos enganadores do espírito empreendedor de seres humanos de todas as eras. Um dia, o ciclo se completará e salvaremos o planeta de nossa presença. Nossos companheiros animais, sobreviventes a nós, olharão para as sucessivas fases da Lua, sem especularem como é refletida aquela luz perene que um dia fez sonhar os outros bichos que os aprisionavam. A Lua será, tão somente, um corpo inominável…

*Texto de 2017

Participam do B.E.D.A.:

Lunna GuedesAdriana Aneli — Claudia Leonardi — Mariana Gouveia
— Roseli Pedroso — Darlene Regina

O Tuaregue

Certa vez, em um hotel desses que já conheceu melhores dias, encontrei uma estatueta. Era a de um cavaleiro berbere, um tuaregue que mantinha a atitude imponente, mesmo sem apresentar a parte de baixo da perna direita, que jazia na base, junto às patas traseiras do cavalo. Essa mutilação não fazia parte da concepção original do artista. Apenas aconteceu, por descuido e consequente queda acidental ou por uma guerra entre espíritos guerreiros. Estacionado entre dois andares da escadaria de emergência, aquele herói que cavalga solitário para o passado ganhou, nesse dia, uma testemunha solidária que agora o revela à luz.

Tuaregue é uma variação nominal de termos que podem designar morador de um jardim, salteador ou, em uma versão folclórica muito difundida, uma ligação à palavra tawariq — “abandonado por Deus“. De alguma maneira, esta imagem ganharia maior significado, se assim fosse.

Porém, o povo seminômade chama a si mesmo de Imazighen — “homens livres” ou “homens nobres”. De fato, esta representação o mostra em nobre e eterna liberdade congelada, como quando controlou as rotas de caravanas pelo deserto do Saara por centenas de anos. Aqui, o que o venceu — o acaso, o imobilismo ou o fantasma do quarto 102?