Projeto Fotográfico 6 On 6 | Trick Or Treat? | Gostosuras Ou Travessuras?

Dia das Bruxas - 8
Jack da Lanterna

O mês de Outubro, o décimo do ano, o primeiro plenamente primaveril no Hemisfério Sul, aquele onde brotou esta flor que vos escreve, é o meu favorito: pela sonoridade – o número oito-infinito –, por ter nascido nele, por achar, quando garoto, que o Dia das Crianças tinha sido criado para mim. Em seu último dia, Outubro desemboca na fantasia do Halloween ou Dia das Bruxas. Tradição antiga da Irlanda que cresceu muito nos últimos cem anos nos Estados Unidos, acabou por se espraiar por outras culturas, através do poder de disseminação midiática norte-americana. Emblematicamente, pelo poder da Bruxa-Mor da Scenarium, veio pousar no sexto dia do mês, um antes das eleições majoritárias no Brasil, que traz para a cena muita gente que promete gostosuras, mas certamente cometerá travessuras.

Dia das Bruxas - 2
Moi, dans “arabesque par terre”…

Há quatro anos, ao voltar da academia, com a proximidade das eleições, decidi assistir às propagandas políticas daquele ano. Essas peças de marketing ainda eram decisivas, o que não está acontecendo nesta edição, em que a Internet foi muito bem utilizada por um candidato que representa, quase à perfeição, o espírito mais tenebroso de nossa sociedade, coisa de bruxo macabro. Ao refletir sobre aquele momento político específico e sobre o destino de nosso país, concluí que iríamos dançar. Todos. Por brincadeira, disse que decidira aprender balé clássico e, que se fosse para dançar, que fosse com estilo e arte. Eu me coloquei em posição de “arabesque par terre” e sem medo de parecer ridículo, divulguei a foto acima. Sabemos que, com o resultado daquela eleição dançamos, pelos quatro anos seguintes, a dança da sobrevivência – coreografia frenética, em noite escura. Pelo jeito, acho que teremos que aprender novos passos para o ano que entra e os outros que virão…

Dia das Bruxas - 3
Céu de fogo

Os céus de Outono são os mais bonitos. No entanto, por vezes a Primavera se deixa inspirar pela estação que se foi e produz cenários como esse – firmamentos em que tanto podemos nos deslumbrar pela beleza quanto nos assustarmos com a possibilidade de fogo no céu. O Halloween brinca com nossos medos. As bruxas, se não existem, as criamos. E podemos torná-las aterradoras. Elas passeiam com suas vassouras por nosso céu da boca e são cuspidas na atmosfera, sem controle. Todas as bruxas que conheço, são lindas d’alma. Porém, é comum não conseguir mostrá-las. E a impressão é que o mal se espalha…

Dia das Bruxas - 4
Dia transformado em noite…

Outubro é um mês de viradas do tempo. O dia ensolarado toma uma poção mágica e se transmuta em turbulento e estrondoso. Se faz quase noite em pleno dia, como no registro acima, realizado às 15 horas. Prenúncio de tempestade climática, quase a refletir o meu interior desassossegado. Fico a conjecturar se devo domá-la ou deixá-la se expressar. Durantes anos, engoli raios e trovões. Não precisava ser bruxo para saber que adoeceria. Há onze anos, no final de um Outubro como este, quase deixei este plano. Sobrevivi, para viver muitas outras viradas do tempo.

Dia das Bruxas - 7
Concreto e luz…

Há uma cidade onde bruxas e bruxos se batem e debatem como peixes em lago raso. Espaço de concreto e luz artificial. Profecias são cantadas em prosa, verso e versões. O credo da mentira é divulgado aos quatro ventos e amealha muitos seguidores, porque é nojento e atraente. Tudo que pareça um tanto mais harmonioso é um tanto perigoso. Não há porque se viver tão iludido pela verdade, se o falso é nosso espelho. No final de Outubro, haverá em praças públicas danças em torno de fogueiras. Não duvido que os livros de História sejam transformados em combustível para o fogo…

Dia das Bruxas - 5
Lua aluada…

A noite é o período em que bruxas e bruxos se mostram mais inteiros e se demonstram mais poderosos. A luz reflexa da Lua ajuda na magia de se apresentarem mais humanos. Transfigurados em amantes, uivam feitos lobos e lobas no cio. Buscam redenção para o mal que não conseguem deixar de viver. O que aprenderam quando crianças ensinam aos novos bruxinhos, desde cedo – a chantagem que lhes garantem a herança: gostosuras ou travessuras?

Participantes deste projeto:

Ana Claudia | Claudia Leonardi | Fernanda Akemi | Luana de Sousa |
Mari de Castro | Maria Vitória| Mariana Gouveia | Lunna Guedes

Projeto Scenarium 6 Missivas | Setembro – 18 | Sem Destino

Manuscrita
Pessoal e intransferível

Esta carta não será enviada às mãos a quem é de direito. De antemão, sei que será impossível. Por trama do Destino ou desígnios da Deusa Lua, com a qual flerto com o lado escuro, estas palavras não chegarão a sua destinatária. Portanto, posso fazer confissões protegido dos olhos de quem não as lerá…

Começo por declarar que sim – eu a amo. Sei que também me ama. É um amor impuro – seria de outra maneira se permitíssemos jogarmos-nos em nós, se nos atirássemos do alto de nossos medos, enfrentássemos as nossas resistências. Mas, não. Estamos separados pela fidelidade. Somos fiéis aos nossos companheiros, infiéis aos nossos sentimentos. Estamos a perder a chance de nos sujarmos de prazer. Ganhamos a constância da sensaboria, no entanto, sem a limpidez da consciência.

Quando nos encontramos, envergamos sorrisos tímidos. Ladeados por nossos pares, lutamos contra a força magnética que nos impulsiona um a favor do outro, contra nossas vontades. Beijos protocolares nos rostos, roçar de peles que se pudessem ser visualizadas de perto testemunhariam pelos eriçados a se tocarem invisivelmente ponto a ponto. Por milésimos de segundo, sentimos dissolver nossos corpos um no outro.

Como para nós nosso amor pareça ser tão óbvio, tentamos passar tanta naturalidade quanto se a nossa vida dependesse disso. Sei que, como eu, idealiza fugir de tudo e de todos, da mesma forma que nos arrependemos, imediatamente após, daquele futuro imaginário em que ficaríamos sem nossas famílias, nossas casas e nossos amigos.

Sabemos de conhecidos que são amantes, que se divertem despreocupados com os seus desejos atendidos em momentos fugidios, em hora de almoço ou expedientes estendidos. Mas não seríamos nós, que nos sabemos amadores. Amamos nossos companheiros, nossa vidinha vulgar, nossas rotinas de férias programadas… Somos covardes?… Ou apenas sensatos mentirosos?… Provavelmente, um resumo de tudo isso.

Alguns diriam que isso não é amor. Que é somente vontade da carne, como o desejo de ir a uma temakeria de vez em outra – variar de sabor, sentir o gosto do proibido. Sei que não é simplesmente isso porque, se soubesse que morreria amanhã ou se soubesse que você partiria em hora marcada, seria ao seu lado que desejaria estar. Talvez, até partíssemos juntos, mártires da banalidade moral…

Projeto Scenarium 6 Missivas | Setembro – 18
Adriana Aneli| Maria Vitória | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

Maratona Setembrina | Como Posso Ajudar?

Pergunta

Vez ou outra, aperto sem querer alguma tecla no celular que acessa o Google, com a questão: “Oi! Como posso ajudar?”… Não foram poucas as vezes que pensei em perguntar como faria para parar o mundo e descer desta nave que viaja a velocidade orbital média de 107. 200/h em torno do Sol. De fato, em vez de simplesmente causar uma hecatombe mundial, bastaria deixar-se ir… Uma tentação que ressurge de tempos em tempos, apesar da consciência pessoal de que somos mais e melhor do que nos apresentamos como seres humanos.

A sensação é que não há saída objetiva para a situação encalacrada em que nos metemos. Erramos como coletividade, muitas vezes buscando o acerto. Ouço em minha cabeça o dito repetido por minha mãe: “O Inferno, de boas intenções, está cheio!”. Porém, não devemos deixar de perceber que mal-intencionados trabalham ativamente a favor da continuação deste quadrante confuso em que nos perdemos, por onde trafegam com habilidade e facilidade.

Eu acredito que seja Espírito encarnado e não apenas uma carne com alma. Portanto, atuo no mundo material e não devo deixar de participar do concerto regido por minhas ações – causa e efeito. Acredito que, conjuntamente, devemos construir nossa realidade física. Acredito que o Amor seja o filtro mais eficiente para nos conectarmos com o repositório energético original de nossa existência. O Amor abre portas, agrega, ajuda e reconforta.

No entanto, a tendência é de que se responda com Ódio a situações difíceis. Dos dois lados, os “separatistas” – oportunistas que buscam nos fragilizar como cidadãos – apostam todas as fichas na desunião para se assenhorarem do poder delegado por nós, através das eleições. Sabem que há divergências de opiniões e as realçam, em vez de buscarem objetivos em comum. Bem aparelhados, se apropriam de um discurso fácil e padronizado, que não dá margem à debates – comandos de ordem-unida. Dado “novo”, em termos de força, as redes sociais ganharam expressão inaudita nessa tarefa.

O que existe de concreto é que, mais do que nunca, as pessoas deixaram suas convicções internas eclodirem, como pústulas. Abriram suas caixas de Pandora particulares e libertaram para o mundo preconceitos e posturas que não contemplam solidariedade, compreensão ou tolerância. A convivência de diferentes opiniões tornou-se quase impossível diante de posturas inflexíveis, em que além da falta de compreensão de texto, entra em cena a pura imposição de valores pessoais de uns sobre os outros.

O fantasma da Ditadura nunca se fez tão perigosamente presente cotejada como solução desde a redemocratização do País. Os militares – igualmente cidadãos brasileiros, mas que são impedidos de atuarem politicamente pela Constituição – tem em seus quadros saudosos do tempo em que imperavam. Naquela época, patrocinaram e deixaram que prosperassem a tortura e o assassinato, com o ativo envolvimento de civis na estrutura montada para a repressão.

Está a se enganar quem crê não houve corrupção nesse período. A carta branca obtida através do Golpe de 64 levou à corporação o bichinho da prevaricação corporativa típica do arcabouço estatal arcaico desenvolvido ao longo da História brasileira. A bem da verdade, sob o manto insuspeito da divisa “Ordem e Progresso”, grupos que sempre se refastelaram de benesses associadas ao poder, continuaram atuando com total proteção daqueles que deveriam promover a segurança e o bem-estar da maioria da Nação.

Como quem noticiasse qualquer irregularidade poderia vir a sofrer represálias como prisão, tortura, desaparecimento, “suicídio” ou morte, as vozes se calaram ou foram caladas. Daí a errônea perspectiva de que não ocorresse as “tenebrosas transações” enquanto estávamos distraídos em sobreviver. Assim, estamos a nos postarmos diante da urna com a dúvida cruel entre votar em quem acreditamos ser a melhor alternativa para nós ou contra quem representa retrocesso e insegurança, ainda que anuncie combatê-la como mote de governo.

Enquanto isso, observo a noite estrelada, tendo a Lua como rainha soberana. Algumas luzes já estão mortas a milhões de anos, alheias aos nossos prosaicos problemas. Porém, ainda podemos a vê-las. Registros legíveis de um passado. Assim como certos fantasmas que apenas esperam a oportunidade para ressurgirem da escuridão dos porões ondem vivem…

maratone-se

BEDA | Meus Anos 50

Anos 50
Rumo ao sétimo ano da quinta década…

Vivo meus anos 50. Mais um pouco, inaugurarei a sétima edição anual da década. Este decênio foi totalmente diferente do que idealizei. E completaria: graças a Deus! Ao final dos meus Anos 40, tive um episódio de saúde que modificou minha interação com a vida. Cinquenta anos em cinco – emblemática frase de Juscelino Kubistchek – apenas emprestava números ao desejo de fazer crescer o país dos Anos 50, cuja a inauguração de Brasília, no início dos 60, foi um marco. Nestes meus Anos 50 particular, esperarei ter crescido, ao final de tudo, cem anos em dez – a crise hiperglicêmica foi a minha marca inicial, em 2007.

Definir datas como pontos cardinais, com números redondos parece ser uma tentativa para justificar situações que teriam começo e fim, sem causas anteriores e repercussões posteriores – uma espécie de “Big Bang” histórico, assim como anuncia a frase: “nunca antes, neste País…”. O Brasil parece ser uma nação de ciclos, sempre a se repetir, rota sem saída para o mar, com o apoio luxuoso de nossa falta de memória. Tento manter a lembrança daquilo que me levou a enfrentar determinadas situações. Sem isso, não há como saber como cheguei onde estou. Adotei a imprudência de me arrepender apenas do que não fiz. No mais, apesar da tentação de deixar tudo ao “acaso”, se é que ele existe, sei do rumo que tomei. E das consequências que ele gerou.

O contexto em que vivo os meus Anos 50 tem sido incrível. É como se tivesse aberto os meus olhos apenas agora, nos meados do meu século de vida. Eu me deixei levar pela aventura de amar – dizem que o mocinho morre no final. Eu retomei os estudos, entre compromissos profissionais e pessoais. Lancei o meu primeiro livro e estou prestes a lançar o segundo, dia 25, antes que este Agosto se encerre*. Nunca me senti tão pleno, talvez viva o ápice que todos visitam, antes do fim.

Ainda aguardando as surpresas que me reservam esta era, já vislumbro as possibilidades dos Anos 60. A década histórica do século passado, na qual nasci, foi uma das mais importantes dos 1900. De alguma forma, aglutinou todos as potencialidades que vivemos depois. Marcou mudanças estruturais que ainda repercutem nos dias atuais. Guerras (frias e quentes), luta pelos direitos civis, emancipação da mulher, revoluções político-ideológicas e comportamentais, viagem à Lua e a propaganda da ideia do “País do Futuro”, entre tantos fatos possíveis.

Saúdo a todos e a todas que estão chegando aos seus próprios Anos 50. Saberão que a vida ganha frescor, com o início de novos e estimulantes formatos e término de antigos e infrutíferos projetos. Muitas vezes, com pesar, porém com convidativos e bem-vindos significados! Feliz nova década!

*O livro de contos curtos “RUA 2”, editado pela Scenarium Plural – Livros Artesanais (https://scenariumplural.wordpress.com/), será lançado dia 25 de Agosto de 2018, sábado, na Starbucks Brasil – R. Des. Eliseu Guilherme, 200 – Paraíso, São Paulo, a partir das 18h às 20h. Convido a todos!

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

Balada

Globinho
Face luminosa da lua…

Filas se formam para adentrar à bolha. Desejosos por perderem os sentidos, embalados por batidas em RPMs cada vez mais acelerados, seres vivos entregam seus corpos às frequências-repetitivas-circulares. Em meio às ondas sonoras, luzes psico-estroboscópicas não permitem que se formem pensamentos, apenas reações. Conduzidos por substâncias lícitas e ilícitas, civilizados repetem antigos rituais coletivos tribais-gentis.

Mantras eletrônicos-aliciantes se sucedem em cascatas no salão de cima a baixo, lado-a-lado, para-dentro-para-fora, em frenesi que transcende o indivíduo e assume proporção de tsunami mental. Por instantes, pode-se sentir reverberar a presença do amor químico, entre suores e salivas. O mundo vibra como substância etérea. Visita à face oculta da lua.

Tudo é espontâneo, permitido, nada é sem sentido. Entregar-se a si e a outra pessoa é satisfatório, natural. Sexo sem penetração. DJ é Deus, reverenciado como tal, a ser contemplado com chupadas das meninas e meninos mais entregues, enquanto outras línguas pronunciam cânticos-grunhidos-gemidos ritmados em resposta à condução do maestro do som oscilante.

Depois de horas, exangues, fruídos personagens retiram-se do ambiente onde oraram enlevados pelas seitas pagãs-dionisíacas do movimento, em estertores de membros e cabeças. Voltam à vida comum, social-insaciável em consumação de pensamentos encadeados-ordenados em números e proporções, regras e utilidade civil… até que chegue o próximo sábado.