Tenho por amor, a Tristeza. Eu A amo com a certeza dos amores impossíveis, daqueles épicos, inéditos, inauditos, malditos…
A minha Amada me livra da Ilusão de que o Eterno exista, de que a Vida persista para sempre, para além… Do Bem a vencer o Mal…
Eu A recebo em minha cama, faço amor com a rigidez do membro espasmódico a ejacular dores adormecidas e despertadas das minhas entranhas… Estranhas testemunhas da minha entrega sem Esperança…
Noite feita, encontrei manequins presos em uma vitrine. Eu os achei um pouco tristes, a espera de serem libertados… Ilusão! No máximo, caso isso ocorresse, buscariam ir para trás de outras vitrines. São profissionais. Atuam assim a tanto tempo que não sabem fazer mais nada. É o preço que se paga por serem eternamente jovens e belos, corpos irretocáveis, firmes e lisos. Não se importam sequer que não tenham cabeças, alguns… São bem pagos por isso. Em roupas da moda.
As vitrines são atraentes, luminosas. Muitos creem que sejam o melhor lugar do mundo para se morar. A tristeza que apresentam, de início é falsa. Faz parte do padrão. Junto a um certo ar blasé. Tudo para atrair a atenção. Assim como seria falsa a alegria que expressassem. Depois, como ficam permanentemente engessados num mesmo esgar, desconhecem seus reais sentimentos. Perderam a sensibilidade emocional. Porém, como recompensa, recebem muitas curtidas. Vivem e estão mortos por isso.
Outros tons de cores… Outros ângulos da luz solar… Entre as nuvens e a poluição, poemas visuais se fundem e se dissolvem diante de nosso olhar…
Algo de muito perturbador existe em mim Que prefere um céu nublado a azulado As nuvens me trazem a ilusão de festim Enquanto limpo, parece de tempo fechado…
Divagações à sombra de uma mangueira, da qual espero ver os frutos madurados.
O meu amigo Ivan Rocha passou de “noivo” para “solteiro” no Mural do Facebook. À propósito do fato divulgado de maneira tão direta em seu perfil, comentei: “Ivan está só, está ao sol, está inteiro, está solteiro!”. Ao que ele lembrou que uma vez, de forma similar, brinquei com a palavra “amortecedores”, destacada na propaganda de uma oficina mecânica: “É, o amor tece dores”… À parte o encontro de rimas forçadas ou significados ocultos no que dizemos ou vemos escrito por aí, divaguei à respeito da primeira montagem.
Estar só é estar inteiro? Quando estamos com alguém em realidade nos dividimos. E por que sentimos essa necessidade de sermos apresentados em duas partes? Se somos inteiros em nossa unidade, por que queremos encontrar completude em outro? E se queremos nos completar em outro, que força poderá manter unido um casal, além da ilusão do amor? Em se considerar o amor algo ilusório. Sempre haverá alguém que considere o desejo ou a paixão como sendo amor, se iludindo que queira unir-se a outro ser pela força dessa ilusão. Quando descobrimos ser só isso e a atração se esvai, o que antes era inteiro, nos deixa partidos, até… juntarmos os cacos, nos fazermos inteiro para depois sermos atraídos para nova partilha.
Ontem, eu a encontrei à tarde
Seguia o seu caminho, sem alarde
Tinha a ilusão de prendê-la à rede
Recolhê-la como água para saciar a sede
De embalar o meu sonho clareado
Por sua luz reflexa do sol dourado
Pois hoje todos a buscaram azul
De leste a oeste, de norte a sul
Todos queriam capturá-la em fotos
Prendê-la em nossa eternidade de rotos
Pois sendo ela mais antiga e permanente
A queremos tomá-la da vida a semente
Plena, instaura a esperança como sentimento
Dirige o olhar voltado para o firmamento
Que seja assim a nossa melhor procura
Pela Lua, pelo além, por nossa bela loucura.