BEDA / Saudade De Mim Em Você*

Sim…

agora eu sei que acabou…

Tentamos,

mas já não dói tão gostosamente…

A ferida cicatrizou…

Quis voltar a ser aquele que a amou

(não que eu não a ame ainda),

apenas sei que aquele amor já não me pertence mais…

Sei que o meu egoísmo pôs tudo a perder….

Sei que ficarei a penar

a eterna saudade de mim em você…

Aquele Eu que a amava daquela maneira,

sentia-se confiante,

sentia-se amoroso,

sentia-se confidente,

sentia-se poderoso,

sentia-se como se o mundo lhe pertencesse…

E o seu (meu) mundo era você…

Eu, aquele, sentia-se expandir para fora dele

até abarcar toda a Vida e a Natureza

Deus supremo,

ciente de seu poder,

esqueceu-se da fonte

que irradiava tamanha grandeza…

Ele, Eu, aquele,

esqueceu de você em si…

Então, algo se perdeu…

Eu me perdi…

Perdi você…

Quando se afastou, vociferei,

a tratei como uma rés que ferrei,

propriedade minha, que não se compartilha…

Que preferia ver morrer à mingua,

de fome e sede…

Preferi feri-la com a minha língua…

a mesma língua que antes vivia a esquadrinhar

a sua pele inteira…

A ultrajá-la com a mesma boca que a beijava

e lhe repetia palavras de amor…

E aquele Eu mal entendia que o verdadeiro ato de possuir

é um movimento de doação…

Que eu antepunha a exauri-la com a minha paixão…

Talvez, um dia, eu a reencontre em mim…

Porém sei que você não será mais a mesma,

tanto quanto sei que não serei decerto aquele

que então se sentiu total,

que não se permitia saber que tanto amor,

sem entrega e reciprocidade,

pode tornar-se pura masturbação,

velada veleidade

a causar tanto mal…

*Poema de 2017

Participam: Danielle SV / Suzana Martins / Lucas Armelin / Mariana Gouveia / Roseli Peixoto / Lunna Guedes / Alê Helga / Dose de Poesia / Claudia Leonardi

BEDA / Índio*

Pois, é! Esse sujeito de tez branca aí tem sangue dos povos originários de Pindorama (país das palmeiras, nome dado ao Brasil pelos ando-peruanos e pelos indígenas pampianos), mais precisamente Tupi-Guarani. Diz respeito à família linguística (tronco Tupi) com a maior distribuição geográfica no Brasil, estendendo-se por 13 estados e compreendendo cerca de 20 línguas vivas, com pequena diferenciação interna.

A Língua Tupi também é usada na Guiana Francesa, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina. O meu pai tinha pele menos clara e os olhos mais puxados. Em uma empresa que trabalhou, tinha o apelido de “japonês”. O que demonstra apenas que as generalizações englobam características e conceitos pré-concebidos que faz com que sejamos chamados pelos norte-americanos de “latinos” — algo que significaria “origem racial indefinida” — o que muito me orgulha.

Tenho igualmente ascendência hispânica, por parte de mãe, portanto, de alguma maneira, sou também latino, não apenas por morar num país da América Latina. Na encruzilhada de referências, também sou originário dos povos europeus que aportaram nas Américas, as invadindo território adentro — espanhóis, portugueses, ingleses, holandeses e franceses — que promoveram um dos maiores genocídios da História humana. Nas ilhas caribenhas, por exemplo, dizimaram os habitantes autóctones e as ocuparam com populações inteiras de africanos escravizados.

Tudo já começou errado, pois o italiano Colombo cria que havia chegado às Índias, denominando aos originários da terra de Índios. A invasão das Américas ocasionou além da morte de pessoas, igualmente promoveu a extinção de culturas, de línguas, de protetores do meio ambiente que dependiam da biodiversidade para sobreviverem. Ainda hoje sofremos, como brasileiros, com a política desatinada que coloca o ganho de capital financeiro em detrimento do ganho de capital humano e das outras diversas formas de vida. Estamos perdendo a chance de nos tornarmos um país diferenciado em termos de desenvolvimento sustentável, fundamentado no que a ancestralidade, na mitologia e na cultura indígena tem a nos oferecer. Há quem sonhe viajar para outros planetas. Podem ser os mesmos que “descobriram” neste planeta chamado Terra — que prefiro chamar de Gaia —, maravilhosos lugares e os tem destruído paulatinamente.

Agimos como um vírus que contamina seu hospedeiro, o mata e contamina outros corpos após outros corpos. Se há uma lição que a mortandade dos Povos Indígenas possa nos deixar é que devemos nos curar do mal de nos colocarmos acima de tudo e de todos. Que sejamos humildes e aceitemos que devemos parar de passar como tratores por cima das áreas reservadas aos povos originários, tratando-as como recursos econômicos à disposição de invasores-destruidores-genocidas modernos hoje patrocinadas por um ignominioso que os representa no poder central do Brasil.

*Texto de 2021, por ocasião do antigo Dia do Índio, atualmente dos Povos Indígenas, macabra e contraditória efeméride, já que desrespeitamos os povos originários todo o santo dia.

Louca De Amor

A louca de amor
explode em fogo e paixão…
A sua alma fulgura
sob a pálida pele,
em retesar de músculos,
em irradiação do plexo,
em espalmar de membros e terminações…

Dos seus braços saem estradas 
para a perdição, 
apontadas por seus dedos anelados 
por bijuterias baratas…
Dos seus cabelos caem estrasses
da última apresentação…
De sua boca e língua 
recebo beijos em mim,
em partes de mim, 
para além de mim,
em meu ânima…

Enquanto o seu peito arfa,
de seus olhos borrados de rímel
irrompe o sol
a iluminar o quarto escuro…
Por suas pernas desço 
até às estrelas, 
de onde subo rumo a um caminho 
sem volta,
enquanto o planeta revoluciona…

Foto por G1 / Globo

Metalinguagem

Não pise na metalinguagem
Flutue nela
Não suba na árvore da prosódia
A abrace
Não se desvie das ideias
As vista
Não passeie pelos objetos diretos
Os concretize
Não circule pelas temáticas
As atravesse
Não se incline ao entendimento
O seduza
Não projete os seus parágrafos
Os viva
Não caminhe pela transversalidade
O verseje
Não se apoie na leitura
A compreenda
Não creia na ortografia
A ame
Não se circunscreva à parábola
A amplie
Não atinja a compreensão
A saiba
Não use pleonasmos
Os sinta
Não estabeleça a fluidez
A Navegue
Não aposte na realidade
A sonhe
Não espere a palavra
Se dê a ela
Não escreva
Se escreva
Não desafie a boca
Use a língua
Não esqueça do riso
Arme o circo
Não nade no nada
Toque o fundo
Não dialogue com o fim
O conclua.

Cegos

encontrados
cada um por si a cada um de nós
quisemos nos perder em olhares
e fomos tão fundamente
que ultrapassamos a interpretação
das mentes
que mentem desmedidamente
quando se trata de paixão
fechamos os olhos
apagamos a luz
tínhamos que nos unir em corpos
que não nos dizem mentiras
procuramos as nossas bocas
nossas línguas encontrando as suas rotas
exploramos desvãos e precipícios
as permanências oscilantes do desejo
de intensas a mais intensas
tateando as reentrâncias
protuberâncias e volumes
por dedos-mãos, peles, pelos
sede de beber líquidos
experimentando o gosto agridoce do prazer
em cálices e copos
em urros e ais
servidos à cama,
parede, mesa, sofá, tapete, o chão
pela química dos enfim mortalmente
feridos, exangues
de corpos presentes
estirados e velados
em silêncio
à penumbra…encontrados
cada um por si a cada um de nós
quisemos nos perder em olhares
e fomos tão fundamente
que ultrapassamos a interpretação
das mentes
que mentem desmedidamente
quando se trata de paixão
fechamos os olhos
apagamos a luz
tínhamos que nos unir em corpos
que não nos dizem mentiras
procuramos as nossas bocas
nossas línguas encontrando as suas rotas
explorando desvãos e precipícios
as permanências oscilantes do desejo
de intensas a mais intensas
tateando as reentrâncias
protuberâncias e volumes
por dedos-mãos, peles, pelos
sede de beber líquidos
explorar o gosto agridoce do prazer
em cálices e copos
em urros e ais
servidos à cama,
parede, mesa, sofá, tapete, o chão
pela química dos enfim mortalmente
feridos, exangues
de corpos presentes
estirados e velados
em silêncio
à penumbra…