Mentiroso*

A Hora Tardia (1959), de Edward Hopper

Eu aprendi a mentir por amar
Por uma paixão fora de hora
Fora de quadro
Sempre a procura de um quarto
Por pelo menos um quarto de hora
Para devorar e ser devorado
Urgentemente…

Ah, amor sem perdão
Devotado à perdição
Total
Irremediável
Inadiável
Verdadeiro, minto
Para tê-lo
Senti-lo
Sê-lo…
Sou uma mentira que ama!

*Poema de 2015b

Fim De Festa

O clima de “fim de festa” impera entre os perdedores. Muitos, dopados pela alegria que alcança os seus picos com a valiosa ajuda de aditivos e vontade de ultrapassar limites. Após a terceira dose, qualquer banda “meia-boca” se torna a melhor, não importando as “bolas nas traves” de instrumentistas e cantores. Qualquer bandeja que cai dos braços dos garçons é motivo para dançar. As mulheres substituem os saltos-altos pelos chinelos ou pés descalços. Os homens, arrancam as gravatas, as camisas abrem os peitos, as retiram das calças. Beijos entre desconhecidos de minutos antes são trocados. Todos estão irmanados na sensação de felicidade baseada na possibilidade de eterno gozo. Porém, vivemos na Terra, na realidade transitória deste plano – típica do próprio planeta – que um dia será engolido pela explosão do Sol.

A operação de rescaldo é realizada por aqueles que não participam do evento como convidados, a não ser para servir a ela. Os músicos guardam os instrumentos, os técnicos desmontam o equipamento de som e iluminação. Os garçons recolhem pratos, talheres, os restos alimentares e os conduzem para a cozinha onde serão lavados e guardados. Logo mais, haverá outro processo de catarse – para o “bem” ou para o “mal” – sempre haverá registros dos quais muitos se ressentirão, quando a intenção seria o de festejar. Aliás, a depender dos que estavam festejando antes do tempo, ao perceberem que terão “contas a pagar” após o encerramento do furdunço, o arrependimento bate fundo…  Se não, será o momento das explicações. Que as aceitem quem o quiser. São lobos que ao perderem os dentes, virão outros a substituírem.

As repercussões duram o tempo que merecem durar. Sempre haverá outra festa, incluindo àquelas que são feitas para desviar a atenção sobre a maior delas. Vida que segue, a ressaca moral só ocorre quando o coração se faz presente. Incluindo a aqueles de certa maneira decidimos não gostar. Se for para errar, que seja pelo coração. A decepção normalmente é do tamanho da expectativa. Quanto maior uma, maior a outra. A narrativa dos participantes é validada por “torcedores” de seus emissores. Aliás, a “verdade” dos fatos depende muito de quem os narra. Da carga de prestígio do narrador infere-se a veracidade.

Porém, é comum que os bons mentirosos se sobressaiam em protagonismo, acostumados que estão ao exercício da vivência pela baseada na ficção. De fato, os fãs esperam ávidos a nova mentira que será proferida, principalmente porque se alinham ao que pensam, não importando que tenham base nos acontecimentos obviamente expostos. É o famoso “me engana, que eu gosto”. Fim de festa, enfim, nunca será o fim. Isso, quando sabemos que festas são feitas para acabar…

Foto por Kindel Media em Pexels.com

BEDA / O Poderoso Chefão

O que pode unir pessoas de origens, idades e vivências diferentes na provocação de emoções similares? Uma obra como The Godfather seria uma boa resposta. O público no cinema, em silêncio reverente, comungava da mesma energia a cada cena, seja no uso da luz estuporada da província italiana de onde surgiu a Famiglia Corleone, quanto nos matizes escurecidos da América transformada em provinciana. Talvez, nas cenas da festa de casamento com o qual se inicia o filme, onde são apresentados vários dos personagens que vivem e morrem durante o seu desenvolvimento, haja uma mistura das frequências de luz e sons a sombra, a gravidade das falas e os esgares-sorrisos da sala do poderoso chefão em contraponto ao colorido das roupas e o alto volume das risadas desbragadas dos parentes e convidados.

O filme todo é um portento de ambição cinematográfica, quase uma homenagem à ambição de poder que permeia a história da Máfia nos Estados Unidos. E Francis Ford Coppola consegue nos impactar com a sua condução em que a violência é uma personagem do filme, com linguagem e atuação autônoma e grandiloquente, tendo os outras personagens como coadjuvantes. Como a criar um clima de suavidade enganosa, a música de Nino Rota se constitui em personagem essencial, uma espécie de substrato feito campo arado e fertilizado onde cresce a planta do mal. Marlon Brando não é nada brando em seu talento intuitivo e definitivo. Al Pacino passa de calmo e arguto jovem que a tudo observa de fora como se fosse um espectador que não quer participar, até transformar seu comportamento ao ver seu pai ser ferido mortalmente.

Então, o vemos crescer cena a cena na percepção de como funciona o jogo do poder. E o joga de forma magistral, com as regras que todos conhecem o poder sobre a vida e a morte e o uso da mentira como arma. Quando o jovem Padrinho começa a receber os cumprimentos dos demais “capi” como seu pai recebia, a porta se fecha para o amor na figura de sua mulher. Os aplausos ao acender das luzes ecoaram no silêncio de quem se comoveu, como eu, com os olhos marejados d’água.

Participam do BEDA: 
Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi 

BEDA / Rèveillon Da Mentira

1º de Abril de 2021

Há 90 dias, realizei o meu último evento da manhã de 31 de Dezembro de 2020 até a manhã de 1° de Janeiro com a Ortega Luz & Som. Somos aqueles que chegamos primeiro e saímos por último. Trabalhamos, meu irmão, Humberto e eu, na base de sustentação da expressão artística ligada à música, à dança, à celebração de viver. À época, eu tinha plena consciência do que teríamos pela frente. Cheguei a enunciar que o ano de 2020 tinha sido apenas um spoiler de 2021. Ou que 2020 havia começado em 2019 e terminaria em 2022… com sorte!

Não sou uma pitonisa, de forma alguma. Apenas sempre fui um estudioso da Ciência e uma pessoa curiosa pelo Conhecimento, em busca de respostas pelo simples prazer de saber. Nunca achei que as coisas tivessem respostas simples, ainda que muitas questões são de solução óbvia. Sempre busquei perguntar, argumentar, verificar pontos de vista antagônicos, nunca aceitei fórmulas mágicas, nunca busquei reinventar a roda ou desprezar o conhecimento humano acumulado por milhares de anos.

É com muita tristeza que vejo hordas de cegos ideológicos reproduzirem movimentos que já devíamos ter superado. Certos ciclos se repetem justamente pela quebra da informação geracional, muitas vezes de forma intencional. E se de alguma coisa valeu esta Pandemia, é perceber que essa não é uma característica brasileira, apenas. A ignorância grassa pelos Hemisférios de alto a baixo, de um lado ao outro.

Quanto ao evento, passamos, meus colegas e eu – músicos, bailarinas, empresários – por picos emocionais e imergimos em um mar de sentimentos contraditórios. De encontro e de despedidas, de um ano difícil para outro que deveria trazer um novo alento. Dentre tantas pessoas, alguns poucos que como eu traziam o sorriso amarelo por debaixo das máscaras (usei umas cinco naquele calor infernal), sabendo que reuniões como aquela, que cumpríamos por força de contrato, seriam responsáveis, junto com às aglomerações do Carnaval, pela hecatombe que sobreveio sobre o nosso sistema de Saúde.

Após o Réveillon, recusei todas possibilidades de eventos que não tivessem a mínima segurança. Não apenas por mim, mas também por quem eu nem conheço. Neste Dia Da Mentira, que saibam separar o que é real do que é mitológico. Estamos pagando um preço muito caro, fortemente dimensionado em perdas humanas, por falácias propagadas por mitos e mitômanos.

*Texto de 1º de Abril de 2021

O BEDA é uma aventura compartilhada por: Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi

Um Macho Alfa Para Chamar De Seu

Para o primeiro, ele fez questão logo que pode de fazer juras de amor. “I love you!” para lá. “I love you!” para cá. Seu objeto de desejo, brilhava alaranjado na escuridão que vibrava em torno de si. Mal por natureza, o de baixo encontrou identidade no sujeito de cima que dirigia sua casa à base de mentiras. Igualmente filho da mentira, sentia-se distinguido ainda que fosse desprezível e desprezado. As proles de ambos se imiscuíam em tarefas de sequazes espelhados. Apraziam-se todos de beber de fontes que julgavam inesgotáveis. A cegueira os guiou a construir fronteiras muradas, a derrubar linhas de comunicação com a verdade, a estabelecer a morte como ponto de medida de caráter edificante. Até que, um dia, o macho alfa do Norte foi embora, apeado do poder. Para quem os seus olhos se dirigiriam com o desejo de antes? Quem seria o exemplo de homem a ser seguido como amante dedicado?

Voltou a sua atenção para o Leste. Viu que ali estava alguém que, como ele, não prezava os limites da dignidade e tampouco da vida humana. Alguém ambicioso, que estufava o peito como ele mesmo fazia. Dono de mísseis que poderiam destruir o mundo assim como o outro, este, não apenas isso, não teria constrangimento em fazer uso. Um homem que via como corajoso, não insano como é. Que, como o seu antigo amante, ia atrás do queria sem pestanejar, ainda que não tivesse o topete físico do antigo. Um macho alfa, sem dúvida. Ridículo, como todos são. Para ele, alguém que valeria a pena investir. Para isso, serviria como peão no jogo de poder de seu novo objeto de desejo. Para isso, faria o que fosse pedido. Ajoelharia para rezar, ainda que colocasse o nome de seu País como almofada de apoio. Entregaria flores para homens que atacou um dia, apenas para receber um pouco da atenção de seu novo amado, se bem que bem menos do que a sua companheira atraiu. O ciúme que teria sentido foi por ele ou por ela?

Enfim, quando o seu novo macho alfa descumpriu a palavra, mas cumpriu o que intencionava – dominando como queria ser dominado, invadindo como queria que o invadisse, matando como sempre quis matar – deve ter sentido o máximo prazer orgástico que apenas um demente sentiria nesses momentos. Um ser que condena nos outros o que não aceita em si. O máximo elogio que poderia dar: se absteve de condenar a invasão. Entregou o País à reprovação mundial.