Projeto 52 Missivas / Luz Fixa

Meu bem, o silêncio aumentou tanto que o relógio parou. Saí para encarar a noite fria para — quem sabe? — ouvir o vento a vibrar entre as folhas da goiabeira ou da mangueira. Nada. Certo que perdera audição, chamei a mim mesmo. A minha voz ecoou para além da minha caixa craniana. Eu me ouvi, mas o silêncio perdurou. Não havia o coro dos cachorros a latirem para a Lua. Sem motores de carros e motos a percorrerem as ruas do meu bairro. Na rota dos aviões que se dirigem a Guarulhos, não ouvia a sonoridade monocórdica de jatos cruzando o céu da noite silente.

Pouco a pouco, o silêncio começou a pesar como se fosse sólido. Sem o som do aço do carro a colidir contra um bêbado. Atropelado sem alarde, sem gritos, ausente do som de pneus da freada no asfalto ou do impacto na carne ensanguentada. Lamentos sem expressão, igrejas pentecostais sem hinos, bares sem música e vozes de boêmios caladas. As batidas de meu coração inaudíveis, a minha existência parecia estar suspensa no tempo e no espaço.

A luz fixa do poste parecia uma fotografia em preto e branco. As cores foram se desvanecendo e se ausentaram totalmente madrugada adentro. Sem conseguir sentir as horas passarem, os relógios analógicos e digitais sem as registrarem, comecei a imaginar que estivesse morto. Quis gritar e minha garganta já não emitia nenhum som. Estava em um pesadelo, por certo, mas as sensações eram intensamente vívidas, como quase nunca senti. Como se fosse a vida pós-morte, ressonei silenciosamente a minha nova condição. Recuei para dentro de casa. Subi ao quarto vazio, deitei. Adormeci.

Acordei ouvindo a sua voz dissonante chamando para o café da manhã. Nunca a amei tanto!

Participam de 52 Missivas:

Ana Clara de Vitto – Lunna Guedes – Mariana Gouveia

Noite Branca

foi assim…
ela disse fica bem
respondi fica com deus
eu, que nem nele acredito
despedida marcada
sem uma palavra de adeus
se houvesse mensagens
as ignoraria com sórdido prazer
era uma noite branca
lua cheia por trás da nebulosidade
primavera em outubro rosa
veias cortadas sem sangue
olhos que não se viam
vozes que não se falavam
bocas sem beijos
mãos que não se tocavam
separados pela distância
unidos na mágoa
o frio que se impunha
termômetro nos 25 graus
sete invernos e uma pandemia
talvez já tivesse acabado no solstício
feneceu no equinócio
mas você não mudou, disse ela
você não me ama mais, disse eu
os prédios pintados de tarde
o escuro protetor
das noites nunca alcançadas
ficou para trás nas avenidas centrais.



Coleção “As Idades” / Posicionamento Político / 57*

Em meados de 2018 – ano que o Brasil mostrou a sua pior face…

“Perguntaram sobre o meu posicionamento político. Disse que era um homem que ama as mulheres e que sabe distinguir entre o salmão e o rosa. Que proclama liberdade para as borboletas e é a favor do porte de amor. Que se decepcionou com alguns movimentos humanos, por isso prefere o movimento do mar, das folhas e do ar — vento no rosto. Que gosta de trabalhar e que busca não ofender ninguém, ainda que não goste de muitos. Que não é isento e nem se ausenta quando necessário. Que erra e acerta. Que acredita na Democracia e na diversidade. Que vive o presente, buscando a eternidade do momento. Que sabe que morrerá, mas deseja, ainda assim, deixar um mundo melhor para quem vier. Por isso, o meu voto será sempre a favor da vida e da flor, da Lua, da chuva, do Sol e do sal do suor quando faço amor.”

*Essa declaração a fiz em 2018, a poucos dias de completar 57 anos. Em Outubro daquele ano se dariam as eleições de 1º e 2º turnos que acabariam por eleger o atual mandatário do Executivo Federal. Recebi reprimendas de uma senhora com a qual mantinha um relacionamento cordial até então. Depois, mais nada. Mesmo que não houvesse citado nominalmente a ninguém como destinatário de meu voto, o que expressei bastou para eliminar a quem ela apoiava — aquele que ia contra contra tudo o que descrevi. Estávamos apenas no começo do pesadelo que viria a nos assombrar pelos anos que se seguiriam…

De Sol À Lua

Conversei com o Sol, hoje. É comum, ao me sentir solitário, pedir que ele reflita sobre mim a sua luz mais amiga, aquela que aquece, mas não queima; a que clareia, mas não cega; a que se afoga no crepúsculo para ressurgir na aurora; a que nos ensina a viver e nos dá a dádiva de morrer. Quando escurece e parece se ausentar, ilumina a Lua, como a revelar o poder da Natureza de sempre estar presente.

#TBT

Nesta quinta-feira, dia internacionalmente conhecido nas redes sociais para a postagem de #TBT, mostro aqui alguns registros esparsos no tempo. A expressão “TBT“, é a abreviação, em inglês, de “Throwback Thursday” ou, em tradução livre, “quinta-feira da nostalgia”. São, como serão estas aqui, imagens que nos remetem a comentários sobre a vida — que aprendemos a identificar como algo quase indecifrável enquanto a vivemos sem sabermos o fim em si. A não ser que tenhamos fé que assim não seja. Fé prova a existência da fé, mas não o que o objeto da fé trata. Criar algo que possivelmente não tenha alguma finalidade é de uma teimosia insanamente admirável…

BELO HORIZONTE EM SP (2015)

Peço que me desculpem o abuso, mas não posso deixar de partilhar com vocês a visão que tive do final da tarde de hoje, um sábado do início de inverno de 2015. Esta é uma São Paulo de belos horizontes, quando nos é dado presenciar. Boa noite!

COCÔ-ARTE (2012)

Quem vive com cachorros, sabe que nem tudo são flores no relacionamento com esses seres especiais. Como são artistas em vários aspectos malabaristas, atores, palhaços e produtores de arte muitas vezes eles têm rompantes criativos. Hoje, logo de manhã, contemplei essa arte das minhas cadelas em um lugar que deveria estar vedado ao acesso delas, já que colocamos um gradil que deveria impedi-las de acessar (esqueci de dizer que também eram acrobatas). Chamei essa criação de cocô-arte, mesmo porque, arte cocô está cheia por aí…

SANGUE NA TARDE (2016)

O inverno anuncia tardes
derramadas em delírios…
Mal podemos perceber
que o tempo seco nos arranca
a umidade da pele
que se arrepia ao toque do frio…
Os olhos desejam
que se torne espelho a beleza
que se apresenta,
enquanto vemos que a paixão
do Sol pela Terra termina
vertida em sangue…

O ESTIVADOR (2016)

Esta é uma homenagem aos trabalhadores do cais, que carregaram nas costas a riqueza do País. Esta estátua se encontra em um trecho do longo percurso junto aos cais do Porto de Santos. Normalmente relacionado ao trabalho em embarcações, “estiva” refere-se à primeira camada de carga que se mete em um navio, e que é geralmente a mais pesada. Em decorrência disso, o trabalho físico de transporte de toda a sorte de objetos — sacas, fardos, móveis, madeira, ferro, etc — acabou por designar a atividade-profissão de “estivador”.  Durante séculos, seres escravizados ou pagos à soldo, embarcaram a riqueza sempre mal distribuída por todas as nações do mundo. Eventualmente ainda realizada em lugares sem o maquinário adequado, a estiva me é bastante próxima, já que de forma semelhante, carregamos, eu, meu irmão e outros, equipamentos de sonorização e iluminação para a montagem de apresentações evanescentes, como se fossem eventos mágicos que só se confirmam se filmados e/ou fotografados. Provas totalmente refutáveis, ainda mais que a memória se dilui ao longo do tempo…

EM LUA, ARADO (2017)

Céu enluarado,
vasto campo arado
de estrelas enterradas nas nuvens…
Um dia, brotarão em luz
as sementes de um tempo
limpo,
sem dolo e má intenção…
Não, hoje…

DANÇANDO, SEMPRE (2014)

Voltando da academia, pensando sobre o atual momento político, as eleições de domingo e sobre o destino de nosso país, concluí que vamos dançar. Todos! Decidi que vou aprender balé clássico. Se for para dançar, que seja com estilo e arte, praticando um “arabesque par terre”.