Tirante o pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente…
Posições…
Tudo o que nomeamos, discriminamos, classificamos, justificamos, estabelecemos como tal o que é, seja lá o que for. Passar por cima do que está estipulado como líquido e certo, atravessar o significado das estruturas fixadas pelas palavras não é fácil. O Sol, a Lua, o dia, a tarde, a Terra, a manhã, as horas, os minutos, o Tempo, os segundos, o sexo, o homem, a noite, a mulher… É o Sol que se põe? É a Terra que se move? Quem come quem?…
A loucura não era pouca. Ele, tomado de amor, vibrava em jatos. Ela, gemente de paixão, terminava em prantos…
Dos lençóis revolvidos, surgiam unidos em corpo, suor e sangue. As almas, abandonando a ambos, esvaíam-se pelos poros…
Os fluídos, em escambos, formavam um rio de odores doces e cruas dores…
Quando se despediam, era como se fosse o último encontro. É como se acabasse o mundo. Como se fechassem os portais do tempo. Como se cessassem a contagem das idades. Como se inaugurasse o Templo da Saudade…
Até o próximo quarto de Lua. Até se abrir a porta do próximo quarto. Até a entrega do próximo beijo. Até a consumação do imenso desejo. Até que ele se entregasse em exaustão à rinha, até que ela incorporasse a Louca Rainha…
Em 2020, entre o equinócio do Outono, que se deu em 20 de Março, e o equinócio da Primavera, que se dará em 22 de setembro, o Brasil viveu e vive a experiência da Pandemia da Covid-19, causada pelo novocoronavírus. A previsão macabra é que no próximo equinócio alcancemos a marca de 140 mil mortos pela gripezinha, como um dia nomeou o pandêmico J.M.B., atual presidente da República Federativa do Brasil. Enquanto isso, os dias passam como se fossem iguais, mas irregulares, como se fora um sonho perplexo-randômico-estático a cada dia que amanhece, entardece e anoitece.
Sol de verão nos últimos dias de Inverno. Alijei seus efeitos luminares na fímbria do mar-preto-do-morro. E eis que se vê a mostra um crepuscular Sol da meia-noite deslocado de seu tempo. Absoluta bola avermelhada de fogo cristalizada.
Júpiter e Saturno se apresentaram em conjunção visual com a Lua nos últimos dias de Agosto. Astros distantes entre si, brincaram unidos no firmamento. Ausente um equipamento que pudesse captar a majestade do momento, registrei o brilho lunar emprestado do Sol entre folhas de bananeira e goiabeira, como se fosse uma fruta de luz.
Dias secos. Minhas plantas clamam silenciosamente por água. Eu, que tenho ouvido vozes inaudíveis para muitos, as compreendo e as banho com o líquido vital. O rejubilar das folhas se me assemelham a aplausos. Com a espada d’água, as reverencio.
No equinócio do Outono, eu estava no litoral sul de São Paulo. Foi decretado o fechamento das faixas de areia, o comércio, o funcionamento de pousadas e hotéis e foi impedido o translado entre as cidades. Fiquei preso junto à imensidão do mar. Após retornar a Sampa, voltei outras vezes para a Baixada. Por algum motivo singular, a visão da Serra do Mar — a Muralha — vinha a ganhar um significado inaudito.
Despudoradamente, os sapatinhos-de-judia se abrem também à noite. Ao sair para o quintal, uma delas me encara como cara de quem não sabe o quanto é atraente. Ou apenas dissimula a sua inocência para oferecer beleza íntegra, a narcísica flor.
Forçado a deixar de trabalhar fora de casa, passei a ser uma “dona-de-casa” modelo. Ou pretendi. Sei que o termo usado entre aspas carrega o peso de uma função que no patriarcado significou o máximo que uma mulher poderia alcançar como status social. Tirante as “donas-de casa” que tinham empregadas domésticas. Neste período pandêmico, as tarefas caseiras que fazia para ajudar, tornou-se minha função primordial. O que sempre acreditei, se confirmou: a louça se reproduz incessantemente.
A Lua, quarto crescente, de 102 bilhões de anos… A Aranha, de 102 dias… Um dia, se extinguirão… Só o amor sobreviverá.
Gilson, o rapaz que tem a sensibilidade de encontrar o pai no tom de voz de um desconhecido, deu o mote e logo me senti compelido a criar algo em torno desta foto. Ele, inclusive, sugeriu um título – A Aranha Que Roubou A Lua. Quem compõe ou escreve, sabe que muitas vezes uma canção ou um texto segue certo protocolo e para quem tem as ferramentas, é até fácil construir temas aceitáveis. Mas desde o início, em vez de uma crônica gracinha, chegou a mim os versos que coloco a seguir. A Lua, ainda que roubada, continua a ser poética.
Noite alta… Ainda não era amanhã… E, ainda que fosse, vivo sempre o hoje. Amanhã é um lugar distante ao qual nunca chegarei…
Lua em quarto crescente, o homem, descrente do amor, a busca no olhar e a fotografa. No registro revelado, uma aranha arranha a imagem da penumbra contra as luzes artificiais.
O ser, inicialmente invisível, rouba a Lua de seu protagonismo. Coloca cada elemento, com a sua função. Nada ocorre à esmo. A aranha aprisiona o seu alimento… A Lua consola a minh’alma…
Ontem, eu a encontrei à tarde
Seguia o seu caminho, sem alarde
Tinha a ilusão de prendê-la à rede
Recolhê-la como água para saciar a sede
De embalar o meu sonho clareado
Por sua luz reflexa do sol dourado
Pois hoje todos a buscaram azul
De leste a oeste, de norte a sul
Todos queriam capturá-la em fotos
Prendê-la em nossa eternidade de rotos
Pois sendo ela mais antiga e permanente
A queremos tomá-la da vida a semente
Plena, instaura a esperança como sentimento
Dirige o olhar voltado para o firmamento
Que seja assim a nossa melhor procura
Pela Lua, pelo além, por nossa bela loucura.